Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas)/XVIII

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Muralha da cidade
 
(Num nicho uma imagem de Nossa Senhora das
Dores. Diante da imagem jarras de flôres.)
 
MARGARIDA (pondo flôres nas jarras.)

Oh volve,
Mãe dolorosa,
A meu soffrer a face piedosa !

 

Com o coração varado,
Com o peito traspassado,
A morte do teu filho vês e choras;

 

Com supplicante olhar,
Com triste suspirar,
Pela dôr que soffreis a Deus imploras.

 

Quem sente
Como é ardente
A dor que me devora ?
O que meu peito recêa,
Porque treme, porque ancêa,
Sabes tu, só tu, Senhora!

 

Aonde quer que vá,
Que dor, que dor me dá
No coração, aqui;
Apenas fico só,
Choro, choro sem dó,
Rasga-se o' peito em mi.

 

Os vasos das janellas
Em lagrimas banhei,
Quando ao amanhecer
Estas flôr's apanhei.

Bem cedo no meu quarto,
Brilhante o sol entrou;
Na cama já sentada,
Em prantos m'encontrou.

 

Vale-me, livra-me da vergonha e morte !

 

Oh volve,
Mãe dolorosa,
A meu soffrer a face piedosa.