Encarnação (José de Alencar)/XIX

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Encarnação (José de Alencar) por José de Alencar
Capítulo XIX


Cala a tarde.

Amália e Hermano sentados no jardim, contemplavam em silêncio as esplêndidas decorações, que os arrebóis desfraldavam no horizonte sobre as encostas da montanha.

A moça afinal curvou a fronte e cerrando a meio os cílios para concentrar-se disse ao marido:

— Ainda havia neste mundo uma felicidade para mim, Hermano: e essa não lhe custaria o menor sacrifício.

O olhar do mando interrogou-a: ela respondeu com a voz súplice;.

— Não me pode dar o seu amor; bem o sei, e não o exijo; mas a sua amizade, sua confiança, por que motivo a recusa a quem não tem outro pensamento senão a sua felicidade? Não lhe mereço nem esta prova de estima?.

Hermano quis interrompê-la: ela não consentiu:

— Não poderíamos viver como dois irmãos que se querem, e se amparam mutuamente nas suas tristezas e infortúnios? Por que há de ter segredos para mim que nada lhe oculto do que se passa em minha alma? Cuida que tenho ciúmes de Julieta? Engana-se.

Vendo pintar-se a dúvida no semblante do marido, Amália apressou-se em desvanecê-la:

— Quer uma prova? Estive ontem no toucador de Julieta e entretanto, quando voltou da cidade, ainda achou-me nesta casa, onde me conservo. Se eu não o amasse e a ela também, com amor de irmã, sofreria essa preferência, que era uma humilhação cruel para a esposa?.

Desde esse momento, Hermano não teve mais segredos para Amália; e esta, durante as suas longas confidências pôde ler nas recordações do marido como nas páginas de um livro inédito, toda a história do homem a quem se unira.

Hermano contou-lhe uma e muitas vezes as menores circunstâncias de sua vida com Julieta. As impressões nessa alma opulenta eram profundas. A efígie da mulher amada ficara ali fundida como uma estátua ideal.

Amália passava as horas nos aposentos, que tinham pertencido, e ainda pertenciam, à sua rival Ai coligia todos os traços, todos os vestígios, deixados pela pessoa que os habitara e com esses indícios esforçava-se em recompor a mulher que ela não conhecera, e que mal vira de longe com olhos de criança.

Ao cabo de uma semana, sabia os gostos de Julieta, os seus perfumes prediletos, os moldes de que ela mais gostava, as cores de seu agrado, as músicas favoritas; todas essas simpatias que formam a originalidade de um caráter.

Amália tinha o mesmo corpo de Julieta com alguma diferença das formas que nela eram mais ricas e harmoniosas. Vencendo a repugnância que a principio sentira, a moca chegou a trajar-se completamente com as roupas e enfeites da morta.

Pensava acaso que esses objetos lhe transmitiriam pelo contato alguma coisa da pessoa a quem haviam servido? Ou buscava apenas criar uma semelhança que favorecesse a ilusão de Hermano?.

Ela própria não sabia que tenção era a sua. Não calculava: cedia à influência de um desejo intenso. Queria ser a mulher que Hermano amava, como Julieta fora antes dela.

Nos livros que achou na pequena estante do toucador, também Amália colheu muitas idéias, de que se apropriou para imitar o misticismo do original que ela se propunha copiar.

Um dia disse a Hermano:

— Eu acredito que Julieta me quer bem. Quando estou aqui, no seu quarto, tenho um contentamento, como se estivesse em sua companhia. As vezes parece que ela me abraça.

Outro dia, no meio de uns idealismos romanescos, teve esta inspiração:

— O amor uniu a alma de Julieta à sua, Hermano. Por que não poderá Unir da mesma forma a alma dela à minha, que também o ama?.

A transformação de Amália já era tão perfeita, que enganava Hermano e até o Abreu, sobretudo quando ela disfarçava com uma renda preta os seus lindos cabelos louros, ou mesmo tingia com algum cosmético.

O velho criado habituou-se a ver nela a imagem de Julieta, e desde então envolveu-a na afeição que votara à sua filha de criação. Estimou a, como se estima um retrato de pessoa a quem se quer.

Quanto a Hermano, tinha momentos de completa ilusão, em que supunha se transportado aos tempos de seu primeiro casamento. Apagava-se então de sua memória todo o tempo que vivera depois da morte de Julieta e ele era feliz como se ainda tivesse a seu lado a mulher a quem amava.

De repente, porém, uma circunstância qualquer, um incidente mínimo, que Amália não percebia, talvez um volver dos olhos, uma inflexão de gesto, o contato das mãos, rompia o encanto; e ele recuava como o homem que vê abrir-se por diante um abismo.

Fugia então; e ia abrigar-se daquela sedução no quarto de Julieta perto da estátua, que para ele representava o despojo material da alma de sua primeira mulher.

Amália recomeçava então com a mesma energia e perseverança aquela indução paciente, que terminava em decepção. Crescia-lhe a esperança, porque a sua fascinação aumentava a cada instante ela não podia duvidar. Hermano resistia ainda mas chegaria o momento, em que se deixaria vencer, e então ele lhe pertenceria e seriam felizes.

Se adivinhasse o efeito que essa luta produzia no animo do marido, e o extremo a que o arrastava, ela decerto a abandonaria, cheia de horror.

Com efeito Hermano, quando libertava-se da fascinação que Amália exercia sobre ele, enchia-se de pavor pelo perigo que o ameaçara. Estivera a ponto de cometer esse crime que era para ele o mais indigno por ser o roubo da honra e da vida.

Via-se já réu de um adultério infame!

Ter enganado a moça a quem se unira em segundas núpcias sacrificando a sua felicidade, que ele não podia dar-lhe, era já uma vilania de que se envergonhava, e da qual decidira resgatar-se com a morte. Que nome teria essa indignidade, se a agravasse com a mácula da virgem pura e ingênua que se confiava de sua lealdade?.

Era preciso, ele o senha, pôr um termo a esta situação, e salvar-se de um perjúrio atroz que o condenaria à eterna separação de Julieta Mas tinha de esperar não podia dispor de sua vida antes de oito dias.

Quanto lhe custou a passar esta ultima semana!

Na ocasião em que cegamente apaixonado por Amália, decidiu pedi-la em casamento, Hermano refletiu sobre o destino que devia dar às relíquias da primeira mulher Não podia guardá-las como tinha feito até ali, porque seria isto uma infidelidade à esposa atual: não se animava, porém, a abandonar e como que expelir de si essas imagens e objetos, tão impregnados de sua vida, que faziam parte dela. Seria mutilar-se moralmente.

Tomou uma resolução que pudesse conciliar tais escrúpulos Reuniu naqueles dois aposentos de Julieta tudo que lhe pertencera e fechou-os como se fossem a sepultura onde jazia a alma da primeira mulher. Quanto à outra sepultura, onde jaziam as cinzas, dessa não se lembrava, nem a conhecia: era um pouco de pó.

Depois, quando na própria noite do casamento o indefinível terror de um adultério fantástico apoderou-se de seu espírito enfermo, ele refugiou-se nos aposentos de Julieta, encerrou-se ali naquele túmulo, onde encontrava o sossego e a ressurreição do passado.

Agora, porém, já não tinha esse refúgio já não podia transpor os umbrais da eternidade para encontrar-se com Julieta e amá-la. Até ali, nesse mesmo santuário, onde guardara todas as relíquias da morta, ate ali o perseguia a formosa imagem de Amália.

Sentia a tépida fragrância que a moça deixara na sua passagem, e que derramava um sopro de vida nesses objetos frios e abandonados. O toque de outras mãos animara aquela solidão e as mesmas estátuas de cera pareciam influir-se de outra alma mais ardente, mais apaixonada do que a de Julieta.

Assim, quando Hermano corria a abrigar-se ai da sedução de uma Amália parecida com Julieta, ele já não encontrava a mulher de outros tempos, mas sim uma nova Julieta semelhante a Amália e mais formosa que a primeira.

Quantas vezes não voltou buscando essa visão encantadora! Mas já não a via; Amália tinha-se feito Julieta aquela esplêndida beleza de outrora se eclipsara.

Se em um desses momentos, a formosa criatura se mostrasse qual era, em seu fulgor, Hermano teria sucumbido: e talvez aquela insana obsessão que o afligia se dissipasse para sempre.

Mas a coincidência não se deu; e afinal chegou a época em que Hermano julgou-se livre de dispor de sua vida. Só faltava a ocasião esta não tardou.

Havia um baile no dia seguinte. Amália a principio repugnou ir, por fim cedeu às instâncias do marido. Seu traje era copiado de um que achara no guarda-roupa de Julieta, um vestido de tule com sombra e laivos escarlates.

Estava encantadora, mas senha-se inquieta e nervosa. Durante a dança não tirava os olhos de Hermano, e a cada instante chamava-o para perto de si.

De repente perdeu-o de vista. Acabada a quadrilha, ansiosa perguntou por ele a D. Felícia.

— Ah!... Esqueceu a carteira e um amigo convidou-o a jogar. Foi a casa não tarda Pediu-me que te prevenisse.

D. Felícia voltando à conversa que interrompera para dizer rapidamente estas palavras, não viu a palidez da filha.

Amália dominou o tenor que a invadira, dirigiu-se ao toucador, envolveu-se na capa e desceu as escadas apressadamente. No patamar encontrou o lacaio e mandou chegar o carro.

— Para casa! Depressa!... disse abrando-se sobre as almofadas do cupê.

Depois, enquanto os cavalos trotavam pela calçada da Glória, ela travando as mãos convulsivamente, murmurava:

— Chegarei a tempo, meu Deus?.