Discurso de Tomada de Posse do Presidente Manuel Teixeira Gomes

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Discurso de Tomada de Posse
por Manuel Teixeira Gomes
Proferido na Câmara dos Deputados do Palácio de São Bento, a 5 de Outubro de 1923. Conforme transcrito no Diário do Congresso, Sessão N.º 10 (5 de Outubro de 1923).


Senhores Senadores e Deputados da Nação:

Muito lhes agradeço a honra que me fizeram, elegendo-me Presidente da República.

O juramento que acabo de fazer torna ociosa e inútil qualquer declaração, ou promessa sobre o modo como tenciono cumprir as obrigações do meu cargo.

Certo de que me não faltará nunca a colaboração do Parlamento, nem o apoio do povo português, entro afoitamente no exercício das minhas funções.

Espinhoso é o cargo de Presidente da República, e mais difícil no meu caso por suceder no seu exercício à nobilíssima figura do Ex.mo Sr. António José de Almeida.

Republicano prestigioso entre os que o são, patriota de alma e coração, exemplo do virtudes cívicas inigualáveis, ele soube durante um quadriénio dos mais agitados da República, conquistar o respeito e a admiração de todos os portugueses.

E entre os nossos irmãos brasileiros, que o escutaram embevecidos, o seu verbo ardente criou tal atmosfera de simpatia, que o velho Portugal ali ressuscitou mais estimado do que nunca.

Nas chancelarias por onde transitei, e nas conferências internacionais a que assisti, só ouvi pronunciar o seu nome com sentida veneração.

Em Portugal e fora dele, a passagem do Ex.mo Sr. Dr. António José de Almeida pela suprema magistratura da Nação assinalou-se como um modelo de integridade e de patriotismo.

Oxalá me seja dado seguir-lhe as pisadas!


A política externa adoptada pela República tem merecido o aplauso da Nação inteira.

A mais e mais nos temos aproximado do Brasil, cujo povo, pela consanguinidade e pelo sentimento, é o mais afim do povo português.

Não se têm poupado esforços para que as nossas relações com a Espanha se estreitem, como deve suceder entre nações limítrofes e amigas, sobretudo nos casos, como este, de recíproca e sincera estima.

Com a França e a Itália a nossa participação na Guerra criou essa nobre camaradagem que garante as amizades eternas.

Mantemos excelentes relações com todas as nações do Mundo e nos Estados Unidos da América os densíssimos núcleos de emigração portuguesa consolidam a profunda simpatia que sempre nos ligou à grande República.

Quanto à Inglaterra, cuja aliança tem por muitos séculos servido de base à nossa política externa, as provas de estima recebidas ultimamente pelo país, nas honras prestadas à pessoa do Presidente eleito, bastariam, se outras razões não houvesse, para provar os excelentes termos em que os dois países vivem.

É esperança minha, é certeza minha, que esta aliança continuará indefinidamente a servir de base à nossa política externa e ufana-me que o meu país trabalhe, para o progresso e a civilização da humanidade, de mãos dadas com a Grã-Bretanha.

É quase angustiosa a crise que atravessam todas as nações europeias que entraram na Grande Guerra: crise financeira, crise económica, crise política; de todas essas crises padecemos nós também.

Tão vastos são porém os recursos naturais da nossa abençoada Pátria, que se me afigura fácil vencer as duas primeiras, por pouco que nos unamos para as debelar.

Fio do patriotismo do Povo Português, do seu ardente amor à Liberdade, da sua coragem em defender as regalias conquistadas à força de tantos sacrifícios, e à custa de tanto sangue, pelo constitucionalismo e pela República, que a crise política em Portugal nunca atingirá, nem de leve, o livre exercício das instituições parlamentares.

Fio também desse mesmo povo que trabalhará sem descanso para fortalecer essas instituições, dignificando-as.

Viva a República Portuguesa!