Dom Quixote/I/XXXVII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dom Quixote por Miguel de Cervantes
Capítulo XXXVII — No qual se prossegue com a história da famosa infanta de Micomicão, e de outras graciosas aventuras.


Tudo quanto se havia ultimamente passado fora visto por Sancho, o qual ouvira quanto se dissera, com grande dor da sua alma, pois que repentinamente se lhe desfaziam e tornavam em fumo as esperanças bem fundadas que tinha de seus futuros aumentos, pois não era a linda princesa de Micomicão senão simplesmente a lavradora Dorotéia, o gigante não passava de D. Fernando, e tudo isto sucedia enquanto seu amo dormia a sono solto, sem saber as grandes novidades ocorridas.

Dorotéia não podia ainda acabar de persuadir-se de que tudo aquilo era um sonho, que a alucinava; Cardênio estava possuído de igual pensamento; e Lucinda tinha as mesmas idéias destes dois a respeito do acontecido.

D. Fernando dava agradecimentos ao céu por havê-lo livrado dum labirinto, onde se achava metido e tão arriscado a perder o seu crédito e a sua alma: finalmente, todos os que se achavam na venda estavam satisfeitos e contentíssimos pelo bom desfecho que haviam tido negócios tão perigosos e desesperados.

Tudo o cura, como discreto que era, punha no seu lugar, e dava a cada um os parabéns pelo descanso e boa ventura que alcançara; porém quem sentia mais gosto e mais verdadeiro júbilo era a vendeira por haver apanhado a Cardênio e ao cura a promessa de lhe pagarem todos os interesses e danos que por causa de D. Quixote lhe houvessem sobrevindo.

Entre tanta gente contente só o pobre Sancho como já se disse, era o triste, o aflito, e o desventurado, e com aspecto cheio de melancolia entrou no aposento de seu amo, o qual naquele momento acordara, e lhe disse:

— Bem pode Vossa Mercê, senhor Triste Figura, dormir largamente e à sua vontade, sem dar-se ao trabalho de excogitar o meio que há-de ter para dar cabo do gigante, e restituir a princesa ao seu reino, porque já tudo isto se acha feito e concluído.

— Isso o creio eu muito bem — respondeu D. Quixote — porque travei com o gigante a mais descomunal e desaforada batalha que penso terei em todos os dias da vida que me restam; e dum revés, zás, lhe cortei a cabeça, e foi tanto o sangue que ele deitou, que corria pelo solo formando um regato que parecia ser de água!

— Que parecia de vinho tinto, muito melhor pudera Vossa Mercê dizer — replicou Sancho — porque quero que Vossa Mercê saiba, se é que ainda o não sabe, que o gigante morto não era mais nem menos que um odre partido e o sangue seis cântaros de vinho tinto que ele tinha na barriga, e a cabeça cortada é a pata que me pôs, e leve o diabo tudo.

— Que é isso que dizes, louco? — disse D. Quixote. — Acaso te deu volta ao miolo?

— Levante-se Vossa Mercê — respondeu Sancho — e verá as boas obras que tem feito e quanto elas lhe hão-de sair caras; e verá mais a rainha convertida em uma dama particular chamada Dorotéia, com outros sucessos, que se bem os ficar sabendo e conhecendo, terá ocasião de muito se admirar.

— Nada disso — disse D. Quixote — me maravilha, porque, se bem te lembras, já da outra vez, que nesta venda pousamos, te fiz observar que tudo quanto aqui se passava era por arte de encantamento, e não seria coisa digna de grande reparo que acontecesse agora o mesmo.

— Assim o acreditaria eu — replicou Sancho — se a minha manteação houvera sido também dessa natureza; porém não o foi, senão coisa muito real e verdadeira: e eu bem vi este mesmo vendeiro, que ainda hoje aqui está, sustentar uma das pontas da manta, e me fazia andar em uma roda viva, da manta lá para as alturas do céu, com grande donaire e brio e com tantas risadas, como força e valentia; e quando as pessoas que figuram são conhecidas, tenho para mim, ainda que seja um homem simples e pecador, que não pode haver encantamento algum, e que há somente um real movimento de costelas e uma fortuna na verdade desgraçadíssima.

— Muito bem, tudo Deus há-de remediar — disse D. Quixote; — dá-me os meus vestidos, e deixa-me sair lá para fora, porque me quero informar e ver os sucessos e transformações que me contas.

Deu-lhe Sancho os vestidos, e enquanto ele se esteve vestindo, narrou o cura a D. Fernando e aos mais que ali se achavam as loucuras de D. Quixote e o artifício de que se haviam servido para tirá-lo da Penha Pobre, onde ele estava imaginando fazê-lo assim pelos desdéns de sua senhora: mais lhe referiu todas as aventuras, contadas por Sancho, das quais se não admiraram pouco e se riram muito, por lhes parecer o mesmo que parecia a toda a gente, ser este um gênero de loucura o mais extraordinário que podia caber em pensamento disparatado.

O cura ainda acrescentou que, pois a boa ventura da senhora Dorotéia lhe impedia passar adiante com a empresa começada, mister era inventar e achar outro meio de levar D. Quixote para a sua terra natal.

Ofereceu-se Cardênio de continuar o começado, dizendo que sua Lucinda representaria suficientemente a pessoa de Dorotéia.

— Não — disse D. Fernando — não há-de ser assim, porque eu quero que Dorotéia prossiga o que começou, e, uma vez que a morada deste bom cavaleiro não seja muito distante deste sítio, muito folgarei com que se procure o remédio do seu mal.

— A morada de D. Quixote — disse alguém — está daqui a dois dias de jornada.

— Pois bem — continuou D. Fernando — ainda que a distância fosse maior que essa, grande gosto me dará o caminhá-la à conta de praticar obra tão meritória.

A este tempo se apresentou D. Quixote a quantos ali estavam, armado de todos os seus petrechos, trazendo na cabeça o elmo de Mambrino, bem que muito amassado, no braço esquerdo o seu escudo ou rodela, e na mão direita o lanção, em que se apoiava.

Pasmou D. Fernando e todos quantos conheciam então pela primeira vez a D. Quixote, quando viram seu rosto amarelo e seco, e de meia légua de comprido, a desigual estranheza da sua armadura e os seus pausados ademanes, e guardaram silêncio, esperando ouvir o que ele dizia.

D. Quixote, com muita gravidade e muito sossego, pondo os olhos na formosa Dorotéia, falou assim:

— Acabo de ser informado, bela senhora, por este meu escudeiro, de que a vossa grandeza se acha aniquilada, e destruído o vosso próprio ser, porque de rainha e grã senhora que éreis, vos haveis tornado em uma donzela particular. Se isto aconteceu por ordem do nigromante rei vosso pai, receoso de que eu vos não prestasse o necessário e devido auxílio, declaro que ele não sabe, nem nunca soube, por onde estas coisas correm, e que completamente ignora as histórias cavaleirescas; porque, se as houvera lido e compreendido por tão longo espaço de tempo, e com tamanha atenção, como eu as li e compreendi, teria visto a cada passo o modo fácil, com que outros cavaleiros, de menor fama que a minha, deram remate a empresas muito mais dificultosas, pois me parece não ser negócio de grande polpa matar um giganteto, embora ele seja muito arrogante, e ainda não há muitas horas que eu me vi com ele, e... mas quero calar-me aqui, para que não digam que minto; é certo, porém, que o tempo, descobridor de todas as verdades, quando menos o pensarmos, falará por mim.

— Viste-vos, mas foi com dois odres de vinho, e não com gigante algum — disse nesta ocasião o vendeiro.

D. Fernando mandou-lhe que se calasse, e que por modo nenhum interrompesse a prática de D. Quixote, o qual, continuando, disse:

— Finalmente, alta e deserdada senhora, se, pela causa que indiquei, vosso pai fez na vossa pessoa estas metamorfoses, não lhe deis crédito, porque não pode haver na terra algum perigo, por maior que seja, através do qual não abra caminho a minha espada, que, cortando a cabeça ao vosso inimigo, me habilitará a colocar sobre a vossa, dentro em breves dias, a coroa real, que vos foi roubada.

Aqui deixou D. Quixote de falar, e esperou que a princesa lhe respondesse, a qual, como já sabia ser a vontade de D. Fernando que se passasse adiante com o começado engano até deixar a D. Quixote na sua terra, com muita gravidade e donaire respondeu:

— Quem quer que vos disse, valoroso Cavaleiro da Triste Figura, que eu troquei ou mudei o meu antigo ser, faltou à verdade, porque ainda hoje sou a mesma que fui ontem: é certo que alguma mudança fizeram no meu estado alguns acontecimentos felizes, que o tornaram o melhor que eu poderia desejar; porém não foi isso bastante para eu deixar de ser o que era, nem para perder o pensamento que ainda conservo de amparar-me do valor do vosso braço invencível, pensamento este em que sempre estarei firme: portanto, senhor meu, digne-se a vossa bondade de restituir seu crédito honroso ao pai que me gerou, e tenha-o sempre na conta de homem prudente e entendido, porque foi ele que com a sua ciência descobriu um meio tão verdadeiro, quanto fácil, para remediar a minha desgraça, pois estou convencida de que sem o vosso auxílio jamais chegaria a ter a ventura que atualmente tenho; e em tudo isto vos digo a verdade pura, da qual são testemunhas a maior parte destes senhores aqui presentes. Agora só nos resta continuar amanhã o nosso caminho, porque hoje já só poderíamos fazer uma jornada muito pequena, e pelo que pertence ao bom sucesso da nossa empresa, tudo entrego nas mãos de Deus, e tudo confio no esforço do vosso peito.

D. Quixote, ouvindo o que disse Dorotéia, voltou-se para Sancho, e, com mostras duma grande cólera, lhe disse:

— Agora te digo eu, meu Sanchinho, que és o velhaquinho mais descarado de toda a Espanha: dize-me, ladrão vagabundo, não me asseguraste, ainda há pouco, que esta princesa se havia mudado em uma donzela chamada Dorotéia, e que a cabeça, que cortei ao gigante, era a pata que te pôs, isto junto com outros disparates tais, que me puseram na maior confusão pela qual hei passado em todos os dias da minha vida? Juro (e ao dizer isto levantou os olhos para o céu e apertou os dentes), que estou para fazer em ti um estrago tamanho, que ponha o sal na moleira a todos quantos escudeiros mentirosos hajam de servir daqui em diante aos cavaleiros andantes do mundo inteiro.

— Acalme-se Vossa Mercê, meu senhor bom — disse Sancho — pois bem pode haver acontecido que eu me enganasse no que respeita à mudança da senhora princesa de Micomicão; porém naquilo que respeita à cabeça do gigante, ou pelo menos aos furos dos odres, e ao ser vinho tinto o sangue derramado, por Deus que me não enganei pois os odres ali estão todos esburacados perto da cama de Vossa Mercê, e o vinho tem feito do seu aposento um verdadeiro lago; e se não, ao fritar dos ovos o verá, quero dizer, que o verá quando aqui o senhor vendeiro lhe der em rol a conta do que Vossa Mercê lhe deve: enquanto a que a senhora rainha seja ainda a mesma que dantes era, no íntimo da alma me alegro eu com isso, porque hei-de ter rasca na assadura, como membro que sou da família.

— Agora te digo eu, Sancho — respondeu D. Quixote — que és completamente um parvo, e perdoa-me e basta.

— Basta — disse então D. Fernando — e não se fale mais nisto; e pois que a senhora princesa já determinou que amanhã se continuaria a jornada, que não se pode continuar hoje por ser mui tarde, cumpra-se o que ela manda, e esta noite poderemos nós passá-la em agradável conversação; e, chegando o dia de amanhã, todos queremos acompanhar ao senhor D. Quixote, e ter a honra de presenciar as grandes e assombrosas façanhas que há-de fazer no decurso desta difícil empresa, de que se encarregou.

— Sou eu quem tem de servir-vos e acompanhar-vos — respondeu D. Quixote — e muito agradeço o favor com que sou tratado, e a boa opinião em que sou tido, a qual procurarei, quanto caiba em minhas forças, tornar verdadeira, ainda que perca a vida neste empenho, e mesmo mais que a vida, se mais que ela me é possível perder.

Outras semelhantes expressões de cortesia e oferecimentos continuaram a trocar-se entre D. Quixote e D. Fernando; mas a tudo impôs silêncio um passageiro, que naquele momento entrou na venda, o qual pelo seu vestuário mostrava ser cristão chegado de terra de mouros, pois usava duma casaca de pano azul com meias mangas, de abas curtas e sem gola, e os calções e o barrete eram também de cor azul; trazia uns borzeguins feitos segundo a moda dos mouros, e um alfanje suspenso dum talabarte lançado ao tiracolo. Logo atrás deste passageiro entrou uma mulher vestida à mourisca, com uma touca na cabeça e o rosto encoberto, a qual viera a cavalo em um jumento, e trazia um barretinho de brocado e uma almalafa que a cobria desde a cabeça até aos pés.

O homem era de forma robusta, de agradável presença, contando pouco mais de quarenta anos de idade, algum tanto moreno, barba bem posta e grandes bigodes, e, se estivera mais bem vestido, pelo seu ar e pelas suas maneiras, todos o julgariam como pessoa bem nascida e com boa educação.

Apenas entrou, pediu um aposento, e porque lhe disseram que não o havia, mostrou-se magoado, e chegando-se para o pé do jumento, em que vinha a que parecia moura, apeou-a tomando-a nos braços.

Lucinda, Dorotéia, a vendeira, sua filha e Maritornes, atraídas pelo trajo novo e por elas nunca visto, rodearam a moura, e Dorotéia, sempre comedida, graciosa e discreta, parecendo-lhe que os dois adventícios se afligiam pela falta de aposento, disse à mulher:

— Não vos cause pena, senhora minha, a falta de comodidades que encontrais aqui, porque comodidades sSo coisas que nunca se encontram em casas tais, como esta; porém, contudo, se gostardes de vos aposentar conosco (ao dizer isto sinalou a Lucinda) porventura vos convencereis pelo decurso de todo este caminho de que não foi hoje o dia em que pior albergue encontrastes.

Não respondeu nada a estrangeira a isto, nem fez outra coisa mais que levantar-se do lugar onde se havia assentado e, cruzando as mãos ambas sobre o peito, inclinou a cabeça e curvou o corpo, como quem assim queria mostrar o seu agradecimento.

Pelo silêncio em que se conservou, e pelas demonstrações que a estrangeira fez, ficaram persuadidas as que a rodeavam de ser sem dúvida ela alguma moura, que não sabia falar a linguagem dos cristãos.

Acudiu nesta ocasião ali o cativo, que até aquele tempo estivera ocupado com outras coisas, e, vendo que a sua companheira nada respondia a quanto as outras mulheres lhe perguntavam, disse:

— Senhoras minhas, esta donzela apenas entende a minha língua, porém não sabe falar outra, senão a da sua terra, e por isso cuido que não tem respondido e nem por certo responderá ao que lhe seja perguntado.

— Nada mais se lhe pergunta — disse Lucinda — se não se ela quer por esta noite aceitar a nossa companhia, que com a melhor vontade lhe oferecemos, assim como também lugar no aposento, em que havemos de repousar, e onde lhe procuraremos todas as comodidades possíveis, pois é dever nosso obsequiar os estrangeiros, sobretudo sendo eles do nosso sexo.

— Por ela e por mim vos beijo, senhora, as mãos, e em muito aprecio a mercê que tendes a bondade de fazer, a qual não pode deixar de ser mui grande sendo feita em tal ocasião e por pessoas tais como tudo me está indicando que vós sois.

— Dizei-me, senhor — perguntou Dorotéia — esta senhora é cristã ou é moura? O seu trajo e o seu silêncio nos levam a pensar que ela não é o que nós desejáramos que fosse.

— Moura é no trajo e no corpo — respondeu o cativo — porém na alma é já uma verdadeira cristã, porque tem ardentíssimos desejos de o ser.

— Logo ainda não é batizada? — replicou Lucinda.

— Não teve ainda ocasião oportuna de batizar-se — disse o cativo — desde que saiu de Argel, sua terra, e, como até agora não correu algum risco a sua vida, entendi poder dilatar-lhe o batismo até que estivesse bem instruída do que ele é, e das cerimônias que manda praticar a nossa santa madre Igreja; espero, porém, que Deus será servido de que ela dentro de breve tempo se batize com a decência devida à qualidade da sua pessoa, a qual é superior ao que mostra o seu vestuário e o meu.

Com estas razões acendeu o cativo em todos quantos o escutavam uma grande curiosidade e veementíssimo desejo de saberem quem ele era, e quem era a moura, mas nenhum lho quis perguntar por então, atendendo a que era mais própria aquela hora para o descanso, que para ouvir a história da vida dos dois. Dorotéia tomou pela mão a desconhecida e a fez assentar junto de si, pedindo-lhe que se desembuçasse; ela olhou para o cativo, como quem o consultava sobre o que lhe diziam, e o que ela devia fazer; e ele, falando-lhe em língua arábica, lhe disse que lhe pediam para descobrir seu rosto, e que assim o fizesse; ao que obedecendo, descobriu um rosto tão perfeito que Dorotéia a teve por mais formosa que Lucinda, e Lucinda por mais formosa que Dorotéia, e todos os circunstantes foram de opinião, que, se alguma mulher havia que pudesse igualar as duas, era sem dúvida a moura, e alguns chegaram mesmo a achar que ela as excedia em certos pontos de perfeição; e, como a formosura tenha por especial prerrogativa, e por graça singular, o poder de ganhar as vontades e atrair os ânimos, logo todos se renderam ao desejo de servir e amimar a bela moura; e D. Fernando perguntou ao cativo como ela se chamava, ao que este respondeu que se chamava Lela Zoraida; e porque ela ouviu e entendeu a pergunta e a resposta, acudiu com muita pressa, e disse com uma espécie de pesar muito engraçado:

— Não, não Zoraida, Maria, Maria — dando assim a entender que se chamava Maria, e não Zoraida.

Estas palavras e o grande afeto, com que a moura as pronunciou, fizeram borbulhar as lágrimas nos olhos de alguns dos que ali estavam, particularmente das mulheres, que por sua natureza são ternas e compassivas.

Abraçou-a Lucinda com muito amor, dizendo-lhe:

— Sim, sim, Maria, Maria.

Ao que a moura respondeu:

— Sim, sim, Maria, Zoraida, macange — que quer dizer, não.

A este tempo já era chegada a noite, e por ordem dos que vinham com D. Fernando havia o vendeiro com grande cuidado e diligência preparado a ceia o melhor que lhe foi possível.

Logo que foram horas competentes assentaram-se todos a uma mesa muito comprida e estreita, porque na venda uma mesa regular, redonda, ou quadrada, era coisa que não existia, e deram a cabeceira ou lugar principal, apesar das suas recusas, a D. Quixote, o qual quis que ao seu lado se assentasse a senhora de Micomicão, porque ele era o seu cavaleiro e defensor.

Em seguida assentaram-se Lucinda e Zoraida, e fronteiros a estas D. Fernando e Cardênio, e logo os outros cavaleiros, e do lado das senhoras e ao pé delas o cura e o barbeiro: e deste modo cearam com grande satisfação, a qual subiu de ponto quando viram a D. Quixote deixar de comer, e, movido por outro espírito semelhante àquele que o fez falar, quando ceou com os cabreiros, principiar o discurso seguinte:

— Verdadeiramente, senhores meus, se bem se consideram as coisas, são muitas vezes extraordinários e inauditos os acontecimentos presenciados por todos os que professam a ordem da cavalaria andante: senão, dizei-me; quem seria o habitador deste mundo, que, entrando pela porta deste castelo, e vendo-nos estar do modo que estamos, pudesse ajuizar e crer que nós somos quem somos? Quem pensaria que esta senhora, aqui ao meu lado assentada, é a grande rainha que todos nós sabemos, e que eu sou aquele cavaleiro da Triste Figura, cujo nome a boca da fama por aí tem espalhado? Já se não pode duvidar que este ofício e ocupação excede a todos aqueles e aquelas que os homens inventaram, e tanto mais deve ser estimado, quanto a maiores perigos está sujeito: e não ousem contradizer-me os que pretendem sustentar que as letras levam vantagem às armas, pois eu lhes afirmarei, sejam eles quem quer que forem, que não sabem o que dizem: porque a principal razão em que os tais se fundam é em que os trabalhos do espírito excedem muito os do corpo, e que as armas somente ao corpo pertencem e por ele só são exercitadas; como se uma tão nobre ocupação fosse ofício próprio daqueles que levam a sua vida conduzindo cargas, os quais não precisam senão de possuir forças materiais; ou como se isto, a que chamamos armas, nós os que fazemos profissão delas, não precisasse de muitos atos de fortaleza, os quais carecem na sua execução, para que esta seja perfeita, de muita inteligência em quem os executa: ou como se o guerreiro, que tem a seu cargo o comando dum exército, ou a defesa duma povoação sitiada, não tivesse necessidade de trabalhar igualmente com o espírito e com o corpo: se não, veja-se se é possível conseguir por meio das forças corporais e materiais o penetrar as intenções do inimigo, seus projetos e seus estratagemas, e prevenir as dificuldades e os danos que ele pode suscitar e opor, tudo isto coisas tocantes privativamente ao entendimento, e nas quais o corpo nenhuma parte pode ter. Sendo pois ponto verificado que as armas requerem tanta força de espírito como as letras, examinemos agora qual dos dois espíritos é o que trabalha mais, se o do letrado, se o do guerreiro. Para isto se conhecer bem, deve examinar-se com atenção o destino a que cada um dos dois se encaminha, porque em mais alto valor se há-de apreciar a intenção daquele que tem por objeto alcançar um fim mais glorioso e nobre. O fim a que as letras se dirigem (e não falo agora das divinas, que aspiram somente a encaminhar as almas para o céu, fim este tão sem fim, que nenhum outro se lhe pode igualar), quero dizer, as letras humanas, é estabelecer com clareza a justiça distributiva, e dar a cada um o que é seu, e o procurar e fazer que as boas leis se guardem e se cumpram: fim por certo este generoso, e digno de grande louvor; porém não de tanto como merece aquele a que as armas atende, o qual consiste em segurar a paz, que é o maior bem que os homens podem nesta vida desejar: e observe-se, que as primeiras boas novas, que teve o mundo e tiveram os homens, foram as anunciadas pelos anjos na noite que para nós todos foi luminosíssimo dia, quando nos ares cantaram: Glória seja dada a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade: e a saudação que o melhor mestre da terra e do céu ensinou aos seus companheiros e favorecidos foi dizer-lhes que, quando entrassem em alguma casa, falassem assim: Paz seja nesta casa: e muitas outras vezes lhes disse: Dou-vos a minha paz, a minha paz vos deixo, a paz seja convosco: bem como jóia e prenda dada e deixada por tal mão, jóia sem a qual não pode haver algum bem nem na terra nem no céu: esta paz é o verdadeiro fim da guerra pois o mesmo é dizer armas do que dizer guerra. Assentada pois esta verdade, que o final da guerra é a paz, e que nisto levam as armas vantagem às letras, tratemos agora dos trabalhos do letrado com o seu corpo e dos do professor das armas, e veremos quais são maiores.

Por esta maneira e com estes bons termos prosseguia D. Quixote na sua prática, de modo que nenhum dos que o escutavam podia persuadir-se de que na realidade ele estava louco; antes pelo contrário, como a maior parte dos que o ouviam eram cavaleiros, a quem as armas são sempre anexas, o ouviam com grande prazer, e ele continuou dizendo:

— Digo, pois, que os trabalhos dum estudante de letras humanas são estes: o principal é a pobreza, não porque todos sejam pobres, mas para pôr o caso em todo o extremo a que ele pode chegar; e o haver eu dito que o estudante padece pobreza, penso que não podia dizer mais a respeito da sua má sorte, porque quem é pobre coisa nenhuma tem boa. Esta pobreza tem suas divisões, porque umas vezes vem ela acompanhada pela fome, outras pelo frio, outras pela falta de vestuário e, finalmente, outras por tudo isto junto; contudo não digo que seja tanta esta pobreza, que o estudante não coma, embora o faça mais tarde do que se usa, ainda que a comida lhe venha do que sobeja aos ricos; grande miséria por certo é esta, a que vulgarmente se chama viver da sopa alheia, e também encontra em algumas ocasiões alheio braseiro ou chaminé, onde, se não pode aquentar-se tanto quanto deseja, ao menos poderá minorar o frio que o persegue, e por último igualmente não digo que lhe falte absolutamente uma cama com roupa suficiente onde durma coberto. Não quero entrar aqui em outras miudezas, tais como falta de camisas e de sapatos, vestuário velho e usado, e aquele prazer esfomeado que mostra quando a sua boa ventura o leva a ser comparsa em algum jantar abundante e bem cozinhado. Por este caminho que tenho descrito, dificultoso e áspero, tropeçando aqui, caindo ali, levantando-se acolá, e tornando outra vez a cair cá, chegam os letrados ao grau que desejam: este grau tem levantado a muitos, os quais, havendo passado através de Sirtes, Cila e Caríbdis, como que, voando bafejados pelo hálito favorável da sua boa fortuna, chegaram a mandar e governar o mundo sentados na sua cadeira curul, trocada já sua antiga fome em grande fartura, seu frio em ótimo calor, seus vestidos velhos e rapados em vistosas galas, o seu dormir sobre uma esteira em se deitarem agora e descansarem em leitos adornados com holandas e damascos: prêmio é sem dúvida este justamente merecido pela sua virtude; porém, comparando-se os trabalhos com os do militar guerreiro, ficam longe destes a perder de vista como agora vou mostrar.