Contos em verso/Contos cariocas/Bem feito!

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BEM FEITO!
 

A mulher do Vilella
Não era uma Penelope; os visinhos
Viam de vez em quando em casa della
Entrar um moço de altos collarinhos,
Polainas e cartola. Não seria
Caso para estranhar, e aquella gente
A’ lingua não daria,
Si não escolhesse o moço justamente,
Para as suas visitas,
As horas infinitas
Em que o dono da casa estava ausente.

Defronte, um cidadão austero e grave,
Marido e pae de umas senhoras feias,
Que, zeloso, ao sahir, fechava á chave,
Sentia o sangue lhe ferver nas veias
Sempre que via aquelle sujeitinho,
Desrespeitando a visinhança honrada,
Em casa entrar do credulo visinho.
Por isso, resolveu — cousa impensada! —
Dizer tudo ao marido,
Que não era, aliás, seu conhecido,

E ter com elle foi, um bello dia,
Lá na secretaria
Onde o pobre diabo era empregado.

— Falo ao senhor Vilella? — A um seu creado. —
— Pois, meu caro senhor, fique sciente
De estar aqui presente
Joaquim Belmonte, funccionario honrado,
Ha muito aposentado,
Pae de familia honesta,
Respeitavel, pacifica, modesta. —
Vilella respondeu: — Senhor Belmonte,

De vista já o conheço desde o dia
Em que um predio aluguei mesmo defronte
De vossa senhoria.
Eu tenho a honra de ser seu visinho. —
— Bem sei, e é justamente
O que me traz. — Parece que adivinho:
Commigo aqui ter veiu,
Muito provavelmente,
Para commigo combinar o meio
De fazer com que a nossa
Municipalidade,
Que tão pouco se occupa da cidade,
E que ás reclamações faz vista grossa,
Mande limpar aquella immunda valla
Da nossa rua, que nos contraria
Pelo cheiro que exhala
E ha de ser causa de uma epidemia... —

— Não, não venho tratar da valla; eu venho
Tratar de coisa muito mais nociva,
E por cuja extincção muito me empenho,
E hei de empenhar-me creia, emquanto viva,
A coisa não depende
Da Mun’cipalidade,
Mas do senhor, — entende?
— Para falar verdade,
Naõ entendo, — Meu caro, eu poderia
Escrever-lhe uma carta,
Que não assignaria;
Mas sou digno de haver nascido em Esparta:
Acho as cartas anonymas infames,
E uma infamia jámais commetteria,
Embora me expuzesse a mil vexames. —

Depois desse preambulo,
O Vilella ficou pasmado e mudo;
Parecia um somnambulo.
O outro continuou, grave e sisudo:
— O senhor é casado,
Ou, si o não é, parece, — pelo menos
Vive na sua casa acompanhado
De uma senhora e de mais dois pequenos. —
— Mulher e filhos meus, disse o Vilella. —
— Abra o olho com ella!
Quando o senhor não está, vae visital-a
Um janota, e, reflicta,
Não é de cerimonia essa visita,
Pois não lhe abrem a sala... —

Vilella deu um pulo
Da cadeira em que estava, e ficou fulo;
Mas o velho puxou-o pelo casaco
E obrigou-o a sentar-se,
Dizendo-lhe: — Vá lá! não seja fraco!
Ouça o resto, e disfarce...
Naquelle bairro inteiro
O escandalo commentam,
E o vendeiro, o açougueiro e o quitandeiro
Mil horrores inventam,
Dizendo que o senhor sabe de tudo,
Mas faz de conta que de nada sabe!
Eu não sou abelhudo,
E outro papel no caso não me cabe
A não ser a defeza do decoro
De minhas filhas, que esse desaforo
Profundamente offende.
Não póde aquillo continuar, entende?

Disse o Vilella emfim: — Velho maldito,
Si tudo quanto para ahi tens dito
Não fôr verdade, apanhas uma coça!
Livrar-te destas mãos não ha quem possa! —
— Faça uma coisa, respondeu tranquillo
O velho: quer saber si é certo aquillo?
Pois amanhã, quando sahir, não venha
Para a repartição: em minha casa
Entre, e lá se detenha.
Fique certo de que não perde a vasa,

Escondido por traz da veneziana,
Verá entrar o biltre que o engana,
Está dito? — Está dito! — Lá o espero,
Sou velho honrado. Convencel-o quero. —

Foi-se o Belmonte, e o misero marido
Ficou estarrecido;
Mas de tal modo disfarçou o estado
Em que o deixára o velho estonteado,
Que, entrando em casa á costumada hora,
Não notou a senhora
Nenhuma alteração, — e, no outro dia,
Posto á janella do denunciante,
Que, fechada, discreta parecia,
Viu entrar o amante,
Que elle não conhecia.

Correu Vilella á casa n’um rompante,
Antes que o outro lhe embargasse os passos,
Ou lhe puzesse os braços,
E um barulho infernal se ouviu da rua
Subitamente alvorotada, e cheia
Dessa canalha vil que tumultua
Quando vê novidade em casa alheia.

O corpo do janota pela escada
Rolou como uma bola,
E a luzente cartola
Na rua, encapellada,
Antes do dono appareceu. A vaia

Que elle apanhou foi tal, tão formidavel,
Que, viva elle cem annos, é provavel
Que da memoria nunca mais lhe saia.

Mas, oh, astucia de mulher, quem póde
Sondar os teus arcanos,
Medir os teus recursos?!
Um Hercules não ha que não engode
O ardil dos teus enganos
Ou o mel dos teus discursos!

E o Vilella não era
Precisamente um Hercules, coitado!
A esposa, que elle amava, e por quem déra,
Feliz, enthusiasmado,
A vida, sí ella a vida lhe pedisse,
A esposa... que lhe disse?
Que o janota não era o seu amante,
Mas o seu mestre de francez; queria
Aprender essa lingua, que humilhante
Era viver na roda em que vivia,
Sem saber o francez... Elle, o marido,
Já meio convencido,
Lhe perguntou por que razão queria
Aprender em segredo,
E ella, pondo-lhe um dedo
No labio inferior, poz-se a agital-o,
Como si fosse um birimbáo, e disse:
— Eu queria fazer-te uma sorpresa.

Passado o grande abalo,
O bom Vilella, sem que ninguem visse,
Poz-se na esquina á caça do Belmonte,
E — oh, que não sei de nojo como o conte! —
Deu-lhe uma tunda mestra, e derreado
Dois mezes o deixou. Foi coisa nova
Apanhar uma sova
Um grave funccionario aposentado.

Mas, passada tão longa penitencia,
Quando se ergueu do leito,
O velho interrogou a consciencia,
E a consciencia respondeu: — Bem feito!