Galeria dos Brasileiros Ilustres/Miguel de Frias e Vasconcelos

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Miguel de Frias e Vasconcelos


Miguel de Frias e Vasconcelos nasceu a 15 de outubro de 1805. Filho de um militar (o tenente-coronel Joaquim de Frias Vasconcelos), seguiu a carreira de seu pai e assentou praça como cadete no 1º Regimento de Cavalaria aos 15 anos de idade. Oficial de artilharia daí a três anos, ele procurou logo ilustrar o seu espírito e seguir o curso da Escola Militar. Merecendo distinção pelos seus progressos e atividades, adiantou-se seguidamente nos postos até o de major graduado.

Estava ele encarregado da repartição do quartel-mestre general quando se deram os acontecimentos de março de 1831. Não temos de fazer neste momento uma apreciação histórica daqueles acontecimentos, nem o desfecho material de uma relução que estava feita nos espíritos. Sabe-se o procedimento sensato e verdadeiramente nacional que teve o exército naquela quadra. Só diremos que o oficial mandado em 6 de abril a São Cristóvão pelo general Francisco de Lima ao Imperador D. Pedro I representar-lhe sobre a situação foi Miguel de Frias, e que a resposta que lhe deu o Imperador foi entregar-lhe o seu decreto de abdicação e proferir estas palavras: "Diga aos brasileiros que estimarei que sejam muito felizes".

O homem, que ouviu as últimas palavras que D. Pedro soltou como Imperador do Brasil, compreendeu desde então a fragilidade das posições elevadas e tomou consigo o compromisso de viver pelo povo e com o povo.

O que ele fez por essa idéia, se nem sempre foi justificado pela razão calma, pode-se assegurar que partiu das inspirações ardentes de seu generoso caráter.

Afrontando o perigo e a morte, ele era o primeiro que se expunha quando se tratava de combater por um princípio que lhe merecia assentimento.

Uma vez (a história o refere largamente) ele chegou a encon-trar-se só: então pagou com o exílio a sua coragem; e depois, não podendo estar longe da pátria, veio submeter-se a um julgamento militar.

Na sua carreira militar Miguel de Frias foi um dos mais valentes pacificadores da revolta dos soldados estrangeiros em 1828: serviu com grande distinção no Rio Grande do Sul de 1842 a 1844, e na campanha do Estado Oriental, sob as ordens do general marquês de Caxias, que o requisitou para chefe do estado-maior.

Como homem de ciência, esteve em várias comissões, e em todas elas adquiriu um nome honroso. Foi diretor do Arsenal de Guerra, presidente da comissão de melhoramentos do material do exército e di-retor das obras públicas desta corte, quer civis, quer militares.

O povo desta capital recorda-se com gratidão que os esforços de Miguel de Frias, auxiliado pela franca coadjuvação do Ministro do Império marquês de Mont'Alegre, devemos o encanamento das águas de Maracanã, que libertou-nos das grandes calamidades por que passávamos em certo período dos anos anteriores, e tornou esta cidade a mais notável do mundo a este respeito.

Também nunca cidadão algum obteve uma prova de tanta simpatia e consideração como Miguel de Frias do povo desta capital. Em 1852, procedendo-se à eleição municipal, foi ele eleito presidente da Câmara com 4.451 votos, principalmente das freguesias da cidade; e, tendo o governo anulado essa eleição, maior número de votos concorreu às urnas em favor daquele nome, que ficou de novo colocado no primeiro lugar dos vereadores.

Passou então a tomar a iniciativa em muitas medidas que até ali só pudera aconselhar ou indicar. O povo, sempre com os olhos nele, foi acompanhando e aplaudindo todos os seus passos, todo o seu empenho em dotá-lo com os melhoramentos que as forças e recursos da municipalidade permitiam.

Pode-se dizer de Miguel de Frias que foi o último homem verdadeiramente popular nesta corte. Nos derradeiros dias de sua vida, já angustiado pela moléstia e condenado pelos médicos, era ele procurado como o conselheiro e o protetor dos desvalidos.

Inteligências elevadas iam praticar com o enfermo, porque no contato com o seu nobre caráter sentiam-se mais fortes para resistir ao egoísmo que nos tem invadido.

Suas virtudes eram símplices e sem aparato; suas aspirações pessoais modestas; seu patriotismo ilimitado.

Depois de ter sido útil ao seu país, como militar e como engenheiro, mostrou que, para seu grande coração, beneficiar a sua pátria no horizonte que lhe fora circunscrito, não era bastante; votara-se também à educação da infância desvalida; entrara no horizonte da humanidade.

Zeloso pela educação dos meninos pobres, era desde muitos anos o presidente da Sociedade Amante de Instrução, que, recolhida ao silêncio da modéstia, tem feito serviços da maior utilidade. Para que essa benéfica instituição se firmasse em uma base sólida, Miguel de Frias, por esforço de probidade e economia (e esse louvor cabe também aos seus companheiros da direção), acumulou um capital de 100.000$, que assegura o futuro das escolas da sociedade.

Esses dotes especiais que não pudera manifestar no comércio dos homens, e nas lides de sua afanosa vida de militar e engenheiro, mostrou auxiliando e empregando a maior solicitude por uma instituição dessa ordem.

Graças a ele, essa instituição prosperou tanto, que pôde assegurar asilo e educação aos que são lançados no mundo só para sentir todo o abandono e isolação.

Fiel representante das virtudes dos belos tempos da independência, tinha todo o patriotismo dos grandes vultos que neles figuraram, e toda a honradez, toda a simplicidade de costumes que tornam o homem venerado pelas massas.

O brigadeiro Miguel de Frias mostrou que a classe militar pode ilustrar-se por mais de um título. Como militar, sua espada representava o valor; como homem de ciência, ganhou renome ao mesmo tempo o reconhecimento e elevadas simpatias do nosso público; como homem de caráter, toda a sua vida é um belo exemplo a seguir.

Foi por todos esses títulos que ele se ergueu tanto, e gravou seu nome no coração do povo.

No meio deste ele parecia um desses tributos moderados que outrora inspiravam-lhe amor e dedicação à pátria. Não se elevara senão por seu atos; se as circunstâncias o tivessem revelado mais cedo, melhor teria sido julgado; o povo compreenderia desde logo tudo que havia nele de digno e de nobre.

Nas lutas instestinas, na última luta com o estrangeiro, Miguel de Frias prestou relevantíssimos serviços. Tão modesto como patriota, entendia que cumprindo, ou indo mesmo além de seus deveres, nada fazia que merecesse tantos sinais de estima e distinção da parte de todos aqueles que, não pertencendo ao povo, o julgavam sem prevenção e sem inveja.

O nome de Miguel de Frias e Vasconcelos não se inscreverá ao lado dos que deixam as notabilidades políticas do nosso país; porém terá uma memória não menos duradoura: existirá na nossa história militar e na história dos melhoramentos de nossa capital; existirá sobretudo no coração do povo.

Se lhe faltassem outros títulos de recomendação à saudade dos homens de bem, bastar-lhe-ia esta singela inscrição no túmulo: "Foi o protetor da infância desvalida".

O distinto fluminense, brigadeiro Miguel de Frias e Vasconcelos, faleceu no dia 25 de maio de 1859.