Fabulas de Esopo/O Velho e a Mosca

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Velho e a Mosca


FABULA LIV.
O Velho e a Mosca.

Repousava á soalheira hum Velho calvo, com a cabeça descoberta, e huma Mosca não fazia senão picar-lhe na calva. Acodia logo o Velho com a mão, e como ella fugisse mui depressa, dava em sí mesmo grandes palmadas, de que a Mosca gostava e se ria. Disse o Velho: Ride-vos embora de quantas vezes eu der em mim, que isso não me mata; mas se huma só vez vos acertar, ficareis morta, e pagareis o novo e o velho.

MORALIDADE.

Mancebos ha que em zombar e escarnecer dos homens graves e sisudos são mais importunos que Moscas, até que o homem grave pelos castigar lhes descobre huma falta sua, com que os deixa mortos de injuriados. Eu por esta Mosca entendo alguns mui zelosos, que trabalhão por dar desgostos a senhores poderosos, ou fazem sobrancerias ás justiças e escapão muitas vezes, até que de alguma cahem nas suas mãos, e os fustigão de maneira que ficão perdidos de todo.