Discurso de Tomada de Posse do Presidente Manuel de Arriaga

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Discurso de Tomada de Posse
por Manuel de Arriaga
Proferido na Câmara dos Deputados do Palácio de São Bento, a 24 de Agosto de 1911. Conforme transcrito no Diário da Assembleia Nacional Constituinte, Sessão N.º 59 (24 de Agosto de 1911).


Manuel de Arriaga profere o discurso

Meus Senhores:

Esta Assembleia Nacional Constituinte acaba de depositar nas minhas débeis mãos um tesouro quatro vezes precioso: o da Liberdade, em nome da qual trataremos, com o auxílio de todos os que vierem em volta de nós, de eliminar todos os privilégios que, sendo mantidos à custa da depressão e ofensa dos nossos semelhantes, são para mim malditos.

Depositou, além da Liberdade, uma coisa sagrada acima de todas: a Honra da Pátria.

Perante o estrangeiro e perante a nossa consciência nós vamos honrar, com os nossos sacrifícios, por uma solidariedade inevitável, uma triste herança — a do passado, cheio de compromissos por culpas que não são nossas — encontraremos, no entanto, na alma do Povo, energias bastantes para nos redimirmos aos olhos do mundo.

Nas virtudes democráticas buscaremos os elementos da nossa regeneração.

Não falemos mais nos erros dos contrários depois de os condenarmos, porque as virtudes da democracia valem bastante para esquecermos os inimigos da Pátria.

Há outro tesouro, principalmente, precioso: o Povo Português — este tutelado de séculos que está completamente desvalido, sem a luz da justiça moderna!

É necessário acalentar aquelas almas, enriquecer e arrotear aqueles corações perdidos para a Verdade, para a Justiça, e para o Amor.

Este é o objectivo mais dilecto do meu coração — os oprimidos.

Resta-me lembrar a simpática missão de chamar à conciliação, à paz, à ordem, à harmonia social a família portuguesa, em nome da Liberdade, em nome da República, em nome da nossa libérrima Constituição.

Segundo os princípios nela consignados, e sob a intervenção directa do Povo soberano, deixarão de existir, como até agora, opressores e oprimidos; daí o antagonismo irritante das classes ligadas pela fatalidade e pela força e não, como de hoje em diante, pelo Amor e pela Justiça — cumpre-nos fazer do nosso Estatuto a Cidade Santa do Direito Moderno; conseguir que este direito seja tão invejado pelos nossos inimigos, como outrora o foram as cidades de Atenas e de Roma.

Hão-de vir para nós os que de nós fugiram. Em nome da Pátria e da Liberdade, nós aqui estamos para os receber.

E, a vós, o tributo inalterável da minha gratidão, por confiardes num velho que pouco vale, mas que poderá muito com o vosso auxílio.