Direito por Linhas Tortas/I

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O teatro representa à direita uma igreja, ao lado da qual deve haver uma espécie de coreto com luminárias; à esquerda uma casa, tendo em seguida uma linha de coqueiros com lanternas de papel de diversas cores; ao fundo vista de campo com algumas casinhas iluminadas, bandeiras e diversas peças de fogo de artifício. É noite. Na plataforma do coreto há uma mesa, coberta por uma toalha, com vários objetos, tais como roscas, pombos, galinhas, etc. Durante o ato muita gente passeia em cena, conservando-se a maior parte apinhada em frente do coreto.

CENA I[editar]

SANTA RITA, ANASTÁCIO, HENRIQUE, JOSÉ e FELIPE


SANTA RITA (Na plataforma do coreto, vestido com uma opa encarnada, segurando uma salva com uma rosca.) - Seiscentos réis tenho pela rosca, seiscentos réis, seiscentos réis, seiscentos reis.

FELIPE - Seiscentos e oitenta.

SANTA RITA - Seiscentos e oitenta, seiscentos e oitenta tenho, seiscentos e oitenta tenho pela rosca. Afronta faço que mais não acho, se mais achara mais tomara, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, uma maior, outra mais pequena. Seiscentos e oitenta e... (Para Henrique.) Olhe que O senhor perde a pechincha: aquela mocinha está lhe deitando uns olhos! Está mesmo lhe dizendo: arremate a rosca, moço.

HENRIQUE - Setecentos.

SANTA RITA - Setecentos réis. Não há quem cubra o lance?

ANASTÁCIO - Mil réis.

SANTA RITA - Mil réis me dão pela rosca superfina. Mil réis, mil réis... Que súcia de pingas! Não há quem dê mais?

JOSÉ - Oitenta réis.

SANTA RITA - Mais quatro vinténs dou-lhe eu pela gaiatice.

TODOS - Oh! oh! oh!...

SANTA RITA (Para Anastácio.) - Leve a rosca, moço. (Entregando-a.) Tome cuidado, que não lhe faça indigestão. (Põe a salva em cima da mesa e procura outro objeto.)

JOSÉ (Para Anastácio.) - Divida isto com os amigos.

HENRIQUE - Apoiado!

FELIPE - Pretendes levá-la para a casa? (Henrique, José e Felipe agarram na rosca.)

SANTA RITA (Com um ananás coberto por um lenço.) - Silêncio e atenção! lá vai obra. Tem olhos, e não vê; tem coroa, e não é rei; tem pé e não anda. Adivinhem O que é!

HENRIQUE - E uma banana.

SANTA RITA (Descobrindo o ananás.) - Tristis est anima mea! Quanto dão pelo arganás? Vem do latim argo, argas e nás, nasis. (Cheirando.) Vejam só isto, está mesmo desafiando. Lá vai verso, rapaziada.

TODOS - Oh! oh! oh!

HENRIQUE - Silêncio.

TODOS - Sciu! sciu!

SANTA RITA (Recitando.) -

As setas do deus Cupido
Me vararam o coração.
Viva o povo de Irajá
E os progressos da nação!

FELIPE - Bravos o Gostoso.

SANTA RITA - Ninguém se tenta? Dez réis para principiar.

JOSÉ - Meia pataca.

SANTA RITA - Meia pataca tenho pelo arganás. Vale dois mil réis a olhos fechados. É um torrão de açúcar.

HENRIQUE - Quinhentos réis.

SANTA RITA - Quinhentos réis, quinhentos réis.

ANASTÁCIO - Quinhentos e sessenta.

SANTA RITA - Que cascaria! (Apontando para um do grupo.) Aquele que ali está, virado de cabeça para baixo, não pinga uma de X. (Riem-se todos.) Pois não há quem dê por aí, pelo menos, mil e quinhentos pela fruta?

HENRIQUE - Ponha mil e quatrocentos.

SANTA RITA - Mil e quatrocentos, mil e quatrocentos e... vá lá. (Entregando a Henrique.) Agradeça a pechincha ao Divino. (Procura outros objetos.)

CENA II[editar]

OS MESMOS e o COMENDADOR MIGUEL PEIXOTO e LUÍS DE PAIVA (Saindo da casa.)


MIGUEL - Decididamente estás louco.

LUÍS - Não acreditas na força do destino? César chegou, viu e venceu. Ver essa menina e render-me foi para mim um ato fatal.

MIGUEL - É pouco mais ou menos a história de todos os namorados.

SANTA RITA (Com dois pombos.) - Um casal de pombinhos. (Arremedando.) Corrupá pá pá, corrupá pá pá, corrupá pá pá.

MIGUEL - Ainda ontem chegaste da Corte; trouxeste apenas uma pequena mala de viagem e pretendes voltar para lá com a bagagem a mais pesada deste mundo - uma mulher!

LUÍS - O comendador é um homem sem crenças.

SANTA RITA - Senectus est morbus! Quinhentos réis tenho pelo casal de pombinhos batedores.

HENRIQUE - Espere lá. (Conversa com Anastácio.)

MIGUEL - Criança, eu conheço palmo a palmo o terreno que queres pisar. Estás então disposto a dar a destra a esta mulher? Já estudaste a tua futura sogra?

HENRIQUE - Oitocentos e vinte.

SANTA RITA - Oitocentos e vinte tenho pelo mimoso par.

MIGUEL - Estranhas talvez a minha pergunta?

LUÍS - Certamente.

SANTA RITA - Mil réis, mil réis pelos pombinhos. (Entrega-os a Henrique.) Eu já volto, rapaziada. Vou molhar a goela; até já. (Sai; Henrique, José, Anastácio e Felipe passeiam pelo fundo.)

CENA III[editar]

LUÍS e MIGUEL


MIGUEL - Estudar a sogra é uma das primeiras necessidades do indivíduo que se destina ao estado a que aspiras. Uma noiva é uma mentira viva desde a cabeça até os pés. Começando por estudar o sorriso com que te há de receber, no próprio espelho em que ensaia o penteado que lhe vai melhor, não dá um passo que não seja com o desejo de agradar. Se tem um pé mimoso e feiticeiro, toma todas as cautelas, de modo a deixar entrever o rosto do sapatinho, quando distraidamente conversares a seu lado; se a natureza, porém, dotou-a com uma destas raízes que afugentam os poetas, não trepido desde já em apostar a minha cabeça em como nunca lhe lobrigarás o pé.

LUÍS - Ora, comendador.

MIGUEL - Quanto ao moral, a noiva é sempre uma pomba sem fel. Cordata como um polaco, abraçará todas as tuas opiniões, salvo o caso de um ou outro arrufo, estudado de antemão para que possas com mais facilidade engolir a isca.

LUÍS - Sempre o conheci com a mania de pregar moral.

MIGUEL - Procuro falar sempre a verdade, seja ela embora contra mim. Ao passo que a noiva tudo oculta, a mãe, que não tem interesse imediato em enganar, apresenta-se tal qual é. Não estuda sorrisos ao espelho e nos transes os mais pequenos da vida está traindo a filha.

LUÍS - Eu conheço muitos exemplos em contrário.

MIGUEL - Que constituem exceções que vêm confirmar a regra geral.

LUÍS - Seja como for, não me curvarei ao poder de sua lógica. Estou decidido a dar este passo e a filha de Fortunato Arruda será minha.

MIGUEL - Casa-te, rapaz, casa-te.

LUÍS - Sinto por ela uma paixão irresistível.

MIGUEL - Uma paixão de vinte e quatro horas!

LUÍS - O senhor não conhece o coração humano. Ver uma mulher e amá-la é o ato mais natural desta vida. Li, não sei onde, que as almas nascem aos pares; no momento em que o Criador lança ao mundo a alma de um homem, nesse momento surge também a alma de uma mulher do seio da criação. Acontece muitas vezes que essas almas jamais se encontram; porquanto uma nasce, por exemplo, na Rússia e a outra na Patagônia. Dois seres se ligam, julgam-se talhados um para o outro e mais tarde reconhecem que não podem formar pares na quadrilha universal. A desigualdade dos casamentos provém do raro encontro das almas irmãs. Quando vi ontem pela primeira vez aquela menina, disse logo: ali está a alma que Deus me destinou.

MIGUEL - À vista disto...

LUÍS - Serei seu marido.

MIGUEL - E estás bem convencido de que não tomas a nuvem por Juno?

LUÍS - Convencidíssimo.

MIGUEL - Pois bem: casa-te, rapaz. (Diversas pessoas saem da igreja.) Está acabado o Te Deum. Aí vem a tua alma.

CENA IV[editar]

OS MESMOS, FORTUNATO ARRUDA, LEONARDA ARRUDA, INACINHA ARRUDA e FELISBERTA (Que saem da igreja.)


LEONARDA - Que desaforo! Não se pode aturar semelhante bandalheira!

INACINHA (Puxando o vestido de Leonarda.) - O que é isto, mamãe?

LEONARDA - Deram-me empurrões, encurralaram-me no altar-mor, riram-se do meu vestido, dos meus brincos, das minhas luvas e ainda tenho o braço inchado dos beliscões que levei.

INACINHA - Mamãe.

LEONARDA (Para Inacinha.) - A senhora achou aquilo bonito? (Para Fortunato.) E este pastrana, de boca aberta, a ouvir calado as chufas e as inconveniências que os tais pelintras diziam à mulata. Era mesmo uma água morna!

FORTUNATO - Mas senhora...

LEONARDA - Nem se mexia! Forte tambor! Mas os pintalegretezinhos que agradeçam ao Santíssimo que estava exposto no altar.

FORTUNATO - Está bom, senhora; isto não vai a matar.

LEONARDA (Para Felisberta.) - Passe para a casa (Felisberta entra em casa.) No meu tempo não havia essas bandalheiras.

MIGUEL - A Senhora Dona Leonarda faz-se mais velha do que é; no meu tempo, que é também o seu...

LEONARDA - Eu creio que sou um pouco mais moça que o comendador.

MIGUEL - Perdão...

LEONARDA - Ora eu lhe digo: Inacinha nasceu três anos depois do meu casamento. Quando eu me casei, tinha dezoito anos.

FORTUNATO - Quando nos casamos, tu tinhas vinte e dois.

LEONARDA - Senhor Fortunato, não tenha o desaforo de me desmentir em público.

INACINHA (Para Luís.) - O senhor está caçoando. Quem sou eu? Uma pobre moça da roça...

LUÍS - As flores do campo são as mais lindas e aquelas que exalam mais suave fragrância.

MIGUEL - Eu dou-me por vencido; a Senhora Dona Leonarda é muito mais moça do que eu. Como ia lhe dizendo, no meu tempo as coisas eram piores que hoje.

INACINHA (Para Luís.) - Eu não creio nos moços da cidade.

LUÍS - Por quê?

FORTUNATO - Ainda me lembro do que se passou comigo há trinta e tantos anos. Havia uma grande festa em Marapicu. Ora, eu não sou lá dos mais apaixonados pelas festas; mas meu pai, que era uma santa criatura, a quem Deus haja, obrigou-me a ir, dizendo-me que não havia de arrepender-me. Monto no meu burrinho, era um burrinho ruço que marchava que fazia gosto. (Leonarda conversa com Luís e Inacinha, que passeiam pelo fundo.) Meu pai tinha três burros para o seu serviço; um baio, outro castanho e este ruço. O burro baio era menos mau, mas tinha o defeito de empacar diante de todas as vendas.

MIGUEL (Á parte.) - Que história interminável!

FORTUNATO - O ruço e o castanho eram algum tanto passarinheiros. Para lhe falar com franqueza, eu não gosto de burros porque nunca me hei de esquecer de uma história que contam... Não sei se sabe?

MIGUEL - Sei, sei; vamos adiante.

FORTUNATO - Onde estava eu?

MIGUEL - No capítulo das antipatias pelos burros.

FORTUNATO - É verdade. Saio pela estrada e encontro-me com a família do major Pereira, que ainda vem a ser parente de minha mulher; porque o major Pereira foi casado duas vezes; primeiro casou-se com a filha do Cajueiro - da Fazenda do Pau Grande -, a mulher morreu de uma perniciosa, como sofreu aquela pobre criatura! os médicos receitaram-lhe tisanas e mais tisanas, tomou sulfato a dar com um pau; a infeliz senhora tinha a pele sobre os ossos. Pudera não! Pois se não comia há vinte dias! Eu, no meu caso, mandava dar-lhe algum caldinho de galinha. Depois veio a casar com uma tia política de minha mulher. O major, logo que avistou-me, obrigou-me a parar: - Oh! como está? como tem passado? - Vai-se indo, menos mal. - Não pergunto pela família, porque vejo que goza saúde. Palavras puxam palavras, seguimos juntos para o arraial.

MIGUEL (Rindo-se contrafeito.) - É uma história muito engraçada, eu já sei o fim. O senhor foi para...

FORTUNATO - Eu lhe conto o que me aconteceu. Foi também, se não me engano, em uma festa do Espírito Santo.

LEONARDA (Vindo com Inacinha e Luís para a boca da cena.)- Aposto que está arrependido de ter abandonado a Corte por estes dias?

LUÍS - Nunca me julguei tão feliz.

INACINHA - Não creio.

LEONARDA (Para Miguel.) - Por que não veio passear, comendador?

MIGUEL - Estou ouvindo uma história muito interessante que o Senhor Fortunato está contando.

LEONARDA - Pois ainda a mesma história! Este homem é capaz de fazer perder a paciência a um santo. Quando começa a contar um caso, perde-se nos pormenores os mais insignificantes e nunca chega ao fim. O senhor tem o privilégio de afugentar-me de casa os hóspedes.

FORTUNATO - Está bom, senhora; não se amofine, isto não vai a matar.

MIGUEL - Tem toda a razão. Viemos aqui para passar três dias agradáveis e apreciar esta bela festa. Nada de amofinações. Ó saudosos tempos da minha juventude! Quando me vejo em um desses pagodes é que avalio o quanto este país é conservador por índole e sabe guardar ilesas as suas tradições. Nada se muda; tudo segue inalterável o mesmo curso. Ali está o clássico império com o mesmo leiloeiro a dizer as mesmas pilhérias, os mesmos coqueiros murchos balouçando às brisas lanternas furta-cores, o mesmo fogo de artifício com o clássico barbeiro a girar em torno da roda, a mesma fragata a atacar castelos e o remate do - Glória ao Divino -, iluminado por fogos de cores. Em vão a locomotiva do progresso e o fio elétrico passam por estes sítios. É um grande país este meu Brasil!

LUÍS - O comendador, minha senhora (Para Leonarda.) é um ente muito positivo. Não compreende o que vai de poético nessas tradições que perpetuam os costumes de um povo.

MIGUEL - As tradições é que têm sido a causa do atraso em que vivemos. Por amor das tais tradições, os nossos homens de estado estudam política por Aristóteles, eloqüência por Quintiliano e filosofia por Genuense. Os filhos vão seguindo a mesma marcha e este país caminha, é verdade, mas sob o influxo benéfico da Divina Providência.

FORTUNATO - Parece-me que o comendador é meio republicano.

LUÍS - O que não o impede de aceitar condecorações.

MIGUEL - Graças a quatro moleques que mandei para o Sul. Se me desfizesse da cozinha inteira estaria hoje titular.

FORTUNATO (Rindo-se.) - É boa! é boa!

LEONARDA - Eu já lhe tenho dito que não quero que o senhor se meta em política.

FORTUNATO - Mas filha, estamos em um país livre.

LEONARDA - Não admito réplica. O senhor está em minha casa; quem manda nela sou eu.

MIGUEL (Baixo, a Luís.) - Que tal é a menina?

LUÍS (Baixo.) - É um anjo!

MIGUEL (Baixo.) - E a velha é um querubim! (Para Fortunato e Leonarda.) Vamos dar um passeio pelo povoado, enquanto não se ataca o fogo. (Santa Rita aparece na porta da igreja.)

LUÍS - Hão de permitir-me que fique. (Saem todos, menos Luís.)

CENA V[editar]

LUÍS e SANTA RITA


LUÍS - Vem cá.

SANTA RITA - O que deseja sua senhoria, deste seu humilde servo?

LUÍS - Há quanto tempo estás em casa do Senhor Fortunato?

SANTA RITA - Ora, eu já lhe digo; vim da Bahia em 1863, mil e oitocentos e sessenta e três para sessenta e oito vão cinco. Estou aqui há cinco anos e durante esse tempo, com o favor de Deus, tenho exercido o lugar de sacristão na fazenda de meu amo.

LUÍS - Tu és capaz de responder-me com franqueza a uma pergunta?

SANTA RITA - Eu sou baiano da gema, nasci na baixa de Itapagipe, e Santa Rita Gostoso dos Anjos não deixa pergunta sem resposta.

LUÍS - A filha de tua ama não sente inclinação por nenhum moço deste lugar?

SANTA RITA - Homem, para lhe falar com franqueza... Eu lá sei... Isto de mulher é bicho tão dissimulado! Mas parece-me que a menina ainda não engoliu isca. Eu ouço ela todos os dias dizer lá em casa que tem vontade de mudar-se para a cidade. Olhe, se há alguma coisa é com algum moço da Corte.

LUÍS - Ela nunca foi à Corte?

SANTA RITA - Apenas duas vezes. A velha costuma vir passar todos os anos a festa do Divino aqui nesta casa, que é própria.

LUÍS - Se eu te pedisse um favor, eras capaz de mo prestar? Tu és um rapaz inteligente e atilado.

SANTA RITA - Ora, meu senhor, quem sou eu para acompanhar nosso pai fora de horas.

LUÍS - Se fosse possível fazer chegar uma carta às mãos de Dona Inacinha.

SANTA RITA - Mas isto assim, sem mais, nem menos? O senhor já lhe piscou o olho, já lhe pisou no pé, ela já lhe fez presente de algum pano de barba, já lhe deu alguma flor, já lhe deu cabelos? Não se entrega uma carta sem essas formalidades. Eu cá quando namoro, gosto de fazer as coisas em regra.

LUÍS - Deixa-te de capadoçagens. Entregas ou não a carta?

SANTA RITA - E se ela não quiser receber?

LUÍS - Tenho toda a certeza que a receberá. Dou-te uma boa molhadura.

SANTA RITA - Defunto não enjeita cova; mas se sua senhoria dá licença, eu peço-lhe um obséquio, além da molhadura.

LUÍS - Qual é?

SANTA RITA - Saberá sua senhoria que eu também gosto... da mulatinha cá da casa...

LUÍS - Compreendo. E queres também que lhe entregue alguma carta?!

SANTA RITA - Nada, não, senhor; nós cá não temos destas histórias.

LUÍS - Então O que queres tu?

SANTA RITA - Eu desejava que sua senhoria arranjasse o consentimento da velha para o nosso casório. Podia ficar isto em família... Minha ama tem suas patacas... é uma mulatinha de estimação... - e o meu futuro estava arranjado. Se sua senhoria me prometesse...

LUÍS - Estou pronto a advogar a tua causa, uma vez que te interesses por este negócio. Entregas hoje mesmo a carta, sim?

SANTA RITA - Homem... isto agora é que se fia mais fino. Hoje é impossível. Mas já que sua senhoria é tão apressado, por que não diz logo, na ocasião de se atacar o fogo... O senhor me entende... duas palavrinhas bonitas... por exemplo: - meu coração abrasa! não posso viver sem ti! - Isto, com umas tremidelas na voz, vale mais que trinta cartas. Porém o senhor quer começar por onde os mais acabam!

LUÍS - Mas tu não sabes que a paixão verdadeira tem o poder de nos embargar a palavra, ao lado da mulher que amamos?

SANTA RITA - Quais o quê! São caraminholas que não engulo. Ainda não encontrei até hoje mulher alguma que me fizesse ficar mudo.

LUÍS - Em suma: entregas ou não, hoje mesmo, a carta?

SANTA RITA - Deixe-me ver um meio de arranjar isso. (Pensando.) Ah! tenho uma idéia! Eu vou apregoar daqui a pouco um pão-de-ló e uma galinha. Amarro a carta ao pescoço da galinha, digo ao respeitável público que aquilo é um segredo, sua senhoria arremata a história e faz presente da galinha juntamente com a carta à pequena, tendo a cautela de dizer-lhe em voz baixa: não deixe ninguém ler isto? Hein? Que tal?!

LUÍS - E se a velha abrir o segredo?

SANTA RITA - O que tem? Ficará sabendo já o que deve saber mais tarde.

LUÍS - No meio de tudo, vejo que te queres livrar da responsabilidade da entrega, fazendo convencer à tua ama que a carta veio ter às mãos da filha.

SANTA RITA - Por obra e graça do Espírito Santo. A qui qui mineris.

LUÍS - És um grandíssimo velhaco. Seja como for, toma. (Entrega a carta.)

SANTA RITA - Sua senhoria verá com que limpeza se arranja o negócio. (Luís dá-lhe dinheiro.) O Divino lhe dê muitas felicidades.

LUÍS - Eu já volto. (Sai pelo fundo.)

CENA VI[editar]

SANTA RITA e FELISBERTA (Que sai de casa com duas cadeiras e coloca-as ao lado da porta.)


SANTA RITA - Grande novidade no beco. Se tu soubesses...

FELISBERTA - O que é?

SANTA RITA - O tal mocinho que chegou ontem da Corte está chumbado deveras por tua sinhá moça.

FELISBERTA - E ela ainda mais por ele! Se tu visses os elogios que lhe faz... Ainda hoje de manhã deu-me uma porção de beliscões, porque não lhe arranjei o penteado lá como entendia. E digna filha de tal mãe!

SANTA RITA - Então pelo que vejo, as bichas vão pegar? Salvo se o velho se opuser.

FELISBERTA - Que tolice! Pois sinhô lá tem vontades nesta casa!

SANTA RITA - Aposto que não sabes que deste casamento depende a nossa felicidade?

FELISBERTA - Por quê?

SANTA RITA - Porque o Senhor Luís ficou de arranjar o nosso casório, depois de ter apertado o doce nó com a menina.

FELISBERTA - Duvido muito. Se sinhá não dá confianças ao velho, o que dirá ao genro?

SANTA RITA - Quem sabe se ele não lhe quebrará a proa?

FELISBERTA - Eles não tardam; será bom que você saia de perto de mim para não haver alguma estralada. Sinhazinha recomendou-me que pusesse as cadeiras na porta para verem todos o fogo daqui; vou buscá-las. (Sai.)

SANTA RITA - Também não tenho tempo a perder. Vou acabar o leilão. (Entra na igreja.)

CENA VII[editar]

MIGUEL, LUÍS, LEONARDA, FORTUNATO e INACINHA


MIGUEL - Eu sou de opinião que partamos amanhã para a Corte.

LUÍS - Eu não sairei daqui enquanto houver festa. (Para Inacinha baixo.) Se soubesse o que me vai pelo coração...

FORTUNATO (Para Leonarda.) - Não se zangue, senhora; isto não vai a matar.

LEONARDA (Arremedando-o.) Eh! isto não vai a matar! Vê-me quase sufocada no meio do povo e nem ao menos tomou o expediente de ir abrir o caminho.

FORTUNATO - Pois a senhora quer obrigar-me nesta idade a abrir caminhos? (Para Miguel.) Eu lhe conto o que me aconteceu uma vez. (Durante esta cena Felisberta arruma as cadeiras, à proporção que as traz de dentro; Inacinha, Luís e Leonarda sentam-se.) Era eu solteiro e estava neste tempo um rapagão desempenado: não sofria dos calos, como hoje, que me põem os pés a tinir, principalmente quando há mudança de tempo. Em ameaçando chuva, é sabido...

LEONARDA - Daqui podemos apreciar o fogo à nossa vontade.

CENA VIII[editar]

OS MESMOS, SANTA RITA e ANASTÁCIO, HENRIQUE, JOSÉ e FELIPE (Que se postam juntamente com várias pessoas em frente do coreto.)


SANTA RITA (No coreto, com um pão-de-ló em uma salva.)

Cá está de novo o Gostoso,
Que é fino tabaco em pó!
Rapaziada do bom gosto,
Quanto dão pelo loló?

JOSÉ - Bravos o poeta.

SANTA RITA - Não há nenhum casca por aí que se atreva a lançar?

MIGUEL (Para Fortunato.) - É muito comprida a história?

FORTUNATO - Eu lhe digo o que houve.

SANTA RITA - Vejam só esta massa como está loura! Está provocando uma dentada.

FELIPE - Um tostão.

SANTA RITA - Um tostão tenho pelo loló, um tostão, um tostão...

ANASTÁCIO - Quinhentos réis.

JOSÉ - Toma espiga.

SANTA RITA - Quinhentos réis, quinhentos, quinhentos... Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Quinhentos réis. Estou queimado.

FELIPE - Dez tostões.

LEONARDA (Para Miguel.) - Ainda não arrematou nada, comendador?

MIGUEL - Não, minha senhora; estou à espera que o Senhor Fortunato arremate a sua história.

LEONARDA - Eu já me encarrego de arrematá-la; Senhor Fortunato, passe para aqui. (Fortunato senta-se.)

SANTA RITA - Dez tostões me oferecem pelo rico pão-de-ló.

MIGUEL - Dois mil réis, e passe-o para ca.

SANTA RITA - Bem se vê que isto não é piaba cá da terra. Leve a droga. (Entrega o pão-de-ló a Miguel, que oferece-o a Leonarda.)

MIGUEL (A Luís.) - É preciso que o meu amigo arremate também alguma coisa.

SANTA RITA (Com uma galinha anilada tendo uma carta ao pescoço.) - Có, có, cocó, coró có, có có coró.

TODOS - Ah! ah! ah!

SANTA RITA (Olhando para Luís.) - Quem vai arrematar esta galinha é um mocinho cheiroso da Corte... Olhem só como ele me espia. Quanto dão pela galinha e o competente segredo? E pura raça cochinchina! Dá caldo para um hospital e jantar para um batalhão.

LUÍS (Levantando-se.) - Dois mil réis.

SANTA RITA - E então? Olhem o bichinho como vem cair no laço. Só o segredo vale o dobro. Dois mil réis tenho pela galinha, dois mil réis, dois e...

HENRIQUE - Dois e quinhentos.

LUÍS - Três mil réis.

SANTA RITA - Três mil réis já me oferecem pelo luzido galináceo.

LEONARDA - Que diabo tem ela no pescoço?

FORTUNATO - É um segredo, filha.

SANTA RITA - Três mil réis, três mil réis.

JOSÉ - Quatro mil réis.

LUÍS - Cinco.

SANTA RITA - Não há quem dê mais? (Pausa.) Aqui tem a cochinchina. (Entrega a Luís e sai juntamente com Anastácio, Henrique, José e Felipe.)

CENA IX[editar]

LUÍS, MIGUEL, FORTUNATO, INACINHA e LEONARDA


LUÍS (Entregando a galinha a Inacinha.) - Quero dar-lhe também um presente. (Baixo.) Não deixe ninguém ver o segredo.

LEONARDA - Vejamos em que consiste o segredo.

INACINHA - Não é nada, mamãe; não é nada.

MIGUEL - Não, senhora, tenha paciência; eu também quero ver.

LUÍS (À parte.) - Estou em talas.

LEONARDA - Deixa ver, menina.

INACINHA - Ora, mamãe. (Corre para a casa com a galinha.)

CENA X[editar]

OS MESMOS, menos INACINHA


MIGUEL (Baixo a Luís.) - É uma maneira original de se entregar uma carta.

FORTUNATO - Eu já arrematei também em uma ocasião um segredo. É verdade que foi sem querer... Tinha na carteira apenas dez mil réis, mas o diabo do leiloeiro tais pilhérias contou.

LEONARDA - Estou morta por saber o que é aquilo. Inacinha?

CENA XI[editar]

INACINHA, FORTUNATO, LEONARDA, LUÍS e MIGUEL


INACINHA (Rindo-se.) - Forte caçoada. (Mostrando um papel em branco.) Aqui está o segredo.

FORTUNATO (Para Miguel.) - Foi justamente O que me aconteceu.

LUÍS (Baixo a Inacinha.) - Qual é a sua resposta?

INACINHA (Baixo.) - Que o autorizo a pedir a minha mão.

MIGUEL (Á parte.) - Que Sonsa! (Ouve-se a bomba de um foguete.)

TODOS - Oh! oh!...

LUÍS - É o fogo que começa.

MIGUEL (Baixo a Luís.) - E a tua felicidade que finda! (Sentam-se todos nas cadeiras.)


(Cai o pano.)