De fornicário em ladrão

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A certo frade, que querendo embarcar-se para fora da cidade, furtou hum cabrito, o qual sendo conhecido da may pelo berro o foy buscar dentro do barco, e como não teve effeyto o dito roubo, tratou logo de furtar outro, e o levou assado.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1De fornicário em ladrão
se converteu Frei Foderibus
o lascivo em mulieribus,
o mui alto fodinchão:
foi o caso, que um verão
tratando o Frade maldito
de ir da cidade ao distrito,
querendo a cabra levar,
para mais a assegurar,
embarcou logo o cabrito.
  
2Mas a cabra esquiva, e crua
a outro pasto já inclinada
não quis fazer a jornada,
nem que a faça cousa sua:
balou uma, e outra rua
com tal dor, e tal paixão,
que respondendo o mamão
alcançou todo o distrito
nas respostas do cabrito
o codilho do cabrão.
  
3Estava ele muito altivo
com seu jogo bem assaz,
porém, por roubar sem ás
perdeu bolo, cabra, e chibo:
porque sem pôr pé no estrivo
saltou na barca do Alparca,
e dizendo desembarca
saiu co filho a correr,
porque então não quis meter
com tal cabrão pé em barca.
  
4O Frade ficou num berro,
porque temia o maldito
se não levasse o cabrito,
de achar, que lhe pegue um perro:
e por não cair nesse erro
num rebanho em boa fé
outro, a quem o Frei Caziqui,
quando ele dizia mihi,
ele respondia mé.
  
5Do mé desaparecido
foi logo o dono avisado,
que o Frade lhe havia achado
antes dele o haver perdido:
e sendo o sítio corrido,
se achou, que a modo de pá
num forno o cabrito está,
que o Frade é destro ladrão
porém nesta ocasião
saiu-lhe a fornada má.