Fabulas de Esopo/A Aguia e a Corexa

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
A Aguia e a Corexa


FABULA XXVII.


A Aguia e a Corexa.


A Aguia tomou nas unhas hum Cágado para cevar-se, e trazendo-o pelo ar, e dando-lhe picadas, não podia matalo, porque estava mui recolhido em sua concha. Embravecia-se muito com isto a Aguia, sem lhe prestar, quando chega a Corexa, e diz: A caça, que tomastes, he em extremo boa, mas não podereis gozar della, senão por manha. Disse a aguia que lhe ensinasse a manha, e partiria com ella da caça. A Corexa o fez, dizendo: Subi-vos sobre as nuvens, e de lá deixai cahir o Cágado sobre alguma lagem, quebrará a concha, e ficar-nos-ha a carne descoberta. A Aguia o fez; e succedendo como querião, comêrão ambas da caça.


MORALIDADE.


Na guerra, e em todo negocio, tanto val a industria, e mais que a força; que negocios mui arduos se acabão por manha, e a força sem ella val pouco ou nada. Isto quizerão mostrar os poetas na companhia e amizade do sabio Ulysses com o valente Diomedes, porque valencia sem manha poucas ou nenhuma vez dá fruto proveitoso a seu dono, e hum conselho bom acaba mais que muitos máos.