Ernestina

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Ernestina
por Ernesto Pires
Poema publicado em Scintillações e sombras.


A MINHA FILHA


Nul n′est heureux et nul n'est triomphant.

Victor Hugo.


Ernestina! bem vês que me sujeito á sorte;
Vive, como teu pae, do bulicio affastada;
Feliz bem sei que não. E′ um viver na morte,
Mas tem paciencia, filha e soffre resignada.

Ninguém é feliz, crê. Todos soffrem no mundo,
Para todos a vida é uma obra incompleta;
Em cada hora que vae descarrega-nos fundo
Um incuravel golpe a fera mão secreta.

<poem>

Do berço á tumba dista um passo de creança; A vida é uma flôr que a viração desfolha, Um sonho passageiro, um sonho vão d′esp′rança, Que nos sorri e foge — e que nunca mais se ólha.

A vida é turbilhão, onde paixões enormes Combatem com fervor batalhas monstruosas; A perfidia villã compõe traições disformes, A cobardia esconde as garras cavilosas.

A adulação bajula os grandes potentados, Despreza a viuvez, a velhice e a orphandade, Quando ellas vão pedir o pão dos desgraçados, Estendendo da sombra a mão á caridade.

Já vês que o mundo é mau. Se por acaso leres, Nos dias d′infortunio, este meu pobre canto, Lembra-te que teu pae, antes de tu nasceres, Teu berço humedeceu com abundante pranto.


13 de Abril de 1878.