Discurso de António de Sousa de Macedo na Aclamação de D. Afonso VI de Portugal (1656)

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"Prática a Sua Majestade"
por António de Sousa de Macedo
Proferido na varanda da Aclamação, erigida no Terreiro do Paço em Lisboa, para a cerimónia pública do «Levantamento» do Rei D. Afonso VI ao Trono de Portugal, no dia 15 de Novembro de 1656. Conforme transcrito no Auto do Levantamento e Juramento d'El-Rei D. Afonso VI, lavrado por .


Muito Alto, muito Poderoso, e muito Excelente Príncipe.

Sem razão se queixa o género humano da Natureza não isentar da morte um sujeito quase divino, que traz sempre o rosto no Céu, em sinal de sua preeminencia, quando a virtude que é só bem do Homem fica imortal. O morrer, antes, é benefício da Natureza, porque assegura a glória da virtude, acabando-se os riscos de cair no infalível de haver perseverado; e nascendo os aplausos só da justiça, pois nem a morte os pode sepultar, nem a adulação serve aos mortos; por isso os panegíricos nas exéquias de um Varão Ilustre nunca são tristes: para celebrarem sua imortalidade referem suas acções, e não há coisa mais indigna de tristeza que a relação de acções generosas. Quem chorar em sua morte não devera alegrar-se em sua vida, pois a via tão sujeita à causa das lágrimas. Não morrera se não fora mortal; e se chorarmos porque o era, não teremos razão, pois já deixou de ser o que não queríamos, e começou a ser o que queremos.

Em nenhum Herói se verificou isto tão propriamente como naquele assunto da fama, Nosso Restaurador e Pai da Pátria, naquele João insigne, Príncipe verdadeiramente ilustre, Rei memorável cuja vida nos foi liberdade gloriosa, cuja morte lhe conserva o nome imortal.

Se eu tiver cem bocas, como cantava Virgílio, se todo me convertera em línguas, como desejava Jerónimo, se falara com as línguas dos homens e dos anjos, como dizia Paulo, nunca chegaria a explicar a glória da liberdade que nos deu em sua vida o poderoso braço de Deus.

Passo à imortalidade de sua fama.

Imortalizou-se pelos filhos, em que se continua: imortalizou-se em nossa obrigação, pois não satisfeito com fazer-nos felizes enquanto durou, nos deixou Herdeiro, em que nos segurou felicidades também para depois de si.

Não careceu de mistério a ocasião em que Vossa Alteza Real nasceu: retinham, ou matavam, os castelhanos em prisão dura ao Sereníssimo Infante D. Duarte inocente, só para atenuarem a Real Casa Portuguesa. Mas ah! que a Justiça é uma flor que não se murcha, é uma saúde que não adoece, uma vida que não morre, uma serenidade que não se turba, um sol que não se põe, uma lua que não se eclipsa, um mar que não se altera, e um porto onde ninguém periga! Que muito que Portugal com tal escudo contra os golpes, com tal antídoto contra o veneno, sobre tal rocha contra a tempestade, vencesse aquele danado intento? No mesmo tempo nos deu o Céu a Vossa Alteza Real, e ordenou se chamasse Afonso, para que nossos contrários entendessem que começava a geração do nosso primeiro Rei, quando eles pretendiam atenuá-la: In ipsa atenuata ego respiciam, et videbo.

E ordenou também que fosse sexto Afonso, para que nos lembrássemos que em outro Afonso Sexto, pai da Rainha D. Teresa, se dividiu Portugal de Castela, para nunca mais se tornar a unir. Omnipotência infinita! Sabedoria incompreensível! Governadora do Universo, guia da Natureza, freio da Fortuna, exemplar do Destino! Tu reges a revolução dos Céus, e o repouso da Terra, ajuntas a presciência com a contingência, e o nosso alvedrio com os teus decretos, dilatas a unidade por números, e a eternidade por tempos, e pela continuação de tantos milagres, tiras o espanto deles ao humano entendimento. Mas se se considera o que vimos, e vemos, em Portugal, é força admirar novamente a alta Providência e soberana Piedade, que fez dos nosso inimigos instrumento de nosso remédio.

E sendo-nos Vossa Alteza assim dado por Deus, quem duvida que só em sua Real Pessoa lograremos unidas todas as excelências que se repartiram entre seus grandes Avós e Predecessores?

Lograremos um Afonso Henriques na religião, um Sancho I na piedade, um Afonso II na prudência, um Sancho II na benignidade, um Afonso III na indústria, um Dionísio na liberalidade, um Afonso IV na fortaleza, um Pedro na justiça, um Fernando no esplendor, um João I na constância, um Duarte no zelo, um Afonso V no valor, um João II na prudência, um Manuel na resolução, um João III no amor, um Sebastião na magnanimidade, um Henrique na devoção, um João IV na boa fortuna. Pois ainda que as altas virtudes daqueles Príncipes parecem inimitáveis, nada é impossível a um espírito generoso que, se o fora, desmaiara o Imperador Teodósio, lembrando-se de Severo; Severo, de Marco Aurélio; Marco Aurélio, de António Pio; Antonino, de Trajano; Trajano, de Tito; Tito, de Augusto; Augusto, de César; César, de Cipião; Cipião, de Quinto Fábio; Quinto Fábio, de Marcelo; e Marcelo de Fúrio Camilo; e assim Vossa Alteza, ainda que seu grande Pai fez muito, não se há-de contentar de fazer muito mais.

Nesta confiança, os Três Estados do Reino, Eclesiásticos, Nobreza, e Povo, todos juntos, e cada um por si, os presentes em nome dos ausentes, que hoje são, e serão no diante, tendo a Vossa Alteza Real por centro de nossa vontade, vontade de nosso amor, amor de nossa glória, glória de nosso Reino, em observância do juramento feito nas últimas Cortes, e de novo, se necessário é, pela melhor via e forma de direito comum, e de nossas Leis, solenemente aceitamos e juramos a Vossa Majestade por nosso Rei e Senhor natural, como filho primogénito e herdeiro que é do Senhor Rei D. João IV, de saudosa memória, que Deus tenha no Céu, nosso legítimo Rei — lhe prometemos o respeito, obediência, e direitos, que como a tal se lhe devem legitimamente, esperando que Vossa Majestade nos guarde nossas Leis, foros e privilégios, mantendo-nos e defendendo-nos em justiça, como Deus manda, e conforme aos juramentos feitos. E esperamos mais, que Vossa Majestade honre aos Grandes, ame aos meãos, ajude aos pequenos, e abraçando as Reais qualidades que constituem um perfeito Príncipe, seja afável, clemente, forte, justo, liberal, moderado, verdadeiro, procure bons Ministros, resolva com ponderação, e execute com diligência, seguindo sempre os ditames de seus Conselhos e Tribunais; porque, como disse um grande político, um ou dois facilmente podem enganar ou ser enganados, mas nunca houve quem enganasse a muitos, nem muitos enganarão a alguém. E sobre tudo esperamos que Vossa Majestade estará sempre muito sujeito ao Temor Divino, e obediente à Santa Sé Apostólica, cantando-se a um tempo os triunfos de suas Armas e os despojos de sua piedade que, como a flor não dura fora de seu ramo, nem o ramo fora de seu tronco, nem o tronco fora da sua raiz, por quem vive, assim o Rei não pode subsistir fora de seu Deus, por quem reina. Fora de Deus, fabrica ou torres de Babel para sua confusão, ou estátuas com pés de barro para sua ruína. Mas estando Vossa Majestade com atenção em Deus, não tem por que temer a Fortuna, que não pode tirar o que não deu: persistirá, governará, triunfará, servido, não levantado dela, e deixará, depois de largos anos, sucessores gloriosos, com alegria dos súbditos, parabéns dos aliados, admiração dos estranhos, e terror dos inimigos.

Ilustres e leais Portugueses, bem sei que primeiro nos faltarão lágrimas que causas urgentíssimas de chorar o bem perdido — mas, sem acusar os afectos da compaixão, pois são naturais — sem condenar os excessos do amor, pois são desculpáveis — no sentir há diferença — a brandura do ânimo é generosidade, a tristeza do espírito é fraqueza, a dor que se ajusta com a razão é de sábio, o que se sujeita à fortuna é de imprudente, os pusilânimes assistem lastimosos, não proveitosos, choram o mal, mas não o aliviam; os esforçados não lançam lágrimas, porém socorrem-nas, com o rosto sereno e coração quieto, se mostram úteis que afligidos.

À vista, pois, da glória desta imortalidade com que o Pai vive continuado no Filho, não degenere o sentimento da obrigação: o que devemos a nosso Rei, nos obriga a animar-mo-nos. Nossos Reis nunca são meninos. O Rei dos Planetas, logo em nascendo, chega ao Ocidente com seus raios.

Rei tendes tal, que, se valor tiverdes,
Igual ao Rei que agora levantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes.

Tratemos só de o servir, com as fazendas e com as vidas: assim o protestamos, Senhor, tudo oferecemos ao serviço de Vossa Majestade, e prometemos que andará em competência nosso obséquio com vosso amor, duvidando o mundo quem é mais venturoso, se Vossa Majestade em ter tais vassalos, ou seus vassalos em lograrem tal Rei.

E Vós, eterna Verdade, verdadeira Justiça, justo Fundador dos Impérios, em cuja só protecção vivem os Reis, e mais particularmente os Portugueses; Vós que desse assento soberano vedes nossa necessidade e a justificação de nossos intentos, mostrai, Senhor Deus, que não desamparais a razão: dai cumprimento a Vossas promessas; conheçam as Gentes quão acertados andamos em confiar só em Vós; assista Vossa Luz ao pio zelo da Rainha Regente; exaltai nosso Rei para exaltação e propagação da Fé Santa e Glória Vossa, que é o que principalmente pretendemos.