Ex-Homem/IV

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Ex-Homem
por José de Alencar


Gabriela recebera educação esmerada em um dos melhores colégios da Corte.

Dotada de superior inteligência e brilhante imaginação, ornara-se das prendas que realçam as senhoras distintas.

Como devia acontecer, a cultura do espírito e o trato das outras alunas, filhas das primeiras famílias da Corte, criaram na menina hábitos e estímulos de elegância, que transformaram a roceirazinha em uma moça de supremo donaire e gentileza.

Terminada sua educação aos dezenove anos, Gabriela voltou ao seio da família na Soledade. Embora estranhasse a mudança, conformou-se com a necessidade, e não deu a menor demonstração de enfado.

Muitas vezes o retiro e isolamento da fazenda avivaram-lhe a lembrança dos folguedos do colégio, e das galas da sociedade fluminense, que do fundo da sala de estudos ela via passar todas as tardes pela vasta calçada que cinge a formosa Baía de Botafogo.

Nessas ocasiões Gabriela buscava a solidão para disfarçar a melancolia das recordações, e escondê-la às pessoas da casa. Um passeio pela borda da mata virgem, à sombra das grandes árvores, e a restituía à calma do viver habitual.

Os sussurros da floresta e o gorjeio das aves acabavam por abafar os rumores da Corte que poucas horas antes enchiam sua alma, e a estavam chamando à vida agitada e elegante do Rio de Janeiro.

Quando voltava à companhia de sua mãe, já tinha passado de todo aquele acesso de saudades. Na covinha onde borbulhava o seu meigo sorriso, ninguém descobria o vestígio recente da lágrima furtiva que ali rolara.

D. Margarida, porém, embora fosse uma senhora de espírito singelo e coração crédulo, todavia pela admirável intuição, que é um instinto de mãe, sentia que sua Gabriela não nascera para a existência obscura da roça.

Quando à noite a moça vestida e toucada com o primor de seu bom gosto, sentava-se na sala onde apenas apareciam além do administrador e do capelão da fazenda, algum raro vizinho; D. Margarida lastimava que não estivesse ali a sociedade da Corte para admirar a graça que a filha esparzia em torno de si, e que enchia a vasta casa silenciosa.

Se da janela avistava a moça a passear entre os canteiros do antigo jardim abandonado, a boa senhora, apesar de sua falta de uso, conhecia que o pé mimoso e sutil da sua Gabriela carecia de um tapete aveludado onde pisasse; e que esse talhe airoso estava reclamando a ondulação da valsa em um salão de baile.

D. Margarida era viúva; perdera o marido três anos antes; e desde então entregara a administração da fazenda a um parente que por seu zelo e atividade conseguira conservar a lavoura do café no mesmo grau de prosperidade em que a deixara o dono.

Não tinha a viúva outra razão que a prendesse à roça, a não ser o hábito dessa existência tranquila e monótona do interior, à qual tanto se conformava a singeleza de sua índole. Mas esse comodismo, qual é a mãe que o não sacrifica à felicidade de filha querida?

Cogitou D. Margarida um novo plano de vida, que lhe pareceu indispensável ao futuro de sua Gabriela; consultou o padre Moura, seu capelão; ouviu o administrador, o Capitão José Teixeira, assim como a outros parentes, e apoiada no voto unânime desse conselho privado, tomou afinal a sua resolução. Era esta a de pôr casa na Corte, e fazer aí sua residência durante a maior parte do ano, vindo passar regularmente a festa de Natal na Soledade, onde se demoraria até princípios de março, depois de passada a força do calor.

Gabriela recebeu com vivo prazer essa notícia; e pelas efusões de seu contentamento conheceu D.

Margarida que havia satisfeito com seu desvelo a um recôndito desejo da filha.

— Tinhas vontade de morar na Corte, Gabriela?

— Oh! muita, mamãe!

— E nunca me disseste! acrescentou a mãe extremosa com um tom mais de queixa do que de exprobração.

— Não foi melhor assim? tornou a menina com um dilúvio de carícias.

Gabriela, que tinha pelos prazeres da Corte a mesma gulodice e avidez da criança pelo mel saboroso de que apenas provou algumas gotas, levou a taça aos lábios, e bebeu a longos sorvos sem ver nem pressentir o polme grosseiro e amargo que havia no fundo.

Entregou-se às seduções da vida fluminense, com a virgindade das emoções e toda a ingenuidade de suas ilusões. Era um céu que se abria diante dela, esplêndido e deslumbrante, e no qual ela penetrava afoitamente, fraldada com suas asas de anjo.

Entre muitos adoradores, de que a cercara sua beleza, distinguiu sem faceirice, como sem disfarce, com uma nobre e airosa naturalidade, aquele que mais lhe havia captado a sua simpatia.

Esse, que era um dos moços mais distintos do Rio de Janeiro, fez-lhe corte assídua nos bailes e reuniões. Afirmavam, e Gabriela o ouvia muitas vezes, que ele estava loucamente apaixonado.

Depois de um mês de galanteio, o moço declarou-se; e desde então não perdia ensejo de falar-lhe de seu amor, já descrevendo a veemência de sua paixão, já fazendo sonhos do futuro.

Gabriela a princípio escutava-o atentamente; mas ficava fria e indiferente. Depois distraía-se com o movimento do baile a ponto de seu cavalheiro vexar-se da triste figura que fazia.

Ao cabo de alguma insistência, o primeiro pretendente esquivou-se e deixou o lugar a um segundo, que não foi mais feliz. Ainda ouve um terceiro; mas o quarto já não encontrou a mesma condescendência.

Gabriela estava desiludida. O amor, como ela sonhava, não era essa paródia banal, insípida e monótona, que se representava nas salas; e da qual pretendiam distribuir-lhe o papel de ingênua.

Quando ouviu os mesmos protestos repetidos sucessivamente por seus quatro pretendentes, com o estilo convencional e já tão gasto da novela; quando conheceu que todos esses homens não eram mais do que máscaras de um tipo único, o namorador; Gabriela encheu-se de tédio por essa sociedade que um ano antes a fascinara.

Um dia sua mãe surpreendeu-a triste e pensativa:

— Que tens, Gabriela? Acho-te mudada!

Ela corou.

— Tenho saudades da roça.

D. Margarida sorriu-se.

— Pois se queres vamos passar o Espírito Santo na Soledade; e eu aproveitarei para a vacina dos crioulinhos, que não estando eu lá...

— Mas há de ser para ficar. Sim?

— O resto do ano?

Cresceu a surpresa de D. Margarida:

— Já te aborreceste da Corte, Gabriela?

— Já vi o que é. Gosto mais da Soledade.

A viúva, só por amor da filha, suportava o corrupio da vida da Corte, e em segredo suspirava pelo sossego da fazenda. Nesse mesmo dia pois mandou buscar a condução para a volta; e antes de uma semana estava restituída à sua velha casa térrea da Soledade, onde respirava mais à vontade do que nas elegantes salas do Catete.

Todavia conservou por algum tempo ainda o sobrado que alugara na Corte. Acreditava que o aborrecimento de Gabriela seria passageiro; e que no retiro e monotonia da fazenda não tardaria a voltar-lhe o gosto pelos prazeres, tão natural em sua idade.

A moça porém despedira-se por uma vez da sociedade. Resignada a casar-se sem amor, ela preferia aos afetos arrebicados das salas, a amizade chã e sincera de um fazendeiro, que soubesse respeitá-la e a quem se ligasse sem ilusões, mas também sem desprezo, com uma estima sincera, já que Deus não lhe concedera amar.

Ainda se conservava disposição de ânimo, quando o acaso trouxe às vizinhanças da Soledade o mancebo desconhecido.

O mistério indefinível, cheio de encanto e magia, que outrora lhe enchera a alma de cismas e anelos ardentes; o sublime poema da felicidade, que ela tinha dentro do coração, mas como um livro cerrado, que sua consciência não podia ler; o amor, que não encontrara nos salões dourados; ali estava naquele ermo.

Não foi preciso declaração nem frases eloquentes; nem ternos rendimentos. Bastou um olhar. A paixão avassalou-a, sem que ela o sentisse.