Galeria dos Brasileiros Ilustres/João Paulo dos Santos Barreto

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
João Paulo dos Santos Barreto


O Marechal do Exército João Paulo dos Santos Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1788. Aos 19 anos de idade assentou praça no regimento de artilharia da corte, e encetou essa carreira brilhante, rápida e tão cheia de serviços notáveis, que hoje o tornam um dos vultos mais proeminentes e mais veneráveis do Exército brasileiro. Seu talento e serviços o fizeram percorrer com rapidez todos os postos da carreira a que se dedicara, sendo que desde o posto de sargento, que ocupou dois dias depois de assentar praça, até o de 1º tenente, foi sempre promovido por exame de oposição, como então se usava; aos 30 era capitão do corpo de engenheiros; aos 33 major; aos 35 tenente-coronel; aos 38 coronel do estado-maior.

Desde o começo de sua carreira, exerceu cargos os mais honrosos e de mui várias naturezas, e desempenhou comissões da mais subida importância.

Apenas voltava em 1818 dessa expedição, que fora a Pernambuco debelar uma tentativa de emancipação precoce e imprudente, era logo nomeado por decreto de 6 de fevereiro do mesmo ano lente substituto da Academia Militar; logo depois, em 1819, toma parte em uma importante comissão, confiada ao general Stokler, com o fim de estudar um sistema de fortificações marítimas e terrestres para a província do Rio de Janeiro; em 1821 é mandado à ilha Terceira para examinar de perto e reformar os estudos matemáticos e militares da escola daquela ilha; daí é mandado a Lisboa em diligência, donde depois parte para a França incumbido de fazer estudos práticos de engenharia e hidráulica. Assim os mais belos anos do jovem oficial foram consagrados todos ao serviço público.

Chegou a época da independência; e Santos Barreto voltou para a terra natal onde seu mérito, em um país que apenas começava a organizar-se, não podia deixar de ser aproveitado. Pedro I, que acabava de proclamar a emancipação política do Brasil, e que procurava rodear-se de todos os homens de mérito e distinção, chamou para junto de si o jovem e ilustrado oficial, e o fez secretário de seu conselho militar privado por poder militar na qualidade de comandante das armas. Santos Barreto estava na primeira plana por sua ilustração e serviços, e pois não podia deixar de ser aproveitado. Posto que a época fosse reacionária e de irritação de espírito, o caráter moderado e brando, a ilustração e o prestígio do nome de Santos Barreto foram bastantes para garantir a ordem e tranqüilidade da província.

Apenas largava as rédeas daquela importante presidência, por ter sido eleito deputado geral pelo Rio de Janeiro, foi convidado a tomar assento nos conselhos da Coroa em 22 de maio de 1846, como ministro da Guerra. Foi então que pôde melhor desenvolver em prol da repartição a seu cargo os recursos de sua inteligência, ilustração e consumada experiência. As páginas da coleção legislativa dessa época estão cheias de numerosas e acertadas medidas, de sábias providências e regulamentos tendentes a organizar o exército, e a regular e melhorar tudo que diz respeito ao serviço militar. Pode-se asseverar, sem receio de errar, que Santos Barreto é um dos generais que entre nós mais tem contribuído para a melhor organização do exército.

Em 1848, foi de novo chamado para a pasta da Guerra, e a ocupou por quatro meses.

Dessa data em diante, apesar de sua avançada idade, Santos Barreto não tem cessado de servir ao país em numerosas e importantes comissões que fora longo enumerar. Deixando de parte outras muitas, só faremos menção das seguintes, que nos parecem mais importantes: em 1849 presidiu a comissão encarregada de examinar o estado da fábrica de pólvora, e propor as reformas convenientes, comissão que desempenhou, e levou a seu termo de modo satisfatório. No mesmo ano foi nomeado presidente da comissão de prática de artilharia, e no ano de 1850 presidente da comissão de melhoramentos do material do exército. A ele se deve a construção dos canhões obuses de que hoje se servem os corpos de artilharia. Em 1851, foi membro da comissão encarregada da revisão da legislação do Supremo Conselho Militar.

Em 1852 presidiu a difícil e delicada comissão de exame do arsenal de guerra da corte, e nesse mesmo ano foi encarregado de rever e corrigir as instruções elaboradas pelo general Pardal para uso dos corpos de artilharia montada.

Por decreto de 24 de outubro de 1855 foi nomeado conselheiro de estado extranumerário.

Em todas essas laboriosas comissões de que era continuamente encarregado, Santos Barreto desenvolveu zelo, inteligência e atividade e aquelas, de que não foi desviado para exercer outros cargos ou por outro qualquer motivo a todas desempenhou do modo o mais satisfatório, como aconteceu com o governo das armas da província do Pará desde 1826 até dezembro de 1830, e o comando do batalhão de oficiais voluntários.

Por isso, por duas vezes foi mandado louvar pelo Governo Imperial, e se lhe agradeceu, já a parte que teve na organização do exército, já o bom desempenho das comissões de que encarregara. Santos Barreto também foi honrado por vezes com o sufrágio popular. Foi por duas vezes deputado da assembléia provincial da província do Rio de Janeiro; em 1844 a mesma província lhe deu um assento na assembléia geral legislativa.

Poucos homens se poderão contar entre nós que possam apresentar uma tão larga soma de serviços prestados com honradez, inteligência e dedicação, como o marechal Santos Barreto. Por sua ilustração e por seus longos serviços, é um dos mais belos ornamentos do exército brasileiro. Além de ser profundamente versado nas matérias profissionais de sua especialidade, possui variada instrução em outros ramos dos conhecimentos humanos.

Conta hoje 72 anos, e 53 de não interrompidos serviços; ainda está robusto e bem disposto; conserva todo o vigor de suas faculdades; é franco, jovial e afável no trato; é notável pela amenidade de sua conversação, sempre instrutiva.

É doutor em ciências matemáticas e físicas, tem o título do conselho, é fidalgo cavaleiro, marechal do exército, conselheiro de estado e de guerra, grão-cruz da ordem de Aviz, oficial da do Cruzeiro, viador da casa imperial, lente jubilado da Academia Militar e membro de diversas sociedades científicas, nacionais e estrangeiras.