De tal guisa me vem gram mal

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De tal guisa me vem gram mal
por Martim Soares


De tal guisa me vem gram mal
que nunca de tal guisa vi
viir a home, pois nasci;
e direi-vos ora de qual
guisa, se vos prouguer, me vem:
vem-me mal porque quero bem
mia senhor e mia natural,
  
que am'eu mais ca mi nem al;
e tenho que hei dereit'i
d'amar tal senhor mais ca mi
– e seu torto x'é, se me fal;
ca eu nom devi'a perder
por mui gram dereito fazer;
mais a mim dereito nom val.
  
E pois dereito nem senhor
nom me val i, e que farei?
Quem me conselho der, terrei
que muit'é bom conselhador;
ca ela nom mi o quer i dar,
nem m'ar poss'eu dela quitar.
E qual conselh'é aqui melhor?
  
Esforçar-me e perder pavor
o melhor conselh'é que sei,
e em lhe dizer qual tort'hei
e nom lho negar, pois i for;
e ela faça como vir,
de me matar ou me guarir,
e haverei de qual quer sabor.