Galeria dos Brasileiros Ilustres/Joaquim José Inácio

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Joaquim José Inácio


Escrever a vida dos que ainda vivem tem seus inconvenientes.

A emulação em uns, e a inveja em outros procuram muitas vezes desmerecer fatos, que, encarados sem preconceitos e más intenções, dão altos direitos à consideração e respeito dos contemporâneos e dos pósteros.

Demais, os próprios biógrafos não podem sempre dar o devido realce a algumas ações dos seus heróis, porque ordinariamente estes ou se negam ao fornecimento de apontamentos, ou os prestam tão suscintos, que impossível é desenvolvê-los com todo o escrúpulo e conveniência da verdade.

Sem que o escritor penetre a intimidade dos motivos que ocasionaram tais e tais acontecimentos, compreende-se a dificuldade com que ele luta para fazê-los interpretar, ele, que mesmo não conseguirá achar as relações para a formação de seus juízos, e embaraçar-se-á no encaminhamento de seus raciocínios, os quais não devem, nesses casos, ser interrompidos e nem de leve falseados.

Uma simples circunstância perdida ou deslocada na apreciação de um ato moral, produzirá uma completa desfiguração desse ato, ou, pelo menos, lhe espalhará mortecor por sobre a fisionomia.

É mister, pois, para trabalhos de tal género, o decorrimento do tempo, durante o qual fria e lentamente sejam estudados os elementos da história que se procura escrever, suas combinações, e seus resultados finais, averiguando com severidade e paciência as circunstâncias das épocas em que os fatos se deram, e confrontando os merecimentos dos rivais do personagem de quem se trata, se, porventura, ele os teve.

Em duas palavras — só de mortos se deve escrever a história.

Mas, é tal a voga de biografar os contemporâneos, que assumem os lugares de primeira ordem social, e que sabem distinguir-se por qualquer género de mérito, que fora injustiça, e injustiça clamorosa, omitir esse uso para com o eminente general da nossa armada, o sr. chefe-de-esquadra — Joaquim José Inácio.

Quem tem podido praticar com ele, lhe reconheceu sempre um caráter simpático, reflexo de uma alma elevada, e de coração generoso.

Percorrendo os diversos estádios de sua vida gloriosa, nunca se enfatuou pelo que a fortuna acumulara sobre ele, nem ousou imprecar contra alguém que lhe embargasse os passos.

O chefe-de-esquadra Joaquim José Inácio, hoje coberto de honras e ocupando o lugar de ministro e secretário de estado dos negócios da Marinha, tem a mesma singeleza de costumes e amenidade de trato, que possuía ao matricular-se no seu primeiro ano académico, ou quando era apenas estudante de latim; provando dessarte que nasceu digno da prosperidade que o afaga, e repreendendo tácita, mas constante e energicamente, a esses "pobres-diabos", que estranhando as posições elevadas a que os arróiam os acasos, cuidam que elas mudam a essência, e arrogantes e insolentes, julgam seu primeiro dever desprezar ou punir a dignidade humana, atendendo ou premiando a lisonja e o capachismo.

Esse tipo moral tão conhecido em S. Ex^ nos fez sempre prezá-lo muito, e nos leva a pôr em ordem muitos dos fatos, que nos constam de sua vida.

Não comentaremos esses fatos, só por nos faltar tempo, para um trabalho longo, como porque em seus desenvolvimentos eles nos levariam naturalmente a numerosos elogios, de que prescinde a modéstia de S. Exª, e para os quais, confessamos, nós não temos muito jeito.

Também cremos de sobra o que vamos expor, para fazer apreciar que o homem de quem nos ocupamos tem inquestionável direito a ser considerado uma de nossas mais belas notabilidades, e deve figurar, com todo o brilho de suas excelentes qualidade, na galeria de nossos homens ilustres.

Nasceu o conselheiro Joaquim José Inácio na cidade de Lisboa em 30 de julho de 1808, segundo sua certidão de idade, ou no Io de agosto do mesmo ano, conforme afirmava sua respeitável mãe que sempre retificava esse tão pequeno erro de data.

Foram seus pais José Vitorino de Barros, 2º tenente da armada brasileira, e D. Maria Isabel de Barros, falecidos no Rio de Janeiro aquele com perto de 43 1/2 anos de idade, em 5 de junho de 1823, e esta com pouco mais de 72 anos, em 7 de dezembro de 1854.

Veio com sua família para o Brasil e chegou ao Rio de Janeiro em 10 de junho de 1810, não tendo ainda completado a idade de 2 anos.

Estudou os rudimentos da língua vernácula, as latinidades e o francês na aula do padre Fortes, em que teve por colegas o Revmo. atual arcebispo da Bahia, o Revmo. bispo eleito da Diamantina o visconde do Rio Bonito, os Exmo. barão de Quaraim, conselheiros Fernandes Braga, Sérgio Teixeira de Macedo, Dr. Carvalho (lente da Escola de Medicina), Drs. Cruz Seco, Vieira Braga e outros muitos cavalheiros, que têm ocupado e ocupam elevada posição na sociedade brasileira. Estudou lógica com o sábio cónego Januário da Cunha Barbosa. Nessa e nas outras disciplinas tantos créditos adquiriu de bom estudante, que muitas vezes regeu a aula do padre Fortes.

Completou o curso de matemáticas da academia de marinha sendo em todos os anos aprovado plenamente e gozando da estima de seus ilustres mestres, com dois dos quais, os srs. conselheiros José de Sousa Correia e capitão-de-mar-e-guerra José Gonçalves Vitória ainda se honra de manter relações de amizade.

Assentou praça de aspirante a guarda-marinha em 20 de novembro de 1822, mas conta tempo de serviço de 10 de março de 1821. Foi promovido a guarda-marinha em 11 de dezembro de 1823, e em 16 de janeiro do ano seguinte embarcou para a nau D. Pedro I e nela fez a campanha de Pernambuco, Ceará e Maranhão até total pacificação destas províncias em princípios de 1825. Por esse tempo comandou no Maranhão o cúter Independente e concorreu para o desarmamento da força insurreicionada acima da vila do Rosário.

Passou a segundo-tenente em 22 de janeiro desse ano, e em julho seguinte foi para o rio da Prata, como oficial imediato do patacho Pará, onde entrou nos combates de 7 de fevereiro de 1826 da Colônia do Sacramento desde 26 desse mesmo mês até 14 do seguinte, 17 de fevereiro de 1828 e diversos outros menos notáveis do que os que ficam mencionados, que foram todos de primeira ordem.

Comandava na Colônia a bateria de Santa Rita, quando, reduzida a praça à última penúria de munições de guerra e boca, recebeu ordem do bravo e venerando general Manuel Jorge Rodrigues, depois barão de Taquari, para ir a esquadra, fundeada a perder de vista, participar o estado miserável em que estava a praça. Partiu com uma lancha desarmada e desguarnecida, atravessou por entre dezenove embarcações inimigas, cuja perseguição pôde evitar, apagando a luz que lhe aluminava a bússola. Chegou a bordo do almirante no dia seguinte, e dois dias depois entrava com três navios carregados de munições de todos os géneros por debaixo do fogo do inimigo e dos vivas da praça, que assim pôde resistir e fazer levantar o sítio e bloqueio que a cingiram por terra e mar. Acompanhou-o neste brilhante feito de armas o capitão de caçadores n° 8, José Fernandes dos Santos Pereira, valente oficial hoje tenente-general reformado. O almirante Lobo e o general Rodrigues cobriram de elogios a heroicidade desta ação, que deu ao que a praticou a recompensa de ser preterido na promoção seguinte.

Em fevereiro de 1827, foi à expedição da Patagônia. A corveta Duquesa de Goiás, de que era oficial, perdeu-se à entrada de barra, mor-reram-lhe 38 praças: escapou com a vida e com a honra de ser o último oficial que abandonou o navio.

Quando se deu o grande desembarque para tomar-se a povoação do forte dei Carmem, entregaram-lhe o comando da escuna Constança, a quem deixaram apenas dezesseis crianças como guarnição: quatro horas depois eram o Constança e o Escudeiro atacados por cinco embarcações inimigas. Bateram-se com esplêndida bravura, mas sucumbiram o Escudeiro por lhe faltar o rodízio, e o Constança por ser abordado por dois daqueles navios. Foi feito prisioneiro com o resto da pequena equipagem da escuna.

Tratado com insólito rigor, passando por todas as sortes de privações, foi afinal para Buenos Aires. O navio que o conduzia transportava também para aquela cidade mais 80 brasileiros prisioneiros de guerra. Em viagem apoderaram-se da embarcação; e iludindo a vigilância da força naval que os escoltava — duas corvetas e um brigue-escuna — seguiram para Montevidéu, onde aportaram a 29 de agosto de 1827.

Passou para a barca Grenfell, e nela destacou para a barra do Rio Grande, ameaçada pelos corsários e pela esquadra de Brown. Voltou ao Rio de Janeiro em julho de 1829, e foi promovido a 1- tenente em 17 de outubro seguinte.

Em outubro de 1831, comandava a escuna Jaguaripe, quando a soldadesca da marinha insurgiu-se a bordo das presigangas, que aquela escuna e outros navios guardavam. Na noite de 6, desertaram os destacamentos de bordo das ditas presigangas. Não havendo ordem para persegui-los, tomou o comandante da Jaguaripe a deliberação de ver para onde se dirigiam, a fim de avisar o arsenal e providenciar-se como fosse de mister. Esta diligência salvou a cidade do Rio de Janeiro.

Pressentido pelos revoltados, descarregaram eles as suas espingardas à queima-roupa sobre o escaler do intrépido comandante que, precavido como os remadores, abaixou-se e ouviu sem dano o sibilar das balas.

Bastou o troar da descarga para dar aviso à freguesia de Santa Rita e à da Candelária, cujos cidadãos armados correram ao arsenal e com seu fogo bem mantido vedaram a passagem da ilha das Cobras para cidade e essa horda de canibais, que se achavam em armas dispostas a cobrirem-na de sangue e luto. Os revoltosos recolheram-se à fortaleza, que somente na tarde do dia 7 se rendeu à discrição.

Em 22 de janeiro de 1833, saindo de Santos, foi acossado por forte travessia, que, tomando cada vez mais intensidade, levou-o à praia de Santa Marta em 29 daquele mês. Perdeu com a escuna Jagztanpe, barco velho e de péssima construção, três escravos que vinham de passagem. Justificou-se plenamente em conselho de guerra, que o julgou sem culpa.

No ano de 1835, foi-lhe dado o comando do brigue barca 29 deJÍgostoà& 18 praças, comando que pertencia a patente muito mais elevada, e por isso considerado de grande distinção. Nesse navio foi chefe do porto do Maranhão até o fim de 1836, merecendo toda a confiança do ilustre presidente da província, hoje falecido barão de Pindaré. Nas

eleições desse ano, que foram muito disputadas, prestou valiosos serviços à segurança pública, pois que com a influência que soube granjear, contribuiu poderosamente para que não fosse ensanguentada a freguesia da Conceição, agitada pela parcialidade de Leonel Serra.

Foi transferido para o comando do vapor Urânia em 1837 e tal foi a confiança que lhe manifestou o governo que, mandando-o levar ao Rio Grande, onde com a prisão do general Antero pelos rebeldes, reinava a maior desordem administrativa, o presidente Nunes Pires deixou ao seu arbítrio entrar ou não na barra conforme as notícias que recebesse e apreciasse. O mesmo presidente a quem depois comunicara as instruções que levara, admirou-se que "a um rapaz de 28 anos se desse tanta autoridade".

Em 7 de setembro desse ano foi elevado a capitão-tenente com a antiguidade de 20 de outubro do ano anterior, e comandou o brigue Constança de 14 praças, até junho de 1840. Nesse brigue serviu durante o bloqueio da Bahia em 1839. Destacado entre a barra e Itapuã, de tal sorte manobrava, que a brigada de terra ao mando do coronel Sepúlveda avançava sempre protegida pelo fogo do brigue, com o que muito prejudicava as forças da rebelião.

No dia em que Sabino lançava fogo à cidade, uma barca austríaca tentava entrar no porto com carregamento de farinha. Era então Raposo o chefe da força naval e o comandante do Constança o oficial mais antigo do bloqueio. Estavam todos à vela.

A marinha brasileira sofreria grande desaire se a barca austríaca entrasse no porto. Entretanto ninguém se movia.

O comandante do Constança impacientou-se, fez força de vela, meteu-se debaixo das baterias da cidade. O frágil brigue era cortado pela metralha em todos os sentidos e levou duas balas no costado, mas o austríaco fez-se na volta de Itaparica, velejando para ali depois de já estar ao abrigo do forte do mar.

Ao regressar o Constança para seu posto, uma corveta inglesa, um brigue francês, uma escuna dos Estados Unidos pondo suas guarnições nas trincheiras, saudaram-no com três entusiásticos hurras. Os Srs. Jorge Otôni e Pedro Ferreira, testemunhas deste belo feito, dele deram parte ao presidente da província o Sr. Barreto Pedrosa, e ele o certificou em atestado seu. Em 1839, fez-se uma promoção, e os comandantes da esquadra da Bahia foram quase todos condecorados. O oficial porém que na colônia imitou a Júlio César atravessando em frágil batel uma esquadra inimiga, o oficial que na Bahia foi saudado por bravos estrangeiros que sabem aplaudir a bravura... esse, como na Colônia, foi... punido com outra preterição.

Por ocasião da maioridade de S. M. o Imperador teve a honra de fazer parte da comissão que o corpo da armada deputou ao mesmo augusto senhor para cumprimentá-lo por este fato, que abriu ao Império uma era nova. Foi ele o intérprete dos sentimentos da nobre corporação, sendo apenas capitão-tenente e havendo nela, como hoje, generais de elevado mérito. Nesse ano foi nomeado inspetor dos arsenais de marinha do Rio Grande, onde serviu até 1845 com os presidentes Alvares Machado, Saturnino de Sousa e Oliveira e marquês de Caxias.

Em julho de 1841, a cidade do Rio Grande ia ser atacada, no que não acreditava o comandante da praça, não obstante as asseverações do inspetor do arsenal e do Dr. Travassos, atualmente desembargador e então juiz de direito.

Vendo o inspetor Joaquim José Inácio que tal incredulidade podia ser fatal, acordou com o digno juiz de direito nas providências em ordem a sustentar a praça, pondo o mais importante da província como chave de sua barra. Veio com efeito o inimigo, as trincheiras foram guarnecidas a pedido do comandante pelos operários do arsenal que marinheiros dos navios mercantes, e os pontos da mangueira e moinho de vento com oficiais de marinha em embarcações do arsenal. Reconhecendo a força agressora que tudo estava acautelado para a defesa ao contrário do que esperava, retirou-se precipitadamente e, batida por um troço de cavalaria legal, emigrou para a banda oriental. O comandante da praça foi agraciado com o oficialato do Cruzeiro; o Dr. Travassos e o inspetor do arsenal nada tiveram além da consciência de haverem cumprido galhardamente os seus deveres.

Em 1844 a 15 de março, foi promovido a capitão-de-fragata. Não podendo viver de acordo com o seu colega comandante das forças navais pediu e obteve demissão dos lugares que exercia, sendo também demitido o dito comandante das forças.

O comportamento do ilustre oficial na província de S. Pedro valeu-lhe as mais significativas provas de apreço, que consigo conserva.

A administração da Santa Casa da Misericórdia, de que foi escrivão e provedor interino, mandou tirar-lhe o retrato, que colocou na sala de suas reuniões.

Sob suas vistas foram feitos o cemitério e a casa dos expostos.

A inspeção do Rio Grande mereceu-lhe esta nota em seus assentamentos —poupou grossas somas de dinheiro aos cofres nacionais.

A 2 de abril de 1845 tomou o comando da fragata Constituição e nela seguiu para o Sul em outubro, conduzindo SS.MM.IL, que se dignaram de tratá-lo com a mais distinta consideração, sendo-lhe concedida a 2 de dezembro a comenda da Ordem da Rosa. Tinha o hábito de Cristo desde outubro de 1829 e o de Aviz desde março de 1844.

Em agosto de 1846 foi para Europa com o fim de fabricar a fragata. Chegou a Plymouth no 1-de outubro desse ano e aí se demorou até maio seguinte; a disciplina e ordem em que conservou a guarnição captaram-lhe a benevolência das autoridades inglesas. Lorde Auckland, chefe do Almirantado, Sir John West, Sir Samuel Pynn, Sir John Luís fizeram dele tantos elogios ao agente diplomático do Brasil, em Londres, o Sr. Marques Lisboa, que este cavalheiro, ao visitá-lo a bordo da Constituição, disse-lhe com a maior efusão de prazer: "Estou na Europa há 14 anos e é hoje o primeiro dia em que, saudando a nossa bandeira digo: — Patrícios, vós me encheis de orgulho chamando-me brasileiro." A volta da fragata, em 1847, o sr. Cândido Batista, nomeou-o membro da comissão por ele próprio presidida que, como conselho naval tratava de todos os negócios da Marinha e fez-lhe os mais brilhantes elogios oficiais, que foram transcritos em sua fé de ofício.

Em abril de 1848 foi estacionar para a Bahia. Ameaçada de uma rebelião a província de Pernambuco foi para ali mandado com a fragata tomar o comando das forças navais, o que teve lugar em princípios de novembro; chegou a ter debaixo de suas ordens onze navios com mais de 1.200 praças de guarnição. A testa de perto de 500 homens, achou-se nas ruas do Recife no lutuoso dia 2 de fevereiro de 1849; perdeu 23 homens e teve 62 feridos, dos quais 7 oficiais. Destas 500 praças eram 32 do vapor Jifonso chegado às 11 horas da noite de 31 de janeiro sob o comando do bravo e honrado barão de Tamandaré (Joaquim Marques Lisboa).

Em 14 de março de 1849 foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra. A 26 de maio de 1850 tomou conta da inspeção do arsenal de

marinha da corte, em que serviu até 14 de novembro de 1854. No decurso destes quatros anos e meio ultimou a construção da corveta Baiana, construiu a corveta Imperial Marinheiro, o brigue Maranhão, o brigue-escuna Tonelero e o vapor Ipiranga, provendo sempre as necessidades de outras construções miúdas e reparos de navios. Muitas outras obras revelaram o tino e a atividade com que dirigiu nesse tempo o serviço do arsenal.

Em 1852 foi promovido a chefe de divisão, e em 1854, depois de grave moléstia e de acurado tratamento, foi removido para o lugar de capitão do porto da corte e província do Rio de Janeiro.

Durante a epidemia desse ano climatério fez parte da comissão paroquial de Santa Rita, esmolando de porta em porta em favor dos infelizes acometidos da peste, e obteve com os mais membros da comissão cerca de 4:000$, que foram despendidos em tão caridoso fim. Estabeleceu também uma mesada à enfermaria da marinha, enquanto funcionou no quartel de Bragança.

A 2 de novembro de 1855 foi nomeado encarregado do quartel-general da marinha, cargo que exerceu até 21 de novembro do ano passado, tendo sido promovido a chefe-de-esquadra em 2 de dezembro de 1856.

Em agosto de 1858 foi nomeado membro efetivo do conselho naval, onde serviu sempre o lugar de vice-presidente. Foi presidente da comissão de presas desde janeiro de 1856 e dos conselhos de administração e de compras. Outras muitas comissões científicas, económicas e administrativas lhe foram confiadas, na gestão das quais se houve com tanto acerto e inteligência, que delas se lhe mandou lançar notas honrosas em seus assentamentos.

SS.MM., el-rei de Portugal, e o imperador dos franceses, o honraram, aquele com o hábito da Ordem da Torre e Espada, e este com a comenda da Legião de Honra. Tem mais as comendas de S. Bento de Aviz e de Cristo.

Pediu a demissão do quartel-general e do conselho naval porque, na elevada patente em que se achava, não podia nem devia, sem quebra da dignidade que sempre prezou, sofrer certas desatenções que, repelidas com o impulso de brios mal compreendidos, empeceria sem dúvida a marcha regular do serviço e da disciplina, de que é estrénuo observador. Preferiu pois reduzir-se ao minguado soldo de terra e conde-nar-se a ostracismo voluntário.

Da comissão de presas, de que era presidente e a que deu todo o desenvolvimento, desembaraçando-a de dificuldades extraordinárias e pondo-a em via fácil de conclusão, desse encargo, que ele desempenharia sem estipêndio algum, foi exonerado pelo sr. ex-ministro da Marinha.

Se não houvesse outras provas do modo útil e dedicado por que serviu o lugar do quartel-general, bastariam as publicações do almanaque de marinha e a compilação das ordens gerais, produtos de sua atividade investigadora e lucubrações literárias.

Obteve a carta de Conselho em virtude de disposição da lei que criou o conselho naval.

Outros fatos da vida militar do ilustrado general se poderiam aduzir a estes apontamentos biográficos, mas a angústia do espaço desta galeria não comporta análises e desenvolvimentos, o que deu origem também ao programa que fica traçado.

Na vida civil e particular do distinto chefe-de-esquadra há fatos, que demonstram ainda o elastério de sua atividade inteligente e produtiva; desses porém não é possível fazer menção, porque entendem com a modéstia, que ele se ufana em guardar nos atos de sua vida.

Por decreto de 2 de março do ano atual foi nomedo ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha, cabendo-lhe mais a honra de acumular a interinidade da pasta dos negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, ministério de que foi o primeiro encarregado, visto como a essa época começava o seu exercício.

A marinha deposita toda a confiança nos profundos conhecimentos profissionais do seu atual ministro, que considera uma de suas glórias. Possa ele elevá-la ao grau de perfeição a que tem direito e que é o seu desiderato, para execução do qual não basta todo o entusiasmo, que por ela professa desde que principiou a trajar o botão de âncora. Entretanto todos esperam que S. Ex^ muito fará para corresponder à expectativa do augusto e ilustrado Imperador que o elevou a tão eminente cargo do estado.

Rio de Janeiro, 22 de maio de 1861.