Descripçaõ topografica, e historica da Cidade do Porto

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Descripçaõ topografica, e historica da Cidade do Porto
por Agostinho Rebelo da Costa


DESCRIPÇAÕ
TOPOGRAFICA, E HISTORICA
DA
CIDADE DO PORTO.
Que contém

A ſua Origem, Situaçaõ, e Antiguidades : A magnificencia dos ſeus Templos, Moſteiros, Hoſpitaes, Ruas, Praças, Edifícios, e Fontes : O número dos ſeus Habitadores, o ſeu Caracter, Genio, Coſtumes, e Religiaõ que profeſſaõ : Os Appellîdos das Famílias Illuſtres, que nella reſidem : O Catalogo Chronologico dos ſeus Biſpos : Os Governos Eccleſiaſtico, Civil, Militar, Politico : O naſcimento do grande Rio Douro, que a banha, e fórma a ſua Barra : As producçoens da Natureza, e Induſtria, que augmentaõ os Ramos do ſeu Commercio, e promovem as Fabricas, que tem eſtabelecidas : Os Privilegios, Iſençoens, e Regalîas, que a engrandecem : A noticia dos Homens, e das Mulheres Illuſtres em Virtudes, Letras, e Armas, que della ſaõ naturaes

&c. &c. &c.
Enriquecida com Eſtampas, e Mappas curioſos, que
a ornaõ.
FEITA POR
AGOSTINHO REBELLO DA COSTA
Presbytero Bracarenſe, Doutor em Theologia, e Ca-
valleiro profeſſo na Ordem de Chriſto.


PORTO:
Na Officina de ANTONIO ALVAREZ RIBEIRO.
Anno de MDCCLXXXIX.
Com licença da Real Meſa da Commiſſaõ Geral
ſobre o Exame, e Cenſura dos livros.
Foi taixado eſte livro em mil e duzentos reis em papel. Meza 27. de Outubro de 1788.
Com tres Rubricas.
ADVERTENCIA NECESSARIA.

M

Ovidos pelos rógos e inſtancias dos ſeus Amigos, e d'algumas Peſſoas ſábias, he, que muitos Eſcriptores proteſtaõ, que produzem em Público as ſuas obras : elles fazem por eſta cauſa longos, e fatigantes Prefacios : elles ſe esforçaõ em amontoar reíteradas, e impertinentes ſatisfaçoens, que em lugar de lhes adquirirem o glorioſo nome de Deſentereſſados, os moſtraõ ávidos de gloria, capeáda com o disfarce do proprio louvor.

Outra verêda totalmente oppoſta a eſte caminho taõ frequente, e trilhado, me levou a fazer pública eſta Deſcripçaõ Topografica, e Hiſtorica. Bem longe de ſer conſtrangido por homens intelligentes, e imparciaes a que a emprendeſſe, e imprimiſſe, foraõ elles

meſmos
meſmos, os que me propozeraõ as ſeguintes razoens para diſſuadir-me. I. Que ſe eu me applicaſſe a compôr huma Geografía de Portugal, ou a arranjar, e imprimir alguns dos muitos Sermoens, que tenho prégado neſte Reino, ſeria eſta huma occupaçaõ intereſſante, e digna da aceitaçaõ geral, o que certamente naõ aconteceria com o limitado objecto, de que trata eſte livro. II. Que com elle darei cauſa a que muitos dos Leitores ſe perſuádaõ, que eu fui algum homem de fortuna eſtabelecido neſta Cidade, aonde vendo-me tranſplantado do ſeio da indigencia, para o centro da fartura com as riquezas que nella adquirira, a quiz liſongear por eſte modo. III. Que a preziſtir o meu goſto neſte genero de compoſiçaõ deſcreveſſe a Cidade de Braga, que o merecia mais dignamente, aſſim por ſer minha Patria, como pelos admiraveis, e ſacrofanctos prodigios, que realçaõ a ſua gloria. IV. Que era impoſſivel ſer eſta
Obra
Obra bem aceita dos Portuenſes, porque ſe pintaſſe verdadeiramente o ſeu Caracter, devia repreſentá-los como gente ambicioſa, que tudo ſacrifica ao ſeu intereſſe, inimiga da boa inſtrucçaõ, e bellas letras. V. Que ſe eu naõ fallar da grandeza de huma ou outra Caza, Jardim, ou ainda pequeno Vergel pertencente a Indivíduos infatuádos de que merecem huma bella deſcripçaõ, certamente eſtes ſeraõ outros tantos Ariſtarcos, e Zoilos inhumanos, que ſe voltaráõ contra mim VI. Que tratando, finalmente, eſte livro de huma Cidade, que cada hum figura na ſua fantazia confórme a contempla, era impoſſivel que agradaſſe o plano, que della fizeſſe.

Ingenuamente confeſſo , que eſtas multiplicadas, ainda que imprudentes reflexoens, me conſternáraõ à primeira viſta. Indeciſo no que faria, naõ me deliberava a continuar na execução do projecto, que tinha concebido.

Porém
Porém vendo eu I., que a Deſcripçaõ de huma Cidade, naõ he obra de taõ pouco momento, que naõ mereceſſe a applicaçaõ dos grandes engenhos da França em deſcrever Pariz, Orleans, Bourdeaux, Marſelha &c. dos de Inglaterra em deſcrever Londres, Cantorberi, Yorck &c. dos do noſſo Portugal em fazer públicas as grandezas de Lisboa, e de outras Cidades, e Villas naõ ſe eximindo alguns de deſcrever huma Igreja, e ainda hum ſó Altar, ([1]) que muito era, que eu me entretiveſſe em fazer a Deſcripçaõ de huma Cidade, que he a primeira de Portugal, depois da ſua Côrte! Naõ ignoro, que aſſim como há dous annos imprimi as Oraçoens Panegiricas, que recitei na feſtividade de San-
ta
  1. O Altar de JESUS MARIA JOZÉ, collocado na Igreja da Congregaçaõ do Oratorio deſta Cidade do Porto. Por hum Padre da meſma Congregaçaõ.
Thereſa de Jeſus, podia igualmente imprimir ſeis volumes de Sermoens eſcolhidos entre os muitos que tenho prégado; mas, e que intereſſe poderá tirar o Público deſſa Obra, quando todos os dias apparecem copioſos volumes de outras ſimilhantes, impreſſos nas lingoas mais cultas da Europa? II.: Sendo certo, e bem notorio, que eu naõ me eſtabeleci neſta Cidade a procurar fortuna, pois que nem o meu Eſtado, nem o ſufficiente Patrimonio que herdei dos meus Maiores he dependente de tal auxilio, ninguém ſe perſuadirá, que a obrigaçaõ, ou a dependencia, me conſtrangeo a ſer com ella liſongeiro; antes ſim, o que digo a ſeu reſpeito deve ſer mais acreditado, conhecendo-ſe, que nem a paixaõ de ſeu Natural, nem o eſtimulo do intereſſe me obrigou a fallar. III. Naõ me reſolvi a eſcrever as Excellencias, Grandezas, e Antiguidades de Braga, porque além de eſtarem já públi-
cas
por hum A. erudito, ([1]) ellas ſaõ de hum merecimento taõ excelſo, que pareceriaõ hiperbolicas na boca de hum ſeu Patriota. IV. Eſta pintura, que me faziaõ dos Portuenſes revoltáva-me o animo, porque vivendo com elles há vinte annos, e communicando-me com muitas Familias civilizadas, nunca lhes divizei tal Caraćter. V. Como naõ ſou obrigado a deſcrever ſingularmente todas as Cazas, e Jardins, de que ſe compoem eſta Cidade, bem pouco me importaõ as declamaçoens dos ignorantes. VI. As idéas dos homens, aſſim como diferem na quantidade, aſſim ſe oppoem na qualidade, razaõ, porque ſeria eu impertinente, ſe quizeſſe concordar com a minha idéa, as infinitas de tantos homens.
Iſto
  1. O P. Argote. Naõ merece menor attençaõ o Illuſtriſſimo Cunha no Cat. dos Arcebiſpos de Braga, e Rezende no pequeno Poema que fez a eſta Cidade.
Iſto baſtaria a juſtificar-me, ſe naõ deveſſe inteirar o Leitor benevolo dos urgentes motivos, que me forçáraõ a publicar eſta Deſcripçaõ. Conſiſtem elles, em que ſendo a Cidade do Porto na riqueza, na dignidade, na grandeza a ſegunda de Portugal, merece taõ pouco a alguns Geógrafos eſtrangeiros, que abſolutamente fallaõ della com pouca, ou nenhuma exaćtidaõ. Copiaõ-ſe huns aos outros, e os erros ſe multiplicaõ infinitamente.

Dizem, que ella he a ſegunda Cidade de Entre Douro e Minho. Talves, que eſte erro naſceſſe de ſer o ſeu Biſpo ſuffraganeo do Arcebiſpo de Braga; porém, e que faz a Juriſdicção Eccleſiasſtica, para que huma Povoação ſeja, ou deixe de ſer Capital? Madrid naõ he Cidade Archiepiſcopal, nem Epiſcopal, e com tudo he Capital de Heſpanha : Madrit eſt devenue la Ville Capitale du Royaume d'Eſpagne, dis Moreri.[1] Pariz, ain-

da
nos principios do ſeculo paſſado, era Aſſento de hum Biſpo ſuffraganeo do Arcebiſpo de Sens, e por iſſo deixava de ſer a Capital da Monarchia Franceza?

Dizem mais, que ella naõ he muito populoſa em tempo de guerra; que naõ tem outro Commercio, que o dos Vinhos; que he huma Colonia dos Inglezes, e que ſaõ eſtes os unicos Commerciantes, que nella rezidem. Pódem achar-ſe erros mais craſſos, e palmares?

A meſma famoſa Encyclopedia,[1] que nos artigos dependentes do puro diſcurſo, ſe faz acredora dos applauſos, que tem adquirido no Orbe literario, naõ deixa de padecer ſeus erros, naquelles, em que os ſeus eruditiſſimos AA. ſe viraõ, na dura neceſſidade de ſervir-ſe de guias infieis, e de relaçoens alheias. Na parte Geográfica valeraõ-ſe da Geografía do Alemão Hubner, que fóra da

Deſcripçaõ
  1. Nota de Transcrição: vide L'Encyclopédie, co-editada por d'Alembert e Diderot.
Deſcripçaõ de Alemanha, cahio em muitos enganos. Voltaire, a pezar dos ſeus muitos deslumbramentos, que miſeravelmente manifeſtou no Diccionario, que ultimamente ſe imprimio com o titulo de Queſtions ſur l' Encyclopedie,[1] tem razaõ de zombar de algumas noticias pouco viridicas deſte Geógrafo.

No que reſpeita ao Porto, aſſevera-ſe na ſobredita Encyclopedia,[2] que eſta Cidade tem ſó quatro mil Bourgeois, iſto he Cidadãos, ou Paizanos. Que eſtranha equivocaçaõ! Naõ há dúvida, que algumas Geografîas antigas Portuguezas, e Caſtelhanas, eſcriptas muito antes de ter o Porto chegado á grandeza em que hoje eſtá, lhe daõ quatro mil viſinhos mas na lingoagem deſtas Geografías, a palavra Viſinhos, quer dizer Fógos, ou Familias, e naõ Paizanos.

Tambem na mencionada Encyclopedia,[2] e em quaſi todos os Geógra-

fos
  1. Nota de Transcrição: vide Géographie por Voltaire em Dictionnaire philosophique.
  2. 2,0 2,1 Nota de Transcrição: vide PORTO por Jaucourt em L'Encyclopédie.
eſtrangeiros ſe nomeaõ Uriel da Coſta, e Vaſco de Lobeira, como os unicos Eſcriptores naturaes deſta Cidade; quando do Capítulo IX. deſta Deſcripçaõ Topografica ſe vê, que ſe contaõ ás duzias os que ſaõ muito ſuperiores em merecimento áquelles dous. E aſſim diſcorrendo por outros muitos pontos em que erráraõ os ditos Geógrafos a reſpeito deſta Cidade, claramente ſe moſtra, que para evitar tantos, e taõ repetidos enganos, devo fazer pública eſta Deſcripçaõ.

Devo também advertir o Leitor, que a folhas 135: deſte livro em que ſe falla do Governo Eccleſiaſtico, deve-ſe accreſcentar, que além do Deſtribuidor, e Inquiridor, tem mais hum Contador; e a tolhas 354 aonde ſe diz que Jozé Corrêa de Mello foi Tenente Capitaõ da Marinha, ſe deve ler que foi Capitaõ Tenente, Commandante, &c. e filho de Martim Affonſo de Mello Moço Fidalgo com exercicio accreſcentado a Fidalgo Eſcudeiro, e de ſua mulher D. Jeronyma Joaquina de Souza Soutomaior. As outras erratas, e emendas vaõ no fim deſte meſmo livro.

DESCRIPÇAÕ PRELIMINAR
DA
PROVINCIA
D'ENTRE DOURO, E MINHO.

P Arece neceſſario, que havendo eu de deſcrever a ſituaçaõ, e antiguidades da Cidade do Porto, diga alguma couſa da Provincia d'entre Douro, e Minho; cujos intereſſes ſaõ entre ſi taõ reciprocos, que naõ ſómente a Cidade utiliza á Provincia pelo continuo, e notavel conſumo, que dá aos ſeus frućtos, pelo valor apreciavel com que os faz eſtimar das Naçoens eſtrangeiras, e pela facilidade com que os tranſporta deſde o Rio Douro, até os pórtos do Brazil, e outras conquiſtas de Portugal; mas também a Provincia beneficîa a Cida-

de
com os multiplicados generos das ſuas producçoens, e excellentes obras das ſuas manufaćturas, que diariamente lhe envia. He juntamente eſta Provincia a mais agradavel, a mais amena, a mais induſtrioſa entre todas as do Reino; razoens eſtas, que me obrigaõ a fazer della huma breviſſima Deſcripçaõ, que preceda á da Cidade do Porto. Eſpero que o Leitor a conhecerá útil, ſe tiver a paciencia de ler o Capitulo VI., em que fallarei do Commercio.

[1] Na parte mais ſeptentrional do Reino, he que ſtá ſituada eſta fertiliſſima Província. Tem por limites ao Norte, o Rio Minho, que a ſepára de Galliza; ao Meio dia, o Rio Douro, que a divide da Provincia da Beira; ao Occidente, o Oceano Atlantico; ao Naſcente, a grande Serra do Maraõ. Dilata-ſe deſde Norte a Sul com dezoito legoas de comprimento, e doze de largura em algu-

mas
  1. I Extẽçaõ deſta Provincia.
partes, e em outras tem ſómente oito. A ſua grande fertilidade; o multiplicado número dos ſeus habitadores; tres Cidades, que a engrandecem, duas das quaes ſaõ depois de Lisboa, as maiores do Reino; as ſucceſſivas e formoſas Villas, Caſtellos, e Lugares, que nella ſe admiraõ; tudo concorre para que ſeja a mais povoada entre as outras Provincias de Portugal. As copioſas correntes de muitos, e caudaloſos rios, que a banhaõ; duzentas e vinte pontes de pedta[1], que os atraveſſaõ; o prodigioſo número de vinte e ſeis mil fontes públicas, álem de outras tantas particulares, ſem contar os póços d'agoa nativa e puriſſima, que ſaõ innumeraveis, faz com que agradecida a terra á cultura, e trabalho dos lavradores, produza todos os frućtos os mais goſtoſos, e neceſſarios á ſubſiſtencia, e regalo do homem. [2] Os rios mais famoſos que a banhaõ, e cingem quaſi por todos os
lados,
  1. Nota de transcrição: erro de edição, deverá ler-se pedra.
  2. II Rios e peſcaria.
lados, ſaõ o Douro, Minho, Lima, Cávado, Ave, Tamaga, Neiva, Souſa, Leſſa. He innumeravel a variedade de peixes, que nelles ſe peſcaõ. Os mais eſtimaveis, e goſtoſos ſaõ as Lampreias, Saveis, Salmoens, Trutas, Taînhas, Robálos, Solhos, Barbos, e Mugens. O número dos pequenos rios, he quaſi infinito; mas o ſeu perenne curſo, naõ he taõ limitado, que deixe algumas vezes de formar, ainda no interior dos veraõs, grandes enchentes. Hum delles chamado o Deſte, que banha da parte do Sul hum arrabalde da Cidade de Braga, formou no ultimo de Junho de mil ſettecentos e ſettenta e nove huma inundação taõ groſſa, e precipitada, que affogou na ſua corrente, trinta e duas peſſoas, arrancando muitas arvores, e demolindo juntamente com a furia das ſuas agoas algumas cazas, moinhos, azenhas, álem do deſperdicio que fez em o gado, e nos dilatados e viçoſos
campos
campos, que formaõ as ſuas margens.

[1] Os pórtos de mar ſaõ ſeis; o Caminha, Vianna, Eſpozende, Villa do Conde, Matozinhos, e Porto. No primeiro engolfa-ſe o rio Minho, no ſegundo o Lima, no terceiro o Cávado, no quarto o Ave, no quinto o Leſſa, no ſexto o Douro. De todos eſtes portos, os mais famoſos ſaõ os de Vianna, e Porto. Eſte uſtimo o deſcreverei no Capitulo do Commercio. No porto de Vianna, aonde até o anno de mil ſetrecentos e quarenta entravaõ muitas e grandes embarcaçoens, hoje apenas entraõ alguns hyates, e pequenos navios; porque a groſſa negociaçaõ da Cidade do Porto abſorveo a maior parte do ſeu Commercio. As Lanchas, que diariamente ſahem deſtes pórtos, e das prayas da Póvoa a peſcarem no alto mar, paſſaõ de trezentas. Eſta prodigioſa multidão de lanchas, faz com que jámais falte em toda a Província peixe freſco e em

preço
  1. III Pórtos de Mar.
preço commodo , eſtando bom o tempo.

[1] Sobre as agradáveis campinas, e florídos valles, por onde paſſaõ os principaes rios, levantaõ-ſe alcantilados, e ſoberbos Montes, dos quaes abunda eſta Provincia; e por eſta ſa, he a mais montuóſa do Reino, depois da Beira, e Trás os Montes. Os mais elevados ſaõ; a Serra do Gerez, que atraveſſando huma grande parte de Caſtella, vem acabar em Portugal. Nella há muitas cabras braviſſimas,[2] e de taõ extraordinaria grandeza, que em nenhuma outra Serra, ou Monte apparecem ſimilhantes. Tem o pêllo muito curto, pardo, e fino: as pontas muito grandes, e agudas, Saõ furioſas no tempo do cio, e as mais acanteladas quando paſtaõ, revezando-ſe humas ás outras em ſentinellas avançadas, para com os ſeus altos bramidos darem aviſo no meſmo inſtante em que ſentem gente; então retiraõ-

se
  1. IV Serras e Mõtes
  2. Nota de transcrição: Refere-se possivelmente ao entretanto extinto íbex-português (Capra pyrenaica lusitanica).
com velocidade incrível ao alto dos eſcarpados rochedos inacceſſiveis aos tiros dos caçadores. Há tambem nos cumes deſta dilatada Serra muitas Aguias Reaes, Falcoens, Javalîs, Lobos, e algumas Serpentes. As arvores que a povoaõ ſaõ as mais raras, e formoſas de todo o Reino, tanto em folhas, como em flores. Dallî tem ido para o Jardim do Rei, para o Paſſeio Publico de Lisboa, e para os jardins curioſos de Particulares. As ſalutiferas Caldas, ás quaes eſta Serra deu o nome; porque eſtaõ ſitas nas ſuas fraldas, ſeis legoas ao Naſcente de Braga, ſaõ as que mais exaltaõ eſtas raridades. Depois deſta Serra, ſegue-ſe em grandeza a do Maraõ, a de Santa Catharina, a da Falperra, a da Labruja: os montes de Ayró, Aboboreira, Agrella, Carriſſa, S. Gens, Ermello &c. Saõ eſtes montes povoados de madeiras groſſas, altas, e fortes. He innumeravel a caça, que nel-
les
paſta, e que entretem o divertimento dos caçadores, o augmento e goſto das mezas. Os Veados, Corças, Lobos, e Javalîs naõ ſaõ taõ ferozes que devorem, ou ainda acomettaõ os homens. Apenas os Lobos aſſaltaõ os pingues rebanhos, que nelles ſe apaſcentaõ.

[1] A amenidade dos valles produz tudo quando he neceſſario para a ſubſiſtencia do homem. A quantidade de paõ e vinho, que he o ſeu frućto mais copioſo, naõ ſomente he baſtante para o ſuſtento dos ſeus habitadores; mas ainda ſobeja para ſoccorrer outras Provincias. Aquelles Eſcriptores, que dizem o contrario, ou nunca viraõ a ſua fecunda producçaõ, ou ignoraõ que ſómente para a Cidade de Lisboa, ella envia em alguns annos pelas barras de Vianna, e Porto, de cem até duzentos mil alqueires de milhaõ: eſte genero he o mais ordinario, que ſe colhe das ſementeiras; há canas del-

le,
  1. V Frućtos, e producçoens
que produzem a cinco e ſeis eſpigas: eu vi muitas deſtas em differentes Quintas. Eſte veraõ paſſado, admirei huma na Quinta de Boyalvo viſinha ao Douro, que tinha nove eſpigas, quatro vermelhas, e cinco amarellas todas grandes, e bem ſazonadas: eſta abundancia he igual em tudo. Dizem haver Nogueira, que dá cincoenta alqueires de nozes: Caſtanheiro, que dá hum moyo de caſtanhas: Laranjeira, que dá ſeis carros de laranjas: Pé de vide enroſcada em carvalho, que dá pipa de vinho: Oliveira, que dá mais de trinta alqueires d'azeitonas: Carvalheira, que dá mais de quarenta alqueires de glandes. A colheita de linho, e canamo, he hum dos ramos o mais fecundo entre todas as ſuas producçoens: em nenhuma Provincia do Reino, ou ainda em todas juntas, ſe fabricaõ tantas, e taõ precioſas têas de panno o mais fino e duravel, que excede na quali-
dade
as finas Hollandas: Chega a dous milhoes de cruzados o lucro, que ſe extrahe annualmente deſta louvavel fabrica. Fallo taõ ſómente do linho, e canamo, que naſce neſta Provincia; porque ſe ſe fizer conta ao lucro, que ſe extrahe do panno, eſtopa, toalhas de meza, cordagens, calabres, e outras obras, que ſe fabricaõ do linho, que o mar Baltico envia dos pórtos de Riga, Memel, Pernau ao da Cidade do Porto, chegará quaſi a hum milhaõ de cruzados o lucro, que fica na Provincia, ſobre o cuſto do referido linho, e canamo. Em poucos annos elle chegará a hum intereſſe duplicado, e aſſim tambem muitas das outras producçoens, ſe apparecerem Portuguezes, que queiraõ aggregar-ſe á Sociedade Economica dos bons Patriotas, amigos do BemPublico eſtabelecida na Villa de Ponte do Lima, a qual continua em proſperar o Reino com as laborioſas fadigas, e induſtrio-
ſos
inventos, que excogita, para que o exercicio, e trabalho dos Lavradores, Fabricantes &c. ſe augmente, e chegue a huma conſiſtencia ultima de uteis, e vantajoſos intereſſes. O gado, que paſta pelas Ribeiras, e Montes deſta Provincia, he copioſiſſimo. O numero de Bois, e Vacas, paſſa de quatro centos mil; de Carneiros, Ovelhas, Cabras, e Porcos, chega a dous milhoens. O prezunto he de hum goſto ſingular, e aſſim meſmo todos os outros viveres, principalmente os das Ribeiras Lima, Baſto, Melgaço, e Barca.

[1] A meſma riqueza ſe conhece nas Minas d'ouro, e prata, que ainda hoje conſerva nas ſuas entranhas. Eſta Provincia juntamente com Galliza, rendia cada anno em Direitos, que das ſuas Minas pagava aos Romanos, trinta mil marcos d'ouro. A'lem das que ſe deſcobriraõ pelos annos de mil e duzentos e cincoenta no Termo de

Barcellos
  1. VI Minas de ouro, prata, e pedr. precioſas.
Barcellos, apparecêraõ muito depois neſte ſmo Termo alguns minaraes de pedras precioſas, e entre ellas, muitas Safiras, das quaes ſe vendeo huma na Cidade de Pariz no anno de mil e ſeiscentos e trinta e ſeis, por ſettenta mil cruzados. Nas vizinhanças da Cidade de Pennafiel, e na fregueſia de S. Vicente de Caldellas, Termo da Pica de Regallados, tem-ſe deſcuberto muitos minaraes de Cobre, Eſtanho, e Ferro. ElRei D. Joaõ o III. prohibio a extracçaõ do ouro, e prata deſta Provincia, para que ſe naõ esfriaſſem os animos dos Portuguezes na Conquiſta da India. As arêas do Rio Douro, he conſtante, que ſaõ o Potozî deſte precioſo metal, e que ellas meſmas lhe deraõ o nome, que ſempre conſervou de Rio Douro. He certo, que ſe fizermos huma prudente reflexaõ ſobre as contínuas, e prolongadas guerras com que os povos Turdetanos, Celtas, Cantabros; e de-
pois
deſtes os Carthaginezes, e Romanos, ſe devoravaõ huns aos outros para ſenhorearem as Heſpanhas, conheceremos, que o unico attraćtivo, e reclamo, que os chamava de taõ longe, era o precioſo metal do ouro. Naõ menos, ſe advertirmos nas immenſas deſpezas que faziaõ os primeiros Reis deſte Reino, já com multiplicados Exercitos, e contínuas Guerras, já com auxilios, e grandes ſoccorros, que davaõ aos Reis ſeus Alliados, já com Palacios, Templos magnificos, que erigiaõ, ſem que para eſtas deſpezas recebeſſem hum ſó real das Conquiſtas d'Africa, Aſia, e America, pois que ainda entaõ naõ as poſſuiaõ, viremos a concluir, que as Minas do ſeu Reino, principalmente as d'entre Douro, e Minho ſuppriaõ as ſuas muitas deſpezas.

[1] Augmenta-ſe notavelmente a riqueza deſta Provincia com a multidaõ das ſuas Fabricas. Naõ ſó ella abun-

da
  1. VII Fabricas.
das que acima diſſe, fallando das producçoens do canamo, e linho, mas tambem occupa milhares de homens, e mulheres na conſtrucçaó das melhores ſedas, fitas, e ligas, das quaes ſe contaõ multiplicados teares. A Cidade de Braga, póde-ſe dizer ſem hyperbole, que he quaſi toda huma fabrica de Chapeos, Ferragens, Caixas, Tinteiros, Cópos, e outras obras, que ſe fazem das pontas do gado vacum. A Villa de Guimaraens eſtá chêa de Cutelleiros, e Tecelaõs, que poderiaõ prover das fazendas, que fabricaõ, o Reino e ſuas Conquiſtas. As próprias Aldêas, e Lugares occupaõ-ſe em todo o genero de Artefaćtos, chegando a induſtria dos Minhotos a tecer baetas da meſma qualidade, que as de Inglaterra, e França, e pannos taõ finos, como os de Hollanda. Poderiaõ facilmente os naturaes deſta Provincia abaſtecer as outras deſtes generos, e ainda de todas
as
as fazendas, que os Reinos eſtranhos nos introduzem, ſe huma poderoſa Maõ os animaſſe, e a noſſa preoccupaçaõ naõ nos fizeſſe reputar com vantagem, tudo o que vem de Paîzes eſtrangeiros.

[1] O clima, he entre os bons o mais ſaudavel, porque álem da ſua ſituaçaõ, que eſtá entre o parallelo de quarenta e hum, e quarenta e dous gráos de altura do polo Arćtico, tambem concorre viſivelmente a pureza, e bondade dos ſeus áres, para a conſervaçaõ da ſaude dos póvos. Rariſſimas, ou nenhumas enfermidades epidemicas os acomettem. Tem-ſe obſervado, que em quaſi todos os contagios, e ataques do mal da peſte, tem ſido illeza eſta Provincia. Pode-ſe dizer, que nella reſide huma Primavera perpetua. O veraõ por mais ardente que ſeja, em nada he moleſto aos ſeus naturaes, ou eſtrangeiros, que viájaõ pelas ſuas eſtradas; porque naõ ſómen-

te
  1. VIII Clima.
todos os caminhos eſtaõ cercados de copadas arvores, que os raios do Sol eſcaſſamente penetraõ, mas tambem os perennes chorros d'agoa, que rebentaõ por differentes partes, rebatem com a ſua freſcura o ardor do meſmo Sol. Por eſta cauſa muitas Familias do Reino, viájaõ por eſta Provincia, para ſe aproveitarem deſta commodidade taõ deleitavel, que a prefere ás outras de Portugal, e ainda ás de toda a Heſpanha. Talvez que iſto meſmo concorra para a conſervaçaõ das vidas dos ſeus moradores, pois he certo que ellas ſaõ as mais ſadías, e prolongadas. Encontraõ-ſe nella muitos homens, e mulheres de noventa, e de cem annos de idade. Veja-ſe o que a eſte reſpeito diz o incanſavel Hiſtoriador Manoel de Faria e Souſa,[1] e o exaćto Antiquario Gaſpar Eſtaço;[2] e entaõ ſe conhecerá, que as idades de cento e cinco annos eraõ bem ordinarias no ſeu ſeculo, e que ainda al-
guns
  1. Epitome part. 4. capt. 5.0.4
    Nota de Transcrição: vide Epitome de las historias portuguesas de Manuel de Faria e Sousa. No entanto, a passagem em questão, apesar de referenciar várias informações anteriores, não menciona a existência de homens e mulheres de avançada idade.
  2. Antiguid. de Portu. cap. 72
    Nota de Transcrição: vide Varias antiguidades de Portugal de Gaspar Estaço.
homens depois de terem cazado aos noventa e ſette annos de idade, chegavaõ até os cento e trinta e cinco. Couſa prodigioſa, e que vence o que Plinio diſſe dos moradores da Campania.

Naõ concorre menos eſta bondade de clima para a multiplicaçaõ dos individuos, e fecundidade exceſſiva das mulheres. Ellas saõ as mais fecundas entre todas as do Reino. Sem recorrer a antiguidade, ainda hoje vivem muitas, que tem parido vinte e cinco filhos, e algumas trinta. Naõ ſaõ rariſſimas as que parem dous e tres filhos juntamente. A pezar da incredulidade de impertinentes criticos, moſtra-ſe inconteſtavel o que ſe eſcreve da famoſa CALCIA LUCIA mulher de CAIO ATTILIO natural da Cidade de Braga, e nella Governador da Luzitania pelos Romanos. Em hum ſó parto deu á luz nove filhas, que foraõ

QUITERIA
QUITERIA, GENEBRA, VICTORIA, EUFEMIA, MARINHA, MARCIANA, GERMANA, BAZILIA, E LIBERATA; todas Martyres, e Santas.

Nao poſſo eſquecer-me do que alguns Aućtores affirmaõ da célebre Maria Mantella. Eſta mulher pario de hum ſó parto ſette filhos. Todos foraõ Sacerdotes, e edificárão ſette Igrejas, que ainda hoje exiſtem , a ſaber Santa Maria de Moreiras, Santa Maria de Galvaõ, Villar de Perdizes, Santa Leocadia, Santa Maria de Mercs, o Moſteiro Dozo, e ametade da Igreja da Villa de Chaves. Neſta ultima tiveraõ ſepultura juntamente com ſua Mãi. Sobre a pedra, que lhe ſerve de tampa , lê-ſe eſte humilde, e ſimples Epitafio:

AQUI JAZ MARIA MANTELLA COM SEUS FILHOS ARREDOR DELLA.

[1] Saõ geralmente robuſtos e fortes os naturaes deſta Provincia. A lavoura, he o ordinario exercicio dos Cam-

Camponezes
  1. IX Lavoura.
e Lavradores. Deſde o crepuſculo da manhã até o principio da noute, elles naó largaõ das maõs o arádo, ou o alviaõ, ou o machado, ou a enxada. Duas couſas ſe fazem notaveis e ſingulares neſta gente do campo: a primeira, que as mulheres cavaõ, áraõ, e fazem todo o trabalho da lavoura, como os homens: a ſegunda, que ſendo o ſeu ordinario ſuſtento, huma comída ruſtica e frugal, aturaõ as maiores fadigas, ſem que ſuccumbaõ ao trabalho, ou eſtraguem a ſaude ; porque eſta he a gente que vive oitenta, noventa e mais annos. As Aldêas e Cazas deſtes meſmos Lavradores, dilataõ-ſe com tal proporçaõ e figura, que em poucos ſitios haverá hum largo tiro de pedra, que naõ ſeja povoado. Daqui ſe originou dizerem muitos, que a terra d'entre Douro e Minho, he huma Cidade continuada.

[1] O temperamento fleumatico dos Minhotos os conduz á paz e tranqui-

tranquilidade
  1. X Costumes.
, ainda nas maiores affrontas que recebem. Na Guerra, naõ há Soldados, que ſe moſtem mais impavidos, e ſe arrogem mais intrepidos aos maiores perigos; na paz, naõ há gente, nem mais quieta, nem mais benigna. A côr, he algum tanto morena animada de hum corado vivo: os cabellos ſaõ groſſos e pretos, os olhos da meſma côr: na Religiaõ ſaõ conſtantes, no traćto agazalhadores, graves nos coſtumes: os que ſeguem as

letras fazem nellas admiraveis progreſſos de ſórte, que a Univerſidade de Coimbra, os deſtingue ſempre com louvor entre os ſeus Alumnos. Saõ claros teſtemunhos deſta verdade os excellentes, e eruditos livros, que elles daõ á luz publica, e illuſtraõ as melhores livrarias.

[1] A reſpeito dos trajes ordinarios, e uſuaes, há differença notavel entre os Cidadaõs, e Camponezes, bem como em todos os Reinos da Europa ſe

obſerva
  1. XI Trages.
obſerva. Os Cidadãos trajaõ ſegundo a formalidade da Côrte. As mulheres ſahem ordinariamente a publico de ſayas pretas, e mantilhas da meſma côr, uſo eſte, que herdaraõ dos Arabes, ou dos antigos Portuguezes, que o inventáraõ para maior recato das ſuas familias. Os Camponezes veſtem-ſe nos dias de lavoura de panno groſſo, e cálçaõ tamancos, ou ſóccos. Mas nos dias feſtivos imitaõ os Cidadaõs no aceio, e riqueza dos veſtidos. Naõ temo dizer, que o ouro, que ferve de ornato ás mulheres do campo, excede o valor de trinta milhoens de cruzados. Há muitas fregueſias, que em cordoens, cadeados, contas, laços, brincos e outras peças todas de ouro macîço, tem cada huma, duas ou ainda tres arrobas deſte metal. Naõ fallo em algumas da Cidade do Porto, aonde ſomente as da , S. Nicoláu, e Santo Ildefonſo paſſaráõ talvez de trinta arrobas. Nas
Commarcas
Commarcas da Maya, e Pennafiel, há mais de cincoenta fregueſias notaveis neſta riqueza: eu meſmo vi nas fregueſias d'Agoas Santas e S. Coſme ſuburbanas deſta Cidade dous Andores em differentes dias feſtivos, ornados (ſegundo o goſto da aldêa) com tantas peças de ouro, que pezáraõ as de cada hum; duas arrobas, e oito arrateis. Aſſeguraraõ-me peſſoas dignas de credito, que ainda allî naõ eſtava todo o ouro daquellas fregueſias, e que em muitas das circumviſinhas, havia a meſma riqueza. He indubitavel, que até as proprias meninas, que apaſcentaõ os gados pelos montes, trazem diariamente ao peſcoço cordoens, ou contas delle, e aſſim também rariſſima ſerá a lavradeira, que naõ poſſûa huma, ou muitas peças ſimilliantes. Conſtando pois toda eſta Provincia de 1519 fregueſias, julgue o Leitor quanto importará o ouro, que ſerve de ornato ás Camponezas, ſem
contar
contar o que eſtá lavrado em diamantes, aljofares, ſafiras, eſmeraldas, rubins, e outras pedras precioſas, que ſervem de enfeite ás Senhoras das Cidades, e Villas como tambem o que eſtá fundido em Calices, Cuſtodias, Pixides, Relicarios, Cruzes &c., que tudo importa huma ſomma immenſa.

[1] A Nobreza das Familias illuſtres he taõ antiga como o Reino. Naõ ſómente tem dado para elle muitas cazas diſtinćtas, mas tambem para o de Caſtella. Ao valor dos Aſcendentes deſtas Familias he, que os primeiros Reis de Portugal devêraõ a conquiſta, e augmento deſta Monarchia. Logo no principio, que o Conde D. Henrique entrou por entre Douro, e Minhoo, daqui eſcolheo os principaes Capitaens, e Soldados, que fizeraõ aos Mouros viva guerra. Todos ſabem quaes foraõ os ſeus glorioſos Feitos. No ſeguinte catalogo declaro os Appellidos deſtas Familias, e nelle ſigo

a
  1. V Nobreza.
a ordem Alfabetica para melhor clareza.

Aboim, Abreu, Aguiar, Alcaforado, Alvim, Alvarenga, Alvergaria, Alvo, Alveiro, Alaõ, Amaral, Amorim, Aranha, Araujo, Atayde, Azevedo, Ayram, Ayres.

Bayaõ, Bacellar, Barboza, Barros, Barreto, Barbeita, Barbuda, Baſto, Berrado, Brandaõ, Briteiros, Britto.

Caſtro, Craſto, Caminha, Caleiro, Couto, Coutinho, Calvo, Carvalho, Cerveira, Chamiço, Carneiro, Coutos, Coſtas, Coelhos, Correa, Cunha, Cyrne. Danta, Darga.

Eſteves, Ermiges, Ervilhã, Eſcacha.

Falcaõ, Faria, Farinha, Fafes, Fafes Lus, Fagundes, Ferreira, Ferrás, Felgueira, Feijoos, Figueira, Figueiredo, Fonſeca, Fornellos, Freitas, Fromariz.

Gamas, Gajo, Gayo, Giella, Godinho, Guedes, Guimaraens, Guntim.

Homem. Lagos, Laudim, Leire,

Leite
Leite Pereira, Leitaõ, Lobato, Longo, Lyra.

Maya, Magalhaens, Mattos, Machado, Meirelles, Mendanha, Mello, Miranda, Moniz, Motta, Monteiro, Moreira, Mouro, Mourinho.

Neiva , Nobrega, Novaes, Nunes.

Oliveira, Ortigueira , Ornellas, Oſſem, Ovequez.

Paes, Padim, Palmeiro, Pereira, Panagate, Peixoto, Peixoto Silva, Peſſoa, Pitta, Pires, Pimenta , Pimentel, Pinto, Pirina, Ponce, Porto, Porto Carreiro, Pombeiro.

Queiroz. Rebello, Rego, Rendufe, Ribeiro, Ribeira, Rocha, Roza. Sá, Sá de Menezes, Salgado, Sandim, Sequeiros, Sequeiras, Silvas, Silveſtres, Simoens, Souſas, Soares.

Tavares, Tangil, Teixeira, Tenreiro, Touriz, Tourinho, Topete, Traſtamir. Vasconcellos, Valladares, Valbom, Vaz, Vellozos,

Veiga
Veiga, Vellos, Villelas, Villarinho, Villa Boa, Vieira, Viegas, Vianna. Zapata.

[1] Toda a Província divide-ſe em ſeis Commarcas, que ſaõ as Guimaraens, Vianna, Valença, Barcellos, Porto, Pennafiel, e com a Eccleſiaſtica de Braga fazem ſette. Tem 1519 fregueſias. Moſteiros, e Conventos 150. Collegiadas cinco, a de Guimaraens, Barcellos, Vianna, Valença, e Cedofeita, eſta, e a de Guimaraens, ſaõ as mais notaveis em dignidade, renda, e antiguidade.

[2] As Ermidas, e Sanćtuarios paſſaõ de tres mil. Entre eſtes ſaõ mais frequentados o da Senhora do Porto, tres legoas ao Naſcente de Braga. O da Senhora do Pilar de Lanhozo, e o da Senhora da Abbadia, aquelle duas legoas ao Naſcente da meſma Cidade, eſte tres legoas tambem ao Naſcente: o da Senhora do Bom Deſpacho duas legoas ao Poente da refe-

rida
  1. XIII Commarcas, Fregueſias, Conventos, e Collegiadas.
  2. XIV Sanctuarios, e Ermidas.
Cidade: o da Senhora das Neceſſidades perto da Villa de Faõ: o do Senhor Jeſus na Villa de Barcellos, o do Senhor de Bouças , em Matozinhos, o de S. Gonçalo d'Amarante. Todos eſtes Sanćtuários eſtaõ ornados com peças riquiſſimas de prata, ouro, joyas precioſas, que os Fieis lhes tributaõ annualmente em agradecimento dos benefícios, que delles confeſſaõ receber.

Sobre todos apparece, como obra immortal da piedade dos Bracarenſes, o terniſſimo e devoto Sanćtuario do BOM JESUS DO MONTE, ſituado em hum frondifero, e copado monte diſtante meia legoa ao Naſcente da ſua Cidade. Neſte devotiſſimo Sanćtuario, vem-ſe figurados os Myſterios da Redempçaõ do Mundo deſde a Cêa do SENHOR, até a ſua glorioſa Aſcenſaõ, em multiplicadas Capellas, e hum Templo, no qual ſe repreſenta vivamente o Monte Calvario, com tu-

do
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