Fausto (traduzido por António Feliciano de Castilho)/Quadro XVI

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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro XVI

Quintal de Marta, como no quadro XIII.

Cena I[editar]

MARGARIDA e FAUSTO

MARGARIDA
Sim? prometes-mo, Henrique?

FAUSTO
Inda o duvidas?
Tudo quanto eu puder.

MARGARIDA
Pois bem: que ideia
tens da religião? Sei que és bondoso;
agora crente... desconfio um tanto.

FAUSTO
Melhor é que tratemos de outra coisa,
filha. Sabes se eu te amo, e se eu daria
por ti a própria vida; agora as crenças.
deixo-as a cada um.

MARGARIDA
Pois não to louvo.
Crença é dever.

FAUSTO
Dever!

MARGARIDA
Eu não queria
senão poder guiar-te. E os Sacramentos,
respeitá-los?

FAUSTO
Respeito.

MARGARIDA
Oh sim, mas frio.
Não vais à confissão, não vais à missa...
Crês em Deus?

FAUSTO
Quem se atreve, amada prenda,
a dizer: Creio em Deus? Se o perguntares
a qualquer padre, a qualquer sábio, afirmo-te
que há-de a resposta parecer-te escárnio.

MARGARIDA
Então não crês?

FAUSTO
Encanto meu querido,
não tomes o que digo em mau sentido.

Defini-lo, que língua o tentara?
Quem se atreve a dizer: Em Deus creio?
Ou quem pode, sentindo-o no seio,
Não há Deus, temerário afirmar?
Pois aquele que abrange, que ampara
todo um mundo em seu grémio patente,
a nós ambos não pode igualmente
e a si próprio abranger, amparar?
Não nos cobre uma abóbada imensa?
Não pisamos um chão tão seguro?
Não nos banha em clarões pelo escuro
de astros meigos perene caudal?
Quando embebo este olhar, que em ti pensa,
nesse teu, que à minha alma responde,
¿de um poder que entreluz e se esconde
não sentimos o influxo fatal?
Toda a vez que o teu peito sedento
se afundir neste mar de doçura,
põe-lhe o nome a teu gosto: ventura,
céu de amor, ou potência de um Deus.
Eu nenhum. De o gozar me contento.

Nome é fumo em que a luz se reveste;
e eu não quero um tal fogo celeste
encobrir aos teus olhos e aos meus

MARGARIDA
Lindo! O meu director diz-me isso mesmo,
por outras expressões.

FAUSTO
Em toda a parte
rompe idêntica voz das consciências;
cada um na linguagem que lhe é própria
a traduz, e eu na minha.

MARGARIDA
Em realidade
o que aí me tens dito não destoa
de todo em todo... mas não sei se envolve
sua moedinha falsa... Enfim, vá tudo:
tu não tens fé cristã.

FAUSTO
Meu caro anjinho!

MARGARIDA
Uma coisa que há muito me faz peso
é ver acompanhar com tal figura.

FAUSTO
Como assim?

MARGARIDA
É verdade: desadoro
do teu colchete; não vi coisa nunca
jamais que tanto horror me produzisse
como aquela carranca.

FAUSTO
Ele, criança,
que mal te fez?

MARGARIDA
Não sei; ferve-me o sangue
sempre que o vejo; é a única pessoa
a que não quero bem. Tanto me alegro
quando tu chegas, como ao vê-lo esfrio.
Tem-me ar, Deus me perdoe, de um sacripante.

FAUSTO
Como há gente sisuda, há valdevinos;
que se lhe há-de fazer?

MARGARIDA
Deus me livrara
de conviver com semelhante escória!
Quando entra, encara sempre nas pessoas
como quem zombeteia ou vem zangado;
não toma nada a sério; está-se lendo
naquela testa que ninguém lhe agrada.
Sinto-me tão contente a sós contigo!
tão senhora de mim! tanto à vontade
no calor que a tua alma infunde à minha!
vem ele... e eis-me tolhida inteiramente.

FAUSTO
Superstições de um anjo.

MARGARIDA
É tal o enguiço
que onde me ele aparece, até já cuido
que não gosto de ti. Diante dele,
fosse eu querer rezar! Faz-me cá dentro
tudo isto uma aflição! Não te sucede
o mesmo, Henrique?

FAUSTO
Antipatias.

MARGARIDA
Vou-me.
É forçoso.

FAUSTO
O que eu dera, Margarida,
por poder, uma hora, uma só hora,
passar contigo descansado! unidos
peito a peito! alma a alma!

MARGARIDA
Tu bem sabes
que não durmo sozinha. Eu, por meu gosto,
deixava-te ficar já hoje a porta
fechada em falso, e então... Mas a mãezinha
tem o sono tão leve! E se ela fosse
dar connosco, eu morria de repente.

FAUSTO
Para isso, meu anjo, há bom remédio.
Toma este vidro! basta que lhe lances
três gotas na bebida, e adormeceu-ta
a bom levar: nenhum rumor ta esperta.

MARGARIDA
Desejas, cumpro. Esta água, já se sabe,
não pode fazer mal...

FAUSTO
Pois, se o pudesse,
eu dava-ta, querida?

MARGARIDA
Homem como este,
onde há outro? Sim, sim, querido amante;
lê-se no teu aspecto a probidade
às cegas te obedeço. Tenho feito
por ti já tanto que o restante é nada.

(Sai.)

Cena II[editar]

MEFISTÓFELES e FAUSTO

MEFISTÓFELES (entrando)
A espertalhona foi-se?

FAUSTO
E não me perdes
a manha de espiar.

MEFISTÓFELES
Ouvi-lhe tudo;
desta feita o Doutor, em catecismo
pode fazer exame; que lhe preste!
O amigo é pouco visto em raparigas:
não dão ponto sem nó. Talvez não saiba
porque as encanta o converter marmanjos;
é porque dizem: - Quem me cede nisto,
há-de ceder-me em tudo.

FAUSTO
Ó monstro bruto!
Pois não concebes que uma crente ingénua,
convicta de que ao céu não vão descrentes,
curta um martírio em só cuidar que o homem
que ela a todos prefere é já do inferno?

MEFISTÓFELES
Charco de vício e flor de namorados!
Com que assim dás o beiço a uma criança!

FAUSTO
Fogo do inferno, e espírito de borra!

MEFISTÓFELES
E é mestra em decifrar fisionomias:
- Tenho ar, Deus lhe perdoe, de um sacripante!
- Ver, é ficar tolhida! - Acha-me uns ares
de traidor mascarado, algum duende,
talvez até diabo...
Então o amigo...
sempre, esta noite...?

FAUSTO
Que te importa?

MEFISTÓFELES
Ai! muito.
Vou-lhe bailar na boda as tripecinhas.