Geraldo Lapenda

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Geraldo Lapenda
por Palhares Moreira Reis
Publicado originalmente em Diário de Pernambuco, em 13 de janeiro de 2005.


Pouco depois de ter completado 79 anos, desapareceu de nosso convívio o professor Geraldo Calábria Lapenda, que durante muitos anos foi formador de estudantes e estudiosos de línguas em diversos estabelecimentos de ensino em Pernambuco.
Geraldo Lapenda, oriundo de Nazaré da Mata, neste Estado, menino ainda foi estudar no Rio de Janeiro, no seminário católico então dirigido por seu tio e, em seguida, prosseguiu seus estudos visando o sacerdócio, em Roma.
Quase no fim dos seus cursos, perto da ordenação, entendeu não ter havido, de modo efetivo, a vocação, o chamamento para o sacerdócio, voltando para o Brasil. Se tivesse continuado na trilha sacerdotal, possivelmente, teria sido bispo, do mesmo modo que D. José Lamartine, seu colega de turma.
Ao retornar ao Recife, foi convidado para ser professor assistente de Língua e Literatura Italiana, na Faculdade de Filosofia de Pernambuco da Universidade do Recife, no início dos anos 50, época em que eram estudantes e diretorianos diversas figuras que se destacavam naquela faculdade e que, depois, igualmente se destacaram na vida acadêmica e profissional no Recife: Joaquim Correia, que foi Presidente local da OAB, José Adolfo Pereira Neves, hoje falecido, o autor destas linhas e Maria Clementina Rego Barros, professores da UFPE, Nilton Siqueira, procurador-geral também da UFPE, dentre outros. Com Maria Clementina casou-se Lapenda pouco depois, e dessa união nasceram três filhos, Ana Lúcia, igualmente professora de Letras na UFPE, como os pais, Marcos José, engenheiro da Chesf e Marcelo, advogado, hoje no Tribunal Regional Federal.
Geraldo Lapenda era fluente em inúmeros idiomas, não apenas os tradicionais europeus, como o português, espanhol, francês e inglês, dos nossos cursos ginasiais e colegiais, como igualmente o italiano, o latim, o grego e o tupi. Daí ter sido professor de muitas dessas línguas, tendo o seu mérito ressaltado quando da posse como professor num dos cargos, pelo colega Lucilo Varejão Filho, num discurso intitulado “Para que serve um professor de grego?”
Suas teses de concurso – além de catedrático do “Ginásio Pernambucano” era mestre, doutor e docente livre na Universidade Federal – sempre versavam sobre temas inexplorados, como a “Tendência do latim ao analitismo”, e a “Estrutura da língua iathê”, onde desbrava os íntimos da língua dos índios pernambucanos.
Afora outros trabalhos, igualmente relevantes, que seria fastidioso relacionar. Igualmente era bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco.
Na Universidade Federal de Pernambuco, no fim dos anos 70 exercia a coordenação do curso de Letras e, por eleição, tinha assento no Conselho Universitário e no Colégio Eleitoral para a escolha de reitor e de vice-reitor. No dia em que haveria a eleição da lista para substitutos do reitor Paulo Maciel e seu vice, encabeçou a lista para reitor o prof. Geraldo Lafayette Bezerra, que foi conduzido pelo ato presidencial. Para vice-reitor, foi Geraldo Lapenda surpreendido com a inclusão do seu nome na lista sêxtupla, ao lado de outros docentes, de modo a alterar a composição que, se pensava, teria a benesse ministerial. Qual foi a surpresa de todos – e maior ainda a dele mesmo – quando o ministro Eduardo Portella escolheu o nome do seu antigo mestre para aquele cargo. A comunicação de que tinha sido nomeado pelo presidente foi, inicialmente, por ele recebida com sendo um “trote”, porém logo confirmada pela publicação do ato no Diário Oficial.
Como vice-reitor participou de inúmeras reuniões dos Conselhos de Reitores e de outros órgãos superiores, e, mais tarde, com o falecimento do reitor Lafayette, assumiu o Reitorado e promoveu a eleição e encabeçou a lista da qual sairia a escolha do reitor George Browne Rego. O autor testemunhou, no aeroporto dos Guararapes, o diálogo entre a ministra Esther Ferraz e Geraldo Lapenda, quando este, instado para aceitar o cargo, declinou expressamente da possível escolha presidencial.
Nossos laços de amizade e de coleguismo profissional se ampliaram com casamento entre seu filho Marcos com minha filha Sophia, havendo, dos seus 5 netos, dois que nos são comuns.
Poucos recordam, salvo os mais íntimos, que Geraldo Lapenda cantava, e bem, músicas populares, em português e em italiano, e por vezes, animava viagens de ônibus, usando o microfone do guia para cantar “a capella” para nossa alegria, como naquelas dos “Amigos do Porto”, em Portugal. Faleceu no último dia 19 de dezembro. Mesmo tendo se afastado do sacerdócio, continuava firme na sua fé e na crença na vida pós-morte, onde estará, seguramente, recebendo os merecidos prêmios e velando pelos seus e seus amigos que ainda estão por aqui.