Duas imprensas

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Quando nos cai sob a pena um assunto, que nos fale à alma, muito custa a deixá-lo. Entendemos ontem com a imprensa. Ei-la que volta hoje. Anda-nos obsidiando essa imagem, a propósito da digressão presidencial. É que nenhuma, num passeio do Brasil às regiões do Prata, se ofereceria em relevo mais saliente ao espírito reflexivo de um estadista. Se a atmosfera capitosa da suntuosidade, que lhe vai saturar o cérebro, e revolteá-lo seis dias num torvelino de fasto, surpresa e deslumbramento, se essa semana de embriaguez amavelmente propinada consentisse ao Sr. Campos Sales receber as lições diretas e frias da realidade, uma das coisas, que, aos seus olhos, se contrastariam entre os dois países, de margem a margem, no rio cujas águas vai sulcar, era a situação intelectual dos dois povos caracterizada pela situação material dos seus jornais.

Quem quiser comparar em escorço Buenos Aires com o Rio de Janeiro, estude a existência do periodismo nas duas capitais. Com uma população consideravelmente inferior à da nossa, a metrópole argentina conta (contava, há cinco anos; de presente os algarismos são maiores) 143 periódicos, dos quais 22 diários e 44 semanais. Mas não é o número das folhas: é o seu tamanho, a sua nitidez, o seu esmero técnico, a exuberância da sua colaboração, a opulência dos seus recursos, o luxo do seu material, a atividade da sua circulação, a pujança da sua vitalidade, a independência dos seus meios, a isenção da sua atitude. A clientela ferve-lhes derredor crescente, curiosa, agitada, insaciável, deparando a cada empresa, que assoma, indefinido campo de exploração, largo horizonte de futuro. El País surdiu ontem, e já reúne todos os foros de um jornal europeu, desde a primorosa excelência do seu serviço em todos os ramos até à vasta circunferência da sua procura. O Diario, a Tribuna, a Nación, a Prensa, esta sobre todos rainha na prosperidade, no prestígio, na magnificência, na freguesia, dão à publicidade, naquela terra, a inteireza, o valor, a soberania de uma verdadeira força na sociedade, de um verdadeiro poder no Estado. Povo e imprensa, ali, são dois elementos, que mutuamente se completam, se entendem, se permeiam, se consultam, se esforçam, se aviventam, e se não separam.

Aqui, numa cidade notavelmente mais populosa, uns quatro nomes antigos, cheios de tradições, entretêm modestamente as aparências da sua dignidade. Um sigilo impenetrável alimenta misteriosamente a fábula das grandes circulações, a mais ampla das quais envergonharia o menos autorizado jornal europeu, ou americano. Certa quantidade permanente, quase invariável, de leitores flutua de umas folhas para outras, consoante a ocasião, o acaso, a ordem-do-dia, aumentando agora a clientela de uns, logo a de outros, sem cessar de ser a mesma, apenas diversamente repartida. Um escândalo, uma crise, um fogacho popular engrossam hoje para esta, amanhã para aquela banda a maré, cujo volume de águas banzeiras, levemente arrugadas ou deslocadas às vezes por um sopro superficial, dorme ordinariamente em calmaria entre as mesmas bordas na constância do seu torpor. Ainda quando, por acaso, o pensamento, comunicado aos prelos sob a violência de uma inspiração superior, eletriza a palavra, fulminando-a abrasada nesse estado de raio, em que Chateaubriand punha a definição da imprensa, debalde açoitam os flancos do mar morto os ribombos e as centelhas do céu.

O número dos que lêem não aumenta. Poderá dilatar-se o dos que anunciam e difamam; e daí vive principalmente a nossa publicidade: do reclamo e do pasquim. Ainda assim, a arte do cartaz, do chamariz comercial ocupa o segundo lugar. Do que se pascenta sobretudo, entre nós, a grande imprensa, é das misérias do anonimato nas publicações solicitadas. O Sr. Campos Sales não encontrou essa praga nos países ultramarinos. Também não há de achá-la em Montevidéu e Buenos Aires.

O anonimato dos apedidos, esse ignóbil vezo de converter o jornalismo em lavanderia geral de roupa suja, é instituição privativamente brasileira. A intuição dos fundadores da República, admiravelmente perspicaz, anteviu os imensos benefícios morais da propagação da mazela, e, para a desenvolver, fez o mesmo que a outras coisas dignas de animação legal: proibiu-o na Constituição. Não podia haver receita mais feliz. Depois que o pacto republicano anatematizou dos nossos códigos a morte, conhecemos os degoladoiros do Rio Grande, os fuziladoiros do Rio de Janeiro, os matadoiros do Paraná, os queimadoiros de Canudos. Depois que a Constituição Federal excomungou da imprensa o anonimato, o anonimato fez da imprensa a sua ceva. Se essa Constituição banisse a república, é possível que começássemos a ter o regímen republicano.

Todos os nossos homens de governo hoje sabem às mil maravilhas o jeito de explorar esse tesoiro. Quando a administração tem grave estratagema diversório; quando se defronta com um antagonista formidável pela sua reputação, e, para o anular, há mister de enxovalhá-lo; quando a increpam veridicamente de um atentado, e, não podendo exculpar-se, tem interesse em desonrar o acusador; quando, em suma, se trata de liquidar improbamente um nome respeitável, e a empreitada é vil em demasia, para obter os serviços ostensivos da redação de um jornal condescendente, aluga-se um instrumento qualquer, useiro nessas execuções, encomenda-se-lhe a tarefa, e a obra, de fancaria, ou de arte, conforme o oficial, se traz a público na seção livre da folha ortodoxa à custa do Tesoiro, por qualquer das inúmeras verbas do orçamento suscetíveis da sangria clandestina. Dali começa então a fazer o giro dos balcões bem-vistos no Catete, para que a cada amigo toque a sua fatia no prato. Cada uma dessas patifarias, pois, adubadas com todos os ingredientes da cozinha abjeta, passa imediatamente por quatro ou seis edições sucessivas, todas elas custeadas com o suor dos contribuintes, entre os quais o difamado tem a sensação expia­tória de contar a sua pessoa.

Não se imagina a legião de almas avilanadas na servilidade, ou no fanatismo, que a lascívia desse prazer despeitora oferecidas à escolha do proxeneta oficial: juristas, magistrados, filósofos, literatos, qual a qual mais barato, mais rasteiro, mais incondicionado. Não importam as úlceras do rosto no preposto a essas comissões. A máscara os iguala a todos. Pode encobrir um imbecil, um assassino, um alcoólico, um doido, um devasso, um prevaricador, um canalha assinalado. Embora: o serviçal não tem nome; chama-se pelo apelido, que o calão da classe lhe insinuou; e, como a sua retórica ignóbil acaba sem assinatura, não corre o risco de ser filado pela gola, e enxovalhado na cara com a fé-de-ofício da sua carreira, ou a crônica da sua vida.

Tais os críticos e os moralistas, por quem os ministros costumam fazer tisnar, com o dinheiro do Estado, a honra dos seus adversários. Nem ao menos as dilapidações desta espécie têm a atenuante de ser eficazes. Toda essa literatura tresanda ao azinhavre da origem, e o público a vai apostilando com as firmas transparentes dos autores. De modo que, afinal, apenas serve para adoçar, pela manhã, o café do Governo com uma sacarina extraída a substâncias bem diversas do alcatrão.

Disso não topará rastro o ilustre viajante na política dos nossos vizinhos. Ora, como o vemos aforismado em afinar, a outros respeitos, com o exemplo argentino, sempre quereríamos ver se de alguma coisa nos serviria, por este lado, a viagem presidencial.

Como e por quê, amanhã lho diremos.