Fui um doudo em sonhar tantos amores

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(Fui um doudo em sonhar tantos amores)
por Álvares de Azevedo
Poema agrupado posteriormente e publicado em Lira dos Vinte Anos.


Dorme, meu coração! Em paz esquece

Tudo, tudo que amaste neste mundo!
Sonho falaz de tímida esperança
Não interrompa teu dormir profundo!

Tradução do Dr. Octaviano

 
Fui um douto em sonhar tantos amores...
Que loucura, meu Deus!
Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato,
Todos os sonhos meus!
 
E ela, triste mulher, ela tão bela,
Dos seus anos na flor,
Por que havia de sagrar pelos meus sonhos
Um suspiro de amor?
 
Um beijo — um beijo só! eu não pedia
Senão um beijo seu

E nas horas do amor e do silêncio
Juntá-la ao peito meu!




Foi mais uma ilusão! de minha fronte
Rosa que desbotou
Uma estrela de vida e de futuro
Que riu... e desmaiou!
 
Meu triste coração, é tempo, dorme,
Dorme no peito meu!
Do último sonho despertei e n'alma
Tudo! tudo morreu!
 
Meus Deus! por que sonhei e assim por ela
Perdi a noite ardente...
Se devia acordar dessa esperança,
E o sonho era demente?...
 
Eu nada lhe pedi: ousei apenas
Junto dela, à noitinha,
Nos meus

delírios apertar tremendo
A sua mão na minha!
 
Adeus, pobre mulher! no meu silêncio
Sinto que morrerei...
Se rias desse amor que te votava,
Deus sabe se te amei!
 
Se te amei! se minha alma só queria
Pela tua viver,
No silêncio do amor e da ventura
Nos teus lábios morrer!
 
Mas vota ao menos no lembrar saudoso
Um ai ao sonhador...
Deus sabe se te amei!... Não te maldigo,
Maldigo o meu amor!...
 
Mas não... inda uma vez... Não posso ainda
Dizer o eterno adeus
E a sangue frio renegar dos sonhos
E blasfemar de Deus!


Oh! Fala-me de amor!... - eu quero crer-te
Um momento sequer...
E esperar na ventura e nos amores,
Num olhar de mulher!