Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas)/X

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A casa da visinha
 
MARTHA (só.)

Perdoe nosso Senhor a meu marido,
Para mim não foi bom; por esse mundo
Lá se foi divertir, e na miseria,

Sosinha me deixou. Nunca pesada
Lhe fui, sabe-o Deus, sempre lhe tive
Muito amor.

 

(Chora.)

 

Pode ser que já morresse...
Oh dor! se a certidão tivesse ao menos.

 
MARGARIDA (entra)

Senhora Martha.

 
MARTHA

Que é, Margaridinha ?

 
MARGARIDA

Mal me tenho nas pernas, outra caixa
De pau de ebano achei no meu armario,
E magnificas joias, em riqueza
Muito além das primeiras.

 
MARTHA

Não no diga
À menina á maman, que as mette logo
Nas mãos do confessor.

 
MARGARIDA

Veja lá, olhe.

 
MARTHA (enfeitando-a.)

Oh bemaventurada creatura !

 
MARGARIDA

Mas com ellas saír não posso nunca,
Nem á missa leval-as.

 
MARTHA

A miudo
Vem ter comigo e põe as tuas prendas
Aqui ás escondidas, do espelho
Por deante passeia uma horasinha ;
Assim sempre teremos algum gosto.
Havendo occasião, em qualquer festa,
Vai a gente mostrando-as pouco e pouco:
Põôes primeiro o collar, depois arriscas
De perolas os brincos; não repara
A mãe ou lhe contamos uma historia.

 
MARGARIDA

Quem seria que trouxe as duas caixas?
Assim com cousas boas não succede.

 

(Batem.)

Jesus! se é minha mãe.

 
MARTHA (olhando pela cortininha.)

Um extrangeiro.
Entre.

 
(Mephistopheles entra.)
 
MEPHISTOPHELES

Vir eu assim tão sem cer'monia
Queiram estas senhoras perdoar-me.

 
(Recua respeitoso deante de Margarida.)
 

Dona Martha Schwerdtlein é quem procuro.

 
MARTHA

Sou eu. E o senhor o que deseja?

 
MEPHISTOPHELES (baixo a Martha.)

Já a conheço agora, estou contente;
Tendes hoje visitas mui distinctas,
A liberdade que tomei perdoem-me.
Voltarei esta tarde.

 
MARTHA (a Margarida.)

Pensa, filha,
Que singular engano, o senhor julga
Que és uma fidalga!

 
MARGARIDA

Rapariga
Bem pobre sou. Jesus, muita bondade
Tem o senhor, não são as joias minhas.

 
MEPHISTOPHELES

Não são somente as joias, um ar tendes,
Um olhar tão altivo; quanto estimo
Poder me demorar.

 
MARTHA

O que procura,
Se me faz o favor.

 
MEPHISTOPHELES

Oxalá fosse
Mais alegre a noticia que vou dar-lhe,
Não me queira por isso mal, lhe peço.
Seu marido morreu e recommenda-se.

 
MARTHA

O meu homem morreu. Ai que desgraça!
Meu marido morreu, ai que desmaio.

 
MARGARIDA

Minha rica senhora não se afflija.

 
MEPHISTOPHELES

A miseranda historia ouvi agora.

 
MARGARIDA

Por isso em minha vida amar não quero,
Matar-me-hia a perda.

 
MEPHISTOPHELES

Não se encontra
Alegria sem dor, dor sem delicia.

 
MARTHA

Contae-nos pois o fim da sua vida.

 
MEPHISTOPHELES

Jaz sepultado em Padua; logo Junto
De Santo Antonio, em terra consagrada,
Frio leito de seu repouso eterno.

 
MARTHA

E não tendes mais nada que trazer-me ?

 
MEPHISTOPHELES

Sim, um pedido bem pesado e grave,
Que lhe mandeis dizer trezentas missas
Por alma, e em quanto ao mais, senhora,
As minhas algibeiras 'stam vasias.

 
MARTHA

O que? Nem um presente, um pobre enfeite,
O que guarda no sacco o jornaleiro,
Como lembrança, padecendo fome,
Chegando a mendigar para poupal-o.

 
MEPHISTOPHELES

Minha senhora, tenho muita pena;
Mas não desbaratou elle o dinheiro.
Tambem se arrependeu dos seus peccados
E mais inda chorou sua desgraça.

 
MARGARIDA

Como os homens, meu Deus, são desditosos.
Hei de rezar por elle muito requiem.

 
MEPHISTOPHELES

Bem mer'cieis achar um casamento,
Sois tão boa menina.

 
MARGARIDA

Isso não pode
Ser ainda.

 
MEPHISTOPHELES

Pois se não for marido
Que seja um namorado. Dos maiores

Dons do ceu ha de ser, tão linda cousa
Pelo braço levar.

 
MARGARIDA

Não é costume
Cá na terra.

 
MEPHISTOPHELES

Costume ou não costume
Sempre pode fazer-se.

 
MARTHA

Ide contando.

 
MEPHISTOPHELES

Do seu leito de morte estive junto;
Era melhor que esterco, palha podre:
Mas como bom christão morreu, dizendo
Que mer'cera peor. Como me devo
Aborrecer, dizia, bem do fundo
Do coração, por ter mulher deixado
E meu emprego | Ai, Deus, que só a lembrança
Me mata. Se ella ao menos nesta vida
Me perdoasse.

 
MARTHA (chorando)

Eu, perdoei-lhe ha muito,
Marido meu amado.

 
MEPHISTOPHELES

Mas a culpa
Foi della, Deus o sabe, mais que minha.

 
MARTHA

Mentira! Pois ousou mentir á beira
Da sepultura ?

 
MEPHISTOPHELES

Estava delirando
Em seu extremo arranco, se de engano
Eu victima não sou. Não tinha tempo
Para me divertir, dizia elle,
Era mister primeiro fazer filhos
E ganhar-lhes depois pão, na mais lata
Accepção da palavra; e nem podia
O meu quinhão comer. tranquillamente.

 
MARTHA

Assim do meu amor pôde esquecer-se,
E do que lhe aturava noite e dia?

 
MEPHISTOPHELES

Pelo contrario, tinha-o bem presente ;
Quando saí de Malta, accrescentava,
Por filhos e mulher orei devoto
E foi-me o ceu propicio, que o navio,

Em que ja, aprezou baixel de turcos,
Do sultão com o thesouro carregado.
Dessa vez boa paga ao valor coube,
E tambem recebi, como era justo,
Della uma parte muito bem medida.

 
MARTHA

Talvez o enterrasse. Onde seria?

 
MEPHISTOPHELES

Onde o terão agora os quatro ventos!
Quando inda extranho em Napoles andava,
Delle se namorou moça formosa
E de fé e de amor lhe deu taes provas,
Que no leito da morte inda as sentia.

 
MARTHA

Infame ! roubador dos proprios filhos!
Nem miserias nem faltas lhe poderam
Atalhar o viver escandaloso.

 
MEPHISTOPHELES

Vêde lá que o pagou elle co'a vida.
Se eu estivesse agora em Vosso caso,
O anno de decencia punha lucto,
E buscava entretanto outro marido.

 
MARTHA

Ah meu Deus, como era este primeiro
Facil outro não acho neste mundo,
Não podia existir melhor doidinho.
Só tinha amor demais á vida errante
E a mulheres alheias, e á bebida
E ao jogo de azar, que Deus maldiga.

 
MEPHISTOPHELES

Vamos lá; ia a cousa á maravilha
Se pouco mais ou menos outro tanto
Vos perdoava elle. Aqui vos juro;
Com essa condição, de mui bom grado
Trocária comvosco annel de noivo.

 
MARTHA

Quer vossa senhoria divertir-se.

 
MEPHISTOPHELES (à parte.)

Vou-me safando a tempo, capaz era
De pegar na palavra té ao Diabo.

 

(A Margarida.)

 

O vosso coração como se sente ?

 
MARGARIDA

O que quer o senhor dizer com isso?

 
MEPHISTOPHELES (para si)

Tu innocente, santa creatura!

(Alto)

Adeus, senhoras.

 
MARGARIDA

Guarde-o Deus.

 
MARTHA

Dizei-me,
Bem quizera arranjar um áttestado
De como, quando e onde meu marido
Morreu e se enterrou. Fui sempre amiga
Da boa ordem, quero na gazeta
Annuncio do seu obito.

 
MEPHISTOPHELES

Senhora,
De duas testemunhas pela boca
A verdade se prová em toda a paíte.
Tenho comigo um fino companheiro
Que 'stá prompto a jurar. Virá comigo.

 
MARTHA

Pois fazei isso, sim?

 
MEPHISTOPHELES

Mas tambem ha de

Esta menina vir? Um bello moço,
Tem viajado muito e é mui polido
Com as damas.

 
MARGARIDA

Terei tanta vergonha
Desse senhor.

 
MEPHISTOPHELES

De nenhum Rei da terra.

 
MARTHA

No meu jardim, alli detraz da casa,
Estaremos à noite á vossa espera.