Fabulas de Esopo/Os Membros e o Corpo

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
Os Membros e o Corpo


FABULA XXVI

Os Membros e o Corpo.


As mãos e os pés se queixavão dos outros membros, dizendo que elles toda a vida trabalhavão, e trazião o corpo ás costas, e tudo redundava em proveito do estomago, que comia sem trabalho; por tanto que se determinasse a buscar sua vida, que elles não havião de dar-lhe de comer. Por muito que o estomago lhes rogou, não quizerão tomar outra determinação e assim começàrão a negar-lhe a comida: elle enfraqueceo. Mas como juntamente enfraquecessem tambem os pés e mãos, tornárão depressa a querer alimentalo; mas como já a fraqueza fosse muita, nada lhes valeo, e morrêrão todos juntamente.


MORALIDADE.


Todos somos membros em huma Republica, e todos necessarios huns aos outros. Soldados e trabalhadores são mãos e pés, o Rei cabeça, os ricos estomago. Se disser o lavrador que não quer trabalhar, para que o outro coma, elle ha de ser o primeiro que ha de padecer fome. Se os soldados não defenderem a patria, o Rei não governar, os ricos não distribuirem o que ajuntárão dantes, e cada membro se apartar, morrerão todos, e morrerá o corpo mistico da Republica.