Era um anjo do céo

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(Era um anjo do céu)
por Álvares de Azevedo
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862). Parte de correspondência trocada entre o autor e Luís Antônio da Silva Nunes.

I
Era um anjo do céo — de aereas nuvens
N’alvo luar, em sonho vaporoso
Balouçado — suave na tristeza,
Em lago sem rumor, ermo de brizas.

E era a solta madeixa destransada
Sobre as nuvens do collo como um raio
Do sol ao madrugar espreguiçado
De amanhecer por entre as brancas nevoas,
Com que a noite cobriu da terra a somno
— Qual das vagas á flôr esteira d’oiro
Que a lua ao acordar languida estende
— Quaes flòres n’apotheose de Santa
Por mãos de Cherubim nos céos juncadas,
      Loiros como o Oriente.

£ os olhos côr de eco, d’anil tão puro,
N’extase melancolico enlevados.
Os céos mirando em seu scismar virgineo,
Erão flor azulada a quem a aurora
Tremelêa uma perola de roscio.

E amei o Seraphim descido á noite
D’ethereas regiões á minha vida

Qual um raio de luz adamantina,
Multicôr, irisado d’uma auréola,
Desprendido do céo sobre minh’alma.
Qual em quêda palúde á noite, ás vezes,
Uma estrella sósinha vem mirar-se,
Erma nos céos desertos, tal nas trevas
Do viver me era o anjo; — e era uma rosa
Recendente de odores d’outra vida
Melodiosa de canticos d’amores
Que a brisa lhe soprara la no Eden
— Despegada da c’roa d’algum anjo
No remontar aos céos — ainda pura
Dos bafejos das auras deste mundo
— Desfolhada ao cahir em minha fronte —
Que eu amei com amor de todo o peito!

E que importa não saiba a linda virgem
Amores que palpitão-me no seio?
Que importa desconheça ella esse culto
E santo e puro — mystico e suave
A exhalar-me n’alma odor celeste?

Não pudéra ella amar-me — não quizera-o;
Essa flôr sorriria ao ver um verme
A rojar-se sob ella, que adorasse-a;
Esse anjo escarnecêra de piedade
O meu insano amor — indigno eu delle!

Oh! não! emmurchecida, aos pés calcada,
Morra antes no meu peito, qual vivêra
Silente e muda, a rosa d’esperanças
Em sonhos de porvir adormecida
Em tantas noites — a cantar d’amores!

II

E quando murmurar-me ardente em sêde
Meu corpo a referver — n’algum prostibulo,
N’algum indigno amor em gozo indigno
Eu irei esquecer-me — e nos vendidos
Beijos da meretriz — no leito infame
Polluto dos prazeres impudicos
Cansado dormirei, debilitado
Da lubrica vigilia — e assim ao menos
Talvez deslumbrarei essa desdita
De amar sem ser amado que eu padeço!

Dormir co’uma mulber sem ter un gozo
Afóra esse tremer de torpe anhelo
De cão — d’abjecto ser — materia bruta
Sem alma — sem pensar; só impureza!

E depois enjoado revolver-se
No thalamo d’insomnia — desprezando
A mulher mercenaria que por oiro,
Por oiro tão sómente nos abraça;
Que quanto mais se dá mais finge amar-nos;
Cujos labios impuros se ressentem
Inda dos beijos d’hontem — e os prazeres
Os mesmos venderá, os mesmos labios
Prostituidos, publicos, sem brio
Amanhã ou depois a qualquer outro;
Que então palpitará de amor mentido
Com os seios arfando, os olhos langues.
Qual hoje — estremecendo sob o enlace

D’alguem quem quer que seja que um punhado
De moeda ou papel lhe atire ao leito!

E o que hei de eu mais fazer — enfastiado
Dessas flôres sem cheiro, desbotadas,
Dos festões arrancadas, repisadas
No trepidar de orgia desgrenhada
Em vortice a dansar — soltas as vestes —
Ebria — endoudecida — ás luzes pallidas
Das lampadas na festa amanhecidas?

Amor! rosa do Céo! — na terra um sonho...
Prazer! uma illusão — só um desejo
Insaciado, tantalico — e sempre
Tão illudido aqui e tao logrado!

É maçã rubescente — linda frucia
A desprender-se d’arvore madura;
Quando os dentes a mordem amargosa.
Sómente podridão e seccas cinzas —
Repellem-na os labios enjoados!

Mundo de sordidez! cynica essencia!
Infamia e mais infamia! apenas fezes!
Prosaica vida, eu te maldigo, e escarro
Em teus festins brilhantes... mentirosos!

M. A. A. A.



O. D. C.
Ao seu amigo L. A. S. N.