Ex-Homem/III

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Ex-Homem
por José de Alencar


Nos dias seguintes Gabriela arrastada por um movimento irresistível, tornou ao retiro onde costumava o desconhecido passar uma parte da manhã.

A desculpa imaginada por Carlinhos para explicar a ausência do primeiro dia, serviu de pretexto à repetição do passeio matutino.

D. Margarida já não se inquietava com a demora dos filhos. Se eles não apareciam à hora do almoço, esperava-os tranquilamente, dizendo à sua caseira:

— Cobre os pratos enquanto não chegam os meninos, Tomásia. Eles foram ver o ninho de codornas.

Todas as noites Gabriela fazia tenção de não voltar à Cachoeira.

Quando rezava sua oração, ao deitar, pedia a Nossa Senhora da Conceição lhe desse força para quebrar o encanto que a prendia àquele sítio, e ao desconhecido.

Ao romper do dia já estava pronta, impaciente por sair, e apressando o Carlinhos, que se demorava. A princípio fora o menino que a instigou a voltar, agora era ela quem a rogos e carícias o induzia a acompanhá-la.

O travesso deixava a irmã no recanto do penhasco, e ganhava o mato nas costumadas correrias.

Ali permanecia Gabriela, cerca de uma hora, enlevada na contemplação do mancebo, admirando essa beleza tão singela em sua opulência; repassando-se da nobreza que derramava-se em torno desse homem como a emanação de sua natureza superior.

O trajo do desconhecido, se pelo corte moderno deprimia de algum modo a soberba estátua, que estava requerendo a clâmide grega ou a toga romana, não lhe tolhia os movimentos, nem constrangia a livre expansão do robusto organismo.

As roupas eram escuras e folgadas. O colarinho da camisa muito frouxo e preso apenas pelo nó de estreita gravata solta, desnudava-lhe a parte superior do busto, que recordava o toro de uma coluna de jaspe.

Diariamente ao romper da manhã saía o desconhecido da Cachoeira, onde habitava, e discorrendo pelo campo vinha ter àquele sítio. Aí entretinha-se na leitura de alguma obra, em lucubrações do estudo, ou na contemplação da natureza.

Quando o livro lhe sugeria ao espírito cópia de reflexões, ou no desenvolvimento da ideia do autor ou no sentido de sua refutação, concentrava-se um instante para bem possuir-se do assunto e falava.

O discurso brotava-lhe dos lábios com a afluência de um rio caudal, que às vezes espraia-se pela formosa campina bordada de flores, e outras arroja-se contra o penhasco e despenha-se em catadupas.

Nessas ocasiões, Gabriela, exultava de júbilo, ou debulhava-se em lágrimas, como se assistisse às cenas que a voz do desconhecido evocara das profundezas de sua consciência; quando não as desdobrava a seus olhos como um painel estampado com as galas de um estilo lapidário.

Outras vezes não era do luxo, mas da própria natureza, que o mancebo tirava o tema de seus raptos eloquentes.

Absorvia-se na contemplação do arrebol da manhã que dourava um nimbo alvo e resplandecente, de um inseto a saltar pela relva, ou de um broto, que rompia o rijo córtice da árvore; e de cada um desses arroubos de sua inteligência, surgiam os hinos sublimes que entoava às maravilhas da criação.

O tempo que ali passava atrás da penha, e oculta pela folhagem, Gabriela, se não a subjugassem o gesto e a palavra do desconhecido, evocava a si com toda a veemência de sua admiração a pessoa desse mancebo, que abria sua alma para encerrá-lo dentro como em um templo, de que ele era o deus.

Prodigioso êxtase do espírito, exaltado por sua paixão ardente!

O âmbito do sítio agreste era para a donzela um regaço de sua alma. No mago enlevo afigurava-se que tinha dentro de si, em um mundo interior, aquele homem-rei, do qual a terra não era digna. Ela o envolvia, como a imensidade envolve o orbe que abrange em seu seio.

Porventura essa poderosa instituição exerceria no desconhecido alguma influência misteriosa?

O certo é que às vezes no meio de suas lucubrações, ele despertava como se alguma coisa lhe estivesse reclamando a atenção; e volvia um olhar que parecia derramar em torno vaga interrogação.

Outras vezes levantava a cabeça de repente, e a sua pupila serena e luminosa fitava-se na fenda do rochedo, com tal insistência e fixidez que a moça recuava espavorida.

Parecia que esse olhar perscrutador atravessava o granito para vir pousar-lhe no semblante, e surpreso de a encontrar ali à espreita tomava uma expressão fria e severa.

Sobressaltada com esse pensamento, Gabriela aconchegava-se trêmula ao mais obscuro recanto da penha, até que dissipava-se o susto. Então reconhecia, que oculta como se achava pela espessura da selva, era impossível descobri-la ainda mesmo de perto, quanto mais de longe, e através de uma fenda estreita da rocha.

Uma manhã, quando o desconhecido estava entretido a ler, sentado no tronco do jataí, ouviu-se um mugido formidável.

Um touro bravo, escapo de algum curral da vizinhança, e acossado pelos cães, rompeu da mata e surgiu à borda do campo.

Quando o animal enfurecido, com os olhos injetados de sangue, arrojava-se de novo aos corcovos para atravessar o gramado, avistou em frente o vulto de um homem.

O desconhecido erguera a fronte; com uma calma que tocava à indiferença, contemplou o touro, que estacara no meio do campo, e escarvava o chão soltando urros medonhos.

Chegaram os cães que vinham na batida e após eles dois campeiros armados de varas. O touro arremeteu contra os seus perseguidores, e aproveitando-se da corrida que lhes dera meteu-se outra vez pelo mato.

O desconhecido inclinou de novo a cabeça e continuou a leitura interrompido. O turbilhão que por ali passara não havia nem de leve alterado a magnânima serenidade de sua fronte.

Esta cena deixou no espírito de Gabriela uma impressão indelével.

A quietude da força em repouso tinha um cunho de grandeza que ela não conhecia. Se o desconhecido lutasse com o touro e o abatesse, essa proeza certamente a encheria de admiração.

Mas, herói embora, o mancebo prostrando o animal bravio, não passaria de um homem; praticava ação já muitas vezes repetidas; enquanto que esse desprezo do perigo e essa calma sobranceira o revestiam de majestade divina.

Outra vez, o desconhecido em um de seus raptos eloquentes descrevia a magnitude da solidão, quando saiu da mata um pardo velho, que se arrastava carregando um grosso tronco de grumari. Gabriela conhecia aquele velho; era o Inácio, que morava ainda em terras da fazenda, a um quarto de légua da Cachoeira.

O peso era excessivo para as forças do velho, que afinal, faltando-lhe o apoio da árvore a que se arrimava, tropeçou e caiu quase esmagado pelo madeiro.

Aproximou-se o desconhecido para erguer o pardo. Como este tentasse outra vez a empresa, ele o impediu, e sobraçando o grosso tronco, sem esforço, acompanhou o roceiro.

Gabriela, vendo-o ao longe passar entre as árvores, lembrava-se dos heróis da Caledônia, cantados por Ossian, quando empunhavam a lança feita da haste de um pinheiro.