Duas estrelas

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Duas estrelas
por João Correia Manuel Aboim
Poema agrupado posteriormente e publicado em Lisia poetica, v. 3 (1848).


No céu recamado de luzes sem fim
Tenho uma luzinha, que um anjo me deu:
Librada no espaço, distante de mim,
Ha outra, que é delle, tam triste, como eu.

Nas horas mais tardas das noites d’estio,
Eu vi as luzinhas, ouvi-as fallar;
D’anil entre as aguas do patrio meu rio
Seu fogo mil vezes lhes vi retratar.

De noite, nas fragas lascadas dos mares,
Senti a tormenta na rocha bramir;
Fitei os meus olhos n’um céu de safiras
E a estrella eu vi delle p’ra mim a sorrir.

Seu fogo divino, que assim m’inspirava,
Por vezes brilhante nos céus fulgurou;
Mas nuvem maldita que os ares toldava
P’ra sempre a meus olhos seu fogo occultou.

Vaguei depois disso nos campos sósinho,
Nem mais vi a estrella que anjo me deu;
Sentei-me nas rochas, andei sobre mares
Fugiu-me dos olhos, perdida no céu.

Perdi nesta vida viver inspirado,
Findou-me de vate celeste condão,
O mundo bradou-me com bafo gellado
Na terra que habitas é tudo illusão.