Diva/XII

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Diva por José de Alencar
Capítulo XII

Era uma hora da noite.

Eu esperava Emília com os olhos fitos na janela de seu quarto, as únicas em toda a casa que ainda apareciam frouxamente esclarecidas.

Já te disse que os aposentos de Emília, uma alcova, um gabinete de vestir e uma sala de trabalho, ocupavam a face esquerda do edifício. Desse lado o sobrado apoiava-se a uma escarpa da colina, que lhe servira como de alicerce, e que para elegância da construção o arquiteto disfarçara com um terraço.

O gabinete de Emília abria uma porta para esse terraço. Ali no quadro iluminado pela claridade interior, via eu de longe desenhar-se seu vulto esbelto. Avançou até a borda do rochedo escarpado.

— Que vai ela fazer, meu Deus! balbuciei trêmulo e frio de susto.

Esquecendo tudo, para só lembrar-me do risco imenso que sua vida corria, fui para soltar um grito de pavor que a suspendesse; mas ela, resvalando pelas pontas eriçadas do rochedo abrupto, já tocava a planície. Pouco depois estava junto de mim, calma, risonha, sem a menor fadiga.

— Aqui estou! disse afoutamente, abaixando o capuz da longa mantilha.

— Para que arrisca assim a sua vida, D. Emília? Se eu soubesse... não tinha aceitado!

Ela ergueu os ombros desdenhosamente.

— Ainda estou frio!... Parecia-me a cada momento que o pé lhe faltava e...

— E eu morria!... Se não fosse isso teria eu vindo? Podíamos ficar onde estávamos, tranqüilamente sentados no sofá... Para que serviria a vida, se ela fosse uma cadeia? Viver é gastar, esperdiçar a sua existência, como uma riqueza que Deus dá para ser prodigalizada. Os que só cuidam de preservá-la dos perigos, esses são os piores avarentos!

— E quem se priva a si do mais belo sentimento, quem se esquiva de amar, não é avaro também da vida, avaro do seu coração e das riquezas de sua alma? A senhora o é, D. Emília! Oh! Não negue!

— Como ele se engana, meu Deus! exclamou Emília erguendo ao céu os belos olhos.

— Que diz?... Então posso acreditar enfim?

E murmurei arquejante:

— É verdade que me ama?

Nunca até aquele momento, durante dois meses vividos em doce intimidade e no conchego estreito de nossas almas, nunca a palavra amor fora proferida em referência a nós. Emília dava-me, como já sabes, todas as preferências a que podia aspirar o escolhido do seu coração, e assumira para comigo o despotismo da mulher amada com paixão. Ela imperava em mim como soberana absoluta. Seu olhar tiranizava-me, e fazia em minha alma a luz e a treva.

A fonte de minhas alegrias, como de minhas tristezas, manava de seus lábios. Se eles abriam-se, meu coração abria-se também, em flor ou chaga, conforme o sorriso era orvalho ou espinho.

Ela tinha consciência disso, mas persistia em chamar, ao sentimento que nos ligava, uma boa e santa amizade. Às vezes, que eu ousava começar o nome doce e verdadeiro do meu afeto, seu olhar incisivo cortava-me a palavra nascente; a minha culpa era rigorosamente punida com alguns dias de uma indiferença completa.

Naquela noite, porém, cuidei que era chegada a hora da minha ventura. Tudo me anunciava. Essa entrevista alta noite, a solidão que nos cercava, os perigos que Emília afrontara para ir ter comigo, o sereno contentamento derramado por toda sua pessoa, e até a última palavra que proferira invocando a Deus; tudo isto não me dizia bem claro, e com a eloqüência sublime das paixões irresistíveis, que ela me amava?

Pois bem, Paulo; ouvindo a minha trêmula interrogação, Emília demorou seu olhar sobre mim, e disse-me com uma placidez esmagadora:

— Não; não o amo!

Depois, como se quisesse abrandar a dureza dessa declaração, adoçou a voz para acrescentar:

— Não o amo... ainda!

— E nunca me há de amar!

— Por quê?... Escute! Não se agaste comigo. Sou franca; disse-lhe que não o amo ainda, é a verdade. Virei a amá-lo algum dia? Só Deus o sabe. Sente-se aqui perto de mim; vou lhe fazer uma confissão.

Ajoelhei-me junto ao banco.

— De joelhos? Mas eu é que devia estar, pois sou eu quem se confessa! disse ela rindo. — O senhor me supõe um coração frio e egoísta... avaro de amor, como dizia. É o contrário inteiramente. Devia dizer um coração pobre, miserável de amor, mas ambicioso, mas devorado pela sede imensa... Amor! Amor! Não peço eu a Deus todos os dias que me encha dele esta alma? Tivesse-o eu, que lhe dera sem hesitar toda a minha vida, sem guardar para mim nem um instante dela! Tivesse eu essa opulência do meu coração, que então o senhor não me chamaria avara, mas pródiga e louca, porque eu sinto que o seria... Sim, louca, de minha louca paixão!

— Eu julgava que tinha medo de amar? Creio que me disse.

— De amar, não; mas dessas ilusões efêmeras, que murcham o coração. Quero o meu bem vivo, para dá-lo todo a quem for dele senhor. Talvez aquele a quem o der o dilacere. Embora! Devem de haver delícias inefáveis neste mesmo suplício! Depois que supremo consolo!... Sentir o orgulho de só ter amado uma vez na vida!.. Sentir que não restam do primeiro e único amor senão cinzas do coração extinto!

Esquecido já do desengano que recebera há pouco, eu palpitava sob a palavra apaixonada de Emília, como se fora o feliz que devesse merecer tão sublime paixão!

— Medo de amar? exclamou ela. — Pois saiba que mãe nenhuma espiando o primeiro sorriso nos lábios do seu filhinho teve os estremecimentos de ventura com que eu espreito o primeiro palpite de meu coração. Meu Deus, que júbilo imenso não deve ser o amor, quando a esperança dele nos enche assim de contentamento! Foi há cinco meses... quando o senhor voltou... Cuidei que ia amar.

— A mim?

— Sim, ao senhor. E desde então interrogo minha alma; escuto-me viver interiormente... Lembreime até de escrever o que eu sentia. Seria a história do meu coração. No dia em que ele me dissesse que eu o amava, sem que o senhor me perguntasse, sem o menor acanhamento, lhe confessaria. Acredite!...

— E seu coração até agora nada lhe disse ainda, D. Emília?...

— Meu coração diz-me que eu o estimo tanto como a meu pai; que o senhor ocupa uma grande parte da minha vida; que sua lembrança gravou-se e não se apagará mais nunca em meu pensamento; que as horas que passo a seu lado são as mais doces para mim; que nenhuma voz toca mais suavemente as cordas de minha alma. Eis o que me diz o meu coração; mas ele não diz que pelo senhor eu sacrificaria tudo, as considerações do mundo, minha família, as minhas afeições e os meus sentimentos; ele não diz que o senhor bastaria à minha vida, e a encheria tanto, que não houvesse mais lugar nela para outro pensamento e outro desejo. Não diz isto; logo eu não o amo!..

— Mas, D. Emília, atenda! A senhora ilude-se talvez...

— Sei o que pensa. Na sua opinião o amor assim é impossível! Pois juro-lhe!... eu só amarei assim.

Emília ergueu-se.

— Ao menos diga-me. Posso ainda ter uma esperança?

— Eu a tenho!... respondeu-me.

Se o mundo soubesse um dia a história que eu te conto, Paulo, ele exclamaria sem dúvida:

"É impossível! Essa mulher não existiu!" E o mundo teria razão.

A Emília, de que eu te falo, não existiu para ninguém mais senão para mim, em quem ela viveu e morreu. A Emília, que o mundo conhecera e já esqueceu talvez, foi a moça formosa, que atravessou os salões, como a borboleta, atirando às turbas o pó dourado de suas asas. A flor, de que ela buscava o mel, não viçava ali, nem talvez na terra.

Seria flor do céu?