Ex-Homem/II

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Ex-Homem
por José de Alencar


Teve a moça forte comoção, ao contemplar o desconhecido.

Aquele homem, estampado no painel da solidão que se desdobrava entre as molduras da floresta, em meio do silêncio augusto do ermo, aos esplendores do sol americano, apareceu-lhe como o rei da beleza humana.

Supunha que a realidade não pudesse jamais apresentar aquela harmoniosa correção das formas; que só à imaginação era dado concebê-la e à arte reproduzi-la, como uma idealização da natureza.

Por muito tempo ficou no enlevo de sua ardente contemplação.

Desenhou-se-lhe na mente a imagem do Cristo humanando sua majestade celeste; o vulto de Adão, o primeiro criado, quando o Eterno o formara d’argila e o animara com o sopro onipotente; Moisés, nas sarças de fogo do monte Sinai, recebendo do Senhor as tábuas da lei imortal; e uma após outras, todas as grandes personificações que ela conhecia, dessa besta divina chamada Homem.

É certo que faltava ao desconhecido o ornato que deu o Criador ao sexo forte por símbolo do império, como deu ao leão a juba. Tinha o rosto imberbe; apenas um louro buço nascente começava a pubescer-lhe as faces; o que não se podia atribuir só à flor da juventude, mas principalmente à tardia projeção da hombridade nessa opulenta organização.

Alçara o mancebo o talhe, e rasgando um gesto solene, desprendeu no espaço a voz que dominou os rumores da floresta.

— A caridade!... Sabeis o que seja essa virtude sublime? É o bálsamo suave de que Deus fez a alma de seus escolhidos, para que o vertam no seio dos que sofrem. É o sorriso inefável do Criador, que nos ficou no íntimo do coração, e se exala em eflúvios de celeste misericórdia. É o amor puríssimo do Cristo, que sobe a ele como as colunas do incenso, e caem de novo sobre a terra em orvalhos da graça divina; porque nunca adoramos melhor ao Onipotente, do que admirando e guardando sua melhor obra, que somos nós mesmos na pessoa de nossos irmãos! Estas palavras o desconhecido as proferia com tão ungida expressão, que a moça palpitava sob os acentos da voz inspirada, como as cordas da harpa sob o toque dos dedos, que imprimem-lhes a vibração.

Tinha a palavra, desse homem, além da pujança do órgão que sopita os rumores e se despenha como uma torrente, a outra força, muito mais poderosa, da ideia, que irrompe como a lava de um vulcão, e coalha-se n’alma daqueles que ouvem; se é isto ouvir, que melhor se diria, infundir-se na exuberância de um espírito superior.

Por algum tempo deixou o desconhecido precipitar-se a onda de eloquência, que lhe sublevava o pensamento; depois do que se tornou a recostar-se no tronco, e tomando sua primeira posição continuou a leitura interrompida.

Ainda não se dissipara de todo a surpresa e comoção da moça, que não tirava os olhos do desconhecido, e permanecia sob o encanto irresistível dessa majestosa aparição.

— Vamos, mana! disse o menino.

— Espera!

Só quando o desconhecido, chegada a hora de recolher-se, tomou o caminho da casinha, e desapareceu do lado oposto, entre o arvoredo, pôde a moça arrancar-se àquele sítio.

Tornaram os dois irmãos com a mesma pressa; mas desta vez ia adiante a moça, a qual absorvida em seus pensamentos, não escutava a tagarelice do menino.

A vereda que eles seguiam, saía no pasto da fazenda da Soledade, onde em poucos momentos se acharam.

Daí dirigiram-se à casa a tempo do almoço, que já estava na mesa, à sua espera.

A fazendeira, D. Margarida, começava a inquietar-se com a demora dos dois filhos, e já tinha despachado pajens e mucamas à procura deles.

— Que demora, Gabriela! Disse a boa senhora com a voz descansada.

A moça correu ao encontro da mãe, e abraçando-a carinhosamente para apagar a lembrança da inquietação que havia causado, beijou-lhe os cabelos grisalhos.

— Estava passeando, mamãe! murmurou rapidamente e enrubescendo.

— Aonde, que tardaram tanto? insistiu a fazendeira.

Gabriela perturbou-se. Felizmente acudiu Carlinhos, que percebendo o enleio da irmã, tratou de esconder a sua travessura substituindo-a por outra mais inocente.

— Fui eu, mamãe, que levei a mana para ver um ninho de codornas. Já tem dois ovinhos, tão bonitos! Não tardam tirar. Há de ser um casal. Gabrielinha prometeu criar para mim!

— Cuidado com esses ninhos! Costumam ter cobras; respondeu D. Margarida.

Enquanto a boa senhora dirigia-se à mesa para tomar a cabeceira, Carlinhos a rir, beliscava o braço da irmã que parecia distraída, e fazia-lhe um momo zombeteiro, aplaudindo ele próprio a astúcia com que iludira a solicitude materna.

À hora da sesta, Gabriela recolheu-se à sua alcova; pôde então entregar-se aos pensamentos que a disputavam, agitando sua calma existência.

Fechou os olhos, e reviu a cena que havia produzido em seu espírito tão viva impressão.

Quem era aquele desconhecido que fugia ao mundo, onde sem dúvida o cercava a admiração, para vir esconder-se no ermo, e dissipar os tesouros de sua inteligência, atirando-os aos ecos da solidão?

Seu mano Carlinhos, na véspera, batendo o mato como costumava, descobrira casualmente aquele homem em seu retiro, e lhe havia referido o caso, ainda surpreso dos modos estranhos do indivíduo. Teve ela curiosidade de o ver; e àquela hora arrependia-se de não haver resistido ao seu desejo.

Com um impulso inconsciente, ergueu-se a moça de súbito e caminhou para o grande espelho, que ornava o aposento. Seus olhos fitaram-se com avidez o susto na imagem que a face polida do cristal refletia.

Agitada pela comoção, ungida pela alma que filtrava-lhe dos poros como as reverberações do céu tropical, tinha Gabriela a beleza deslumbrante que arrasta o homem à idolatria da forma.

E contudo a moça curvando a fronte esmorecida, comprimiu o seio que arfou com um suspiro profundo:

— Sou eu digna de um olhar seu?