Gavião, gavião branco (Cancioneiro de Paris)

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Gavião, gavião branco
por Anónimo
Cantiga renascentista portuguesa do Cancioneiro de Paris.


Gavião, gavião branco,
Vai ferido e vai voando.

Vai-se pondo nas estrelas,
Triste, cheio de queixumes,
Derramando mil querelas,
Todas pelos seus ciúmes.
D’alto se vai aqueixando,
Vai ferido e vai voando.

As penas lhe vão caindo,
E outras lhe vão crescendo,
Ainda que vai morrendo,
Cada vez vai mais subindo.
Gritando de quando em quando,
Vai ferido e vai voando.

De contino, triste voava,
Desejando d’acabar,
Com as penas que levava,
Já não podia chegar.
Coa morte pelejando,
Vai ferido e vai voando.

N’alma é sua ferida,
Já não pode ser curado,
Vai-se-lhe acabando a vida,
Não se lhe acaba o cuidado.
Assi vai triste, penando,
Vai ferido e vai voando.

As feridas não cobertas,
Que ele leva com as penas,
E por irem tão secretas,
Queixasse que são pequenas.
Muitas mais vai desejando,
Vai ferido e vai voando.

Subiu-se o triste coitado,
Tão alto co pensamento,
Que do mais alto elemento,
Se sustenta seu cuidado.
E assi se vai queimando,
Vai ferido e vai voando.

Com penas que lhe nasceram,
Do cuidado que em si tem,
Voou tão alto e tão bem,
Que as que tinha lh’esqueceram.
E por mais vai suspirando,
Vai ferido e vai voando.

Quer de todos ser gabado,
Pois que tão alto voou,
Que donde perdeu achou,
Que em justo ser penado.
Suas penas vai louvando,
Vai ferido e vai voando.

O sangue que dele corre,
As penas lhe vai tingindo,
Ele só as vai sentindo,
Sentindo também que morre.
De seu mal desesperando,
Vai ferido e vai voando.