Encher tempo/II

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Encher tempo por Machado de Assis
Capítulo II

A leitura de Gil Brás não durou muito tempo, se é que durou algum, porque até hoje não está averiguado que o jovem Pedro tivesse naquela tarde o espírito na mesma direção dos olhos. Os olhos corriam pelo papel e a mão voltava tão regularmente à página que era difícil dizer que eles não liam. Há todavia razões para crer que o espírito vagueava distante do livro. Pois é pena que fizesse dessas escapulas, deixando um corpo gentil, como era o dele, forte, sadio, e gracioso sem afetação; sobretudo, não se compreende que o espírito de Pedro não quisesse acompanhar no papel aquele par de olhos rasgados em forma de amêndoa, escuros e luminosos; uns olhos que tinham feito pecar a mais de uma moça do bairro, que o Padre Sá namorava para o céu.

A noite veio clara e estrelada; e não tardou que a lua batesse de chapa nos telhados e calçadas úmidas da chuva da tarde. D. Emiliana foi fazer meia na sala de costura, à luz de duas velas de espermacete, enquanto Luís recordava a lição, as meninas cosiam, e Pedro lia em voz alta uma novela que a mãe interrompia com reflexões substanciais de moral e disciplina.

No meio deste quadro caseiro, bateram à porta, e um escravo veio dizer que estava ali o Padre Sá! Leitura e costura foram interrompidas; D. Emiliana tirou os óculos de prata e levantou-se à pressa tanto quanto permitia o anafado das formas, e saiu a receber a visita. Pedro acompanhou-a com igual solicitude.

— Seja muito bem aparecido, reverendo! disse D. Emiliana, beijando a mão ao padre e convidando-o a entrar na sala. Há mais de dois meses que não nos dá o prazer e a honra de vir abençoar as suas devotas.

— Deus as há de ter abençoado como merecem, respondeu o Padre Sá.

Já a este tempo tinha o escravo acendido as arandelas da sala de visitas, onde o padre entrou logo depois, encostando a bengala a um canto e pondo o chapéu sobre uma cadeira. As meninas vieram beijar a mão ao sacerdote; D. Emiliana conduziu-o para o sofá; toda a família o rodeou.

Passei por aqui, disse o sacerdote, e lembrou-me vir saber se o nosso Pedro apanhou a grande chuva desta tarde.

— Toda, padre-mestre, respondeu o moço.

— Logo vi; teimou em vir apesar de lhe dizer que não tinha tempo de chegar a casa...

— Valeu-me o seu capote.

— Não havia de valer muito.

— Chegou, deveras, todo molhado, observou D. Emiliana. E uma vez que o senhor padre te pedia que ficasses, devias ter ficado.

— A resposta que ele me deu é que a senhora estaria assustada, supondo que algum desastre... Aprovei-o, quando lhe ouvi esta razão.

D. Emiliana olhou para o filho com ternura. Aquele olhar vingara-o da repreensão com que fora recebido. A conversa versou sobre assuntos gerais, mas todos de devoção e caridade. Tratou da próxima festa do Natal; veio a pêlo mostrar ao Padre Sá a toalha que D. Emiliana pretendia oferecer para o altar de Nossa Senhora das Dores, rica toalha de linho com entremeio de crivo e babadinhos de renda, não bruxelas nem malines, mas obra toda das mãos da prendada devota. Devota, era-o ela no verdadeiro e puro sentido da palavra, e nunca se dera mal com isso.

Esgotados aqueles assuntos, o Padre Sá disse a D. Emiliana que tinha de lhe falar sobre coisas de igual natureza, mas que pediam menos publicidade. A dona da casa fez retirar os filhos.

— Deixe ficar o Pedro, disse baixinho o padre; ele não é demais.

Ficaram os três. Dona Emiliana, cuja curiosidade estava aguçada, arregalou os olhos e preparou os ouvidos para saber que assunto era aquele que exigia conferência particular. Algum pecado seria, alguma culpa, embora venial, do seu querido Pedro? O Padre Sá não lhe deu muito tempo às reflexões, porque, mal a porta da sala se fechou, concluiu uma pitada começada e falou nestes termos:

— D. Emiliana, conheço-a há alguns anos, e tenho-a sempre visto pontual no serviço de Deus, e zelosa no cumprimento dos seus deveres de cristã e católica.

— Espero em Deus que me não há de desamparar, disse D. Emiliana, curvando a cabeça.

— Não há de quê, ele nunca desampara os bons...

— Mas que será, reverendíssimo? Dar-se-á caso que o meu Pedro...

Dizendo isto, D. Emiliana voltou a cabeça para o filho, que lhe ficava à esquerda e tinha os olhos no chão.

— O seu Pedro, interrompeu o Padre Sá, tem coração assaz largo para amar a duas mães; a senhora e a Igreja. A Igreja não obriga ninguém, mas aceita, chama e recebe os homens de boa vontade. Ora, eu tenho visto que há em seu filho tal ou qual tendência para a vida eclesiástica; estuda latim comigo, dou-lhe lições de teologia, que ele ouve com grande aproveitamento; pode seguir curso regular e estou que há de dar um bom padre. Está nas mãos de Deus e nas dele chegar a bispo.

As palavras do Padre Sá causaram alguma estranheza em D. Emiliana, e a boa senhora não respondeu imediatamente. A educação que dera ao filho fora toda religiosa e pia; contudo, estava longe de supor-lhe tão claros sinais de vocação sacerdotal — isto quanto às antecedências. Quanto às conseqüências, não as pôde calcular logo; mas, além de recear que o filho não desse um bom sacerdote, como ela desejava que fosse, acrescia que tinha assentadas algumas idéias totalmente outras. Um seu irmão, comerciante de grosso trato, prometera-lhe admiti-lo na casa e fazê-lo sócio dentro de alguns anos. D. Emiliana era filha de negociante e viúva de negociante; tinha ardente desejo de continuar a dinastia comercial.

Ao cabo de alguns minutos de reflexão, respondeu ao Padre Sá que teria imenso gosto em que o filho fosse consagrado ao serviço da Igreja, mas que, entretanto, era obrigada a consultar seu irmão, com quem planeara coisa diferente daquela.

— Conheço seu irmão, disse o padre, vi-o algumas vezes; estou persuadido de que dará resposta razoável.

— Nem lhe quero negar, continuou D. Emiliana, que não imaginava da parte de Pedro esse desejo de fazer-se padre...

— Pergunte-lho.

Pedro não esperou a pergunta; confessou que o Padre Sá lhe dava lições de teologia e que ele gostava muito de as ouvir.

— Mas não quereria dizer a sua missa? perguntou o padre sorrindo benevolamente.

— Queria, articulou Pedro.

Aceitou-se que a resposta seria dada alguns dias depois; ficando igualmente aprovado um aditivo de Pedro para que, independente da resposta, continuassem as lições teológicas do Padre Sá. D. Emiliana aceitou o aditivo com este popular axioma:

— O saber não ocupa lugar.

O Padre Sá extraiu da caixa uma nova pitada e deu as boas noites à família, e mais as bênçãos do costume, sendo acompanhado até à porta pelas senhoras, e até à Gamboa, onde morava, pelo filho de D. Emiliana.

— Não quero violência, dizia em caminho o padre; examine-se ainda uma vez e diga-me depois se é resolução sua tomar ordens. O que eu quero é que me saia padre moral, instruído e religioso, entendeu? Parece-me que a sua vocação é essa, e cada um de nós deve seguir a vocação que Deus lhe dá.

Pedro deixou o Padre Sá à porta da casa e voltou-se para a Rua do Livramento. Da praia, via a lua bater no mar, e ergueu os olhos para o céu coalhado de estrelas. A fronte ficou pensativa; e o moço parou durante alguns instantes. O que ele pensou, naquela ocasião, estando à beira do seu destino, não sei. Se a lua soube, não o segredou a pessoa nenhuma.