Destes, que campam no mundo

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Santigua-se o poeta contra outros pataratas avarentos, injustos, hypocritas, murmoradores e por varias maneiras viciosos, o que tudo julga em sua pátria.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Musa Praguejadora

1Destes, que campam no mundo
sem ter engenho profundo,
e entre gabos dos amigos
osvemos em papa-figos
sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento.

2De quem com Letras secretas
tudo, o que alcança é por tretas,
baculejando sem pejo
por matar o seu desejo
dês de manhã até a tarde:
Deus me guarde.

3Do que passeia farfante
muito prezado de amante,
por fora luvas, galões,
insígnias, armas, bastões,
por dentro pão bolorento:
Anjo Bento.

4Destes beatos fingidos
cabisbaixos, encolhidos,
por dentro fatais maganos,
sendo nas caras uns Janos,
que fazem do vício alarde:
Deus me guarde.

5Que vejamos teso andar,
quem mal sabe engatinhar,
mui inteiro, e presumido,
ficando o outro abatido
com maior merecimento:
Anjo Bento.

6Destes avaros mofinos,
que põem na mesa pepinos
de toda a iguaria isenta,
com seu limão, e pimenta,
porque diz que queima, e arde:
Deus me guarde.

7Que pregue um douto sermão
um alarve, um asneirão,
e que esgrima em demasia,
quem nunca já na Sofia
soube pôr um argumento:
Anjo Bento.

8Deste Santo emascarado,
que fala do meu pecado,
e se tem por Santo Antônio,
mas em lutas co demônio
se mostra sempre cobarde:
Deus me guarde.

9Que atropelando a justiça
só com virtude postiça
se premie o delinqüente,
castigando o inocente
por um leve pensamento:
Anjo Bento.