Fausto (traduzido por António Feliciano de Castilho)/Quadro VIII

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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro VIII

Vista de rua.

Cena I[editar]

FAUSTO, já remoçado, MARGARIDA, que vai passando

FAUSTO
Minha linda fidalga, dá licença
de oferecer-lhe o braço e acompanhá-la?

MARGARIDA
Senhor, nem sou fidalga, nem sou linda.
Vou para casa só, perfeitamente.

(Dá-lhe costas, e sai)

Cena II[editar]

FAUSTO (só)

Vive Deus! que formosa criatura!
Nunca vi coisa assim. É tão sisuda,
tão bela! Tem de mau só a esquivança.
Nunca me hão-de esquecer em toda a vida.
o carmim da boquinha, a cor das faces!
Aquele abaixar de olhos, que profundo
que se gravou cá dentro! E as respostinhas
tão concisas! Encanto como aquele
não quero eu que haja outro.

Cena III[editar]

O MESMO e MEFISTÓFELES

FAUSTO
Uma palavra:
Arranjas-me a cachopa?

MEFISTÓFELES
Eu! qual?

FAUSTO
Aquela
que por aqui passou não há minutos.

MEFISTÓFELES
Ah, sim, sim: essa vinha do confesso,
por sinal que o padreca lhe lançara
o te absolvo dos pecados todos,
o que eu sei de raiz, porque à sorrelfa
pelo confessionário ia passando.
Se há inocência é aquilo; escrupuliza
de uma aresta que seja, e não sossega
sem ir desabafar aos pés do padre.
Naquela nada posso.

FAUSTO
O quê! pois ela
não tem já seus quatorze?

MEFISTÓFELES
Ui! Já lá vamos,
meu Dom João de obra grossa? Pelos modos,
onde houver flor é sua; o privilégio
de colher honras e estrear carícias
é só deste senhor. Contas são essas,
que ao enfiar às vezes se escangalham.

FAUSTO
Mestre paparrotão! Deixemos regras.
Digo-lhe isto, e mais nada. Se esta noite
não abraço a moçoila, ao dar das doze
acabou-se o contrato.

MEFISTÓFELES
Ao que me pede
não chega a minha alçada. Quinze dias
gastarei eu no esquadrinhar os azos.

FAUSTO
Com sete horas, não mais, se as eu tivesse,
era capaz de haver a franganota,
sem precisar ajudas de diabos.

MEFISTÓFELES
Galra, que nem francês. Mas piano, piano!
Gozar logo à primeira, é parvoíce.
O verdadeiro, o fino, é quando um homem
amassa de princípio, amolda, ajeita
com mil quindins a sua bonequinha;
do que dão fé novelas estrangeiras.

FAUSTO
Bom apetite escusa especiarias.


MEFISTÓFELES
Mas sério, sério, a moça, inda o repito,
não é dessas, que amor leva d’assalto;
precisa-se estratégia.

FAUSTO
Vê se ao menos
me trazes desse angélico tesoiro
uma prenda qualquer. Leva-me ao quarto
em que pernoita. Brinda-me co’um lenço
que lhe velasse o peito, co’uma liga
que lhe cingisse a curva torneada...

MEFISTÓFELES
Bem! Para lhe provar quanto desejo
dar algum lenitivo a tais ardores,
levo-o sem mais tardança ao quarto dela.

FAUSTO
A vê-la? a possuí-la?

MEFISTÓFELES
É cedo, é cedo.
Saiu a visitar certa vizinha;
portanto pode, a sós inteiramente,
chamar a casa sua; e antegozando
já no ânimo outros bens, inebriar-se
a fartar na atmosfera do seu anjo.

FAUSTO
Vamos já?

MEFISTÓFELES
Dentro em pouco.

FAUSTO
Hás-de arranjar-me
algum dom que lhe eu leve.

(Sai.)

Cena IV[editar]

MEFISTÓFELES (só)

Já presentes?!
Macacão! sabe-a toda! Agora digo
que a tem na palma, e breve. O meu canhenho
reza de mil tesoiros enterrados.
Vou-me à busca de algum que lhe encha o olho.