De flores, e pedras finas

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Sucede a este governador o Marquez das Minas com seu filho o Conde do Prado, desfazendo todas as suas obras, e mandando vir os principaes da Bahia do Desterro, em que andavão, pela morte, que outros deram ao alcayde môr Francisco Telles.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsHomens de Bem
Mote

De flores, e pedras finas
floresce, e enriquece o Estado
floresce sim pelo Prado,
e enriquece pelas Minas:
As Aves, que peregrinas
aos montes se retiraram,
nesta manhã já cantaram
com tão doce melodia,
que a noite se tornou dia,

porque as penas se acabaram.


1Já da Primavera entrou
a alegre serenidade,
com que toda a tempestade
do triste inverno acabou:
já Saturno declinou
nas operações malignas,
com influências benignas
Júpiter predominante
nos promete ano abundante
De flores, e pedras finas.

2Se destes aspectos tais
bem se calcula a figura,
teremos grande fartura,
não há de haver fome mais:
mostras temos, e sinais
de um tempo muito abastado:
porque bem considerado
dele tem o próprio efeito;
já vemos, que a seu respeito
Floresce, e enriquece o Estado.

3Para ser enriquecido
este Estado, e florescente,
temos a causa patente
no Planeta referido:
nem se equivoca o sentido
no efeito aqui declarado:
porque sendo bem notado
o estado, como parece,
se pelo mais não floresce,
Floresce sim pelo Prado.

4Pelo Prado flor a flor
se vai a terra esmaltando,
com que o clima está mostrando
temperamento melhor:
do Luminar superior
por tais influências dignas
sendo as pedras, e boninas
da terra únicos primores
pois se esmalta pelas flores,
E enriquece pelas Minas.

5Na terra já se exprimentam
virações tão temperadas,
que as aves determinadas
tornar aos ninhos intentam:
já não sentem, nem lamentam
tempestuosas ruínas,
pois com salvas matutinas
se mostram tão prazenteiras,
que mais parecem caseiras
As aves, que peregrinas.

6Sua peregrinação
influxo foi de Saturno,
Planeta sempre noturno,
e muito importuno então:
todas nessa conjunção
seus doces ninhos deixaram,
e tanto se recearam
do nocivo temporal,
que escolhendo o menor mal,
Aos montes se retiraram.

7Porém tanto que sentiram
haver no tempo mudança,
sem receio, e sem tardança
aos ninhos se reduziram:
outros ares advertiram,
outra clemência notaram,
com que alegres publicaram
dos astros os movimentos,
e com festivos acentos
Nesta manhã já cantaram.

8Cantaram para mostrar
com repetidas cadências
singulares excelências
de um Planeta singular:
tal doçura no cantar
não se ouviu nesta Bahia,
ouvindo-se na harmonia
modulações tão suaves,
que nunca cantaram aves
com tão doce melodia.

9Cada qual com voz sonora
nos mutetes, que cantavam,
por mil modos explicavam
de todo estado a melhora:
cada instante, e cada hora
a música mais se ouvia;
no Prado resplandecia
por modo maravilhoso
um lustre tão luminoso
que a noite se tornou dia.

10Entre as aves modulantes,
que este nosso País tem
todas cantavam o bem,
de que são participantes:
dos males, que foram dantes,
todas também se queixaram;
assim que todas mostraram
com alegrias notórias,
que começaram as glórias,
Porque as penas se acabaram.