Girândola de Amores/XXI

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Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo XXI: À beira do precipício


O comendador principiava a sarar das suas mortificações; voltava pouco a pouco aos seus antigos hábitos; ia-se final­mente restituindo ao amor pela vida e aos gozos tranqüilos que lhe permitiam os anos.

A dura morte das suas duas adoradas filhinhas anuviara-lhe o semblante, azedara-lhe o gênio, mas não lograra quebrar-lhe a linha.

Nas crises do seu mais fundo desgosto jamais desmanchara o penteado ou amarrotara os punhos. Chorou sempre engra­vatado e limpo; as lágrimas correram-lhe livremente pelo rosto escanhoado, e os suspiros saíram-lhe da boca impregnados de cheiroso dentifrício. Por triste e magoado não esqueceu ele nenhum dos requisitos do cavalheirismo com as pessoas que lhe foram dar pêsames; e, no meio da grande opressão, encon­trou galanterias sutis para oferecer às damas que o acompa­nharam naquele inconsolável transe.

Não perdeu o prumo, o que ele perdeu foi o apego da esposa, porque entre os dois cônjuges se havia intrometido a pujante figura do Portela.

Meter no coração de qualquer família um homem, que não seja parente imediato e por conseguinte solidário natural da sua dignidade e da sua honra, eqüivale quase sempre a meter um poraquê num tanque de outros peixes. O choque produzido pelo elétrico intruso é o bastante para destruir os companheiros de casa.

Teresinha descobriu no Portela todas as regaladoras qua­lidades físicas que não encontrou no marido. Até aí fazia ela um juízo bem triste do amor; julgava-se desiludida a esse respeito.

— Sempre supunha que fosse outra coisa! confidenciara a uma amiga poucos dias depois do casamento.

O amante, porém, logo lhe invertera radicalmente tão falso ponto-de-vista, apresentando-lhe o amor pelo brilhante prisma da mocidade, da força e do arrebatamento da paixão. Teresinha ficou surpreendida, ficou maravilhada.

— Quanto havia sido injusta! dizia depois consigo, toda palpitante de felicidade.

E, desde então, tudo se transformou em torno dos seus sentidos: o mundo exterior apresentava-lhe agora encantos inesperados; tudo lhe sorria, tudo a namorava, tudo lhe falava com uma voz afetuosa e doce. Os seus gostos e as suas apti­dões intelectuais foram acordando, como ao toque da varinha encantada de uma fada. Achava prazer na leitura, nos diver­timentos, no trabalho, na preocupação dos arranjos da casa, e até, o que é mais extraordinário, principiava a experimentar pelo marido certa simpatia respeitosa e compassiva. O comen­dador, até então, era perfeitamente insuportável a Teresa; ela não o podia ver com a sua calva escondida nos longos fios de cabelos emplásticos, com o seu inalterável ar de diplomata aposentado, e com o seu olhar entorpecido através dos óculos. Antes de raiar a aurora do seu amor com o caixeiro, ela por mais de uma vez tivera ímpetos de esbordoar o marido, quando o via de costas, meio vergado sobre a mesa de trabalho, com o pescoço embainhado no enorme e teso colarinho. O cheiro da água-de-colônia fazia-lhe engulhos, porque esse era o per­fume predileto do comendador.

Entretanto, à proporção que Portela lhe despertava os sentidos entorpecidos e lhe acordava nas veias o latente calor do sangue, Teresa ia se conformando com o marido e a ele se prendendo por uma espécie de amizade filial.

Dormiam em quartos separados. Pela manhã, Teresa sal­tava da cama, fazia a toilette cantarolando, enfiava uma flor no cabelo e ia logo cumprimentar o marido, que a essas horas, já pronto e preparado, tornava o seu chá preto no gabinete de trabalho.

Ela o beijava na face, perguntava com pieguices de criança, como o seu "paizinho" havia passado a noite e depois de fazer-lhe uma festinha no queixo escanhoado, afastava-se, muito sacudida e escorreita, para a chácara, onde suas plantas a esperavam.

O comendador notava com satisfação as mudanças que a mulher ultimamente apresentava. Nunca a vira tão meiga, tão satisfeita e tão carinhosa com ele; já não o tratava secamente como dantes, agora, ao contrário, tinha sempre uma palavra afetuosa, um riso agradável para recebê-lo e já não lhe chamava mais "Seu Ferreira", como antigamente; agora ela só o tratava por "Seu velho", por "Seu paizinho", por "Seu nhonhôzinho".

Mas, uma noite, o comendador, aproximando-se da mulher, ficou muito surpreendido de a encontrar esquiva.

— Não! dizia Teresa, com um gesto entre meigo e re­preensivo; não!... Deixe disso!...

Parecia que o comendador lhe propunha alguma coisa ilícita. O fato afigurava-se a Teresa como uma espécie de incesto. Queixou-se de que estava indisposta, fingiu muito sono, e, como o marido insistisse, levantou-se zangada e deixou escapar uma frase grosseira. O comendador ficou pasmado.

No dia seguinte houve frieza entre o casal; e a graça é que Teresinha era justamente dos dois a que se mostrava mais ressentida. O desventurado marido contou discretamente o fato ao Jacó.

— Hum! hum! resmungou o criado com um profundo ar de desconfiança. E aconselhou ao amo que abrisse os olhos com a mulher.

Por esse tempo deixara o Portela a casa do comendador. Teresa muito sentida com a mudança, não pôde esconder total­mente o seu desgosto; mas o rapaz aparecia de vez em quando e havia de passar os domingos em sua companhia.

Ele com efeito cumpriu a promessa; porém as suas visitas, longe de acalmarem a mulher do dono da casa, traziam-na em constante martírio. Não havia meio de ficarem a sós; ora Olímpia, ora o comendador, ora o Jacó, não os deixavam um momento em liberdade. Portela era de uma discrição e de uma prudência desesperadoras; estava sempre receoso de que lhe surpreendessem alguma palavra ou algum gesto compro­metedor.

À mesa Teresinha tocava-lhe nos pés e nas pernas, e ele se retraía todo, a olhar para os lados. Se ela se demorava um pouco a apertar-lhe a mão, quando Portela chegava ou se despedia, ele lhe opunha um olhar severo e não lhe dava mais palavra.

E Teresa sofria muito com tais contrariedades. Aquele amor era toda a sua preocupação, o seu bem, a coisa boa de sua vida; era aquele amor o que lhe dava a alegria, o apetite, o sono; privarem-na dele seria privá-la da saúde e por bem dizer da existência. Levassem-lhe tudo, com a breca! posição social, regalias de dinheiro, jóias, casa, o que quisessem; con­tanto que lhe deixassem aquele amor! Sem ele do que lhe poderia servir o resto?!

E, quanto mais lhe obstavam o curso dos desejos, quanto mais lhe cortavam a ela os meios de se aproximar do amante, mais este lhe enchia o coração e lhe tomava o espírito. A corrente ameaçava transformar-se em pororoca; o amor, se insistissem em represá-lo, podia de súbito converter-se em paixão louca e desenfreada.

Um mês depois de sair da casa do comendador, Portela recebeu o seguinte bilhete:

"Meu Luiz. — Arranja, por amor de Deus, uma casa, um lugar, qualquer parte, onde nos possamos encontrar. Não posso mais! Marca uma hora e eu lá estarei sem falta. —Tua T."

Portela sentiu um grande prazer ao receber estas palavras, mas ao mesmo tempo teve medo.

— Não fossem vir a saber!... considerava ele. Era o diabo!

Durante toda a noite não pensou noutra coisa. Seu desejo, estimulado pela falta dos carinhos da amante, encarecia-lhe as saudades e fazia avultarem na sua memória os encantos de Teresa. Não podia sossegar: o corpo pedia-lhe aquele amor com uma exigência irracional; desejava amar como o faminto deseja comer.

No dia seguinte, quando foi à casa da mulher do comen­dador, levava pronta a resposta em um pedacinho de papel, receoso de não ter ocasião de falar com ela.

Arranjara de antemão um cômodo no campo de Santana. O lugar nesse tempo prestava-se maravilhosamente para as empresas desse gênero.

A entrevista seria às onze e meia da manhã. Portela apre­sentara-se às dez, muito aflito.

Nunca se sentira tão sobressaltado: desde a véspera que o coração lhe pulsava agoniadamente; não pudera comer, nem pudera dormir. Doía-lhe levemente a cabeça e amargava-lhe na boca o gosto do fumo de que ele, naquelas últimas horas, abusara. Não tinham decorrido dez minutos, quando se ou­viram duas pancadinhas na porta da saleta.

Portela correu a abrir.

Ainda não era Teresa; era o homem encarregado de limpar a casa.

Luiz Portela atirou-lhe um olhar interrogativo.

— Vinha varrer o quarto, explicou aquele, um pouco per­turbado por não conhecer o novo locatário.

— Deixe isso para outra ocasião, aconselhou este.

E, quando o outro ia a sair, acrescentou entregando-lhe uma nota de dois mil reis:

— Traga-me uma garrafa de cerveja e guarde o resto.

O homem voltou com a garrafa, abriu-a, encheu um copo de cerveja e retirou-se. Portela fechou de novo a porta, depois de ter recomendado que precisava ficar só.

Mas não podia sossegar um instante: ia da alcova à janela, da janela à sala; abria um livro sobre a mesa, não conseguia ler duas linhas; sentava-se, para se levantar logo ao menor rumor que sentia na escada.

E Teresa nada de aparecer. Portela tornava-se cada vez mais inquieto e mais sobressaltado. Estava indisposto; os goles de cerveja caíam-lhe no estômago como pedras.

Os minutos arrastavam-se lentamente. Ele acendia cigar­ros consecutivos; e passava de vez em quando pelo espelho, olhando a sua figura um pouco desfeita pela irregularidade daquele dia.

Deram as doze. Portela perdeu a paciência.

— Ora! exclamou ele, gesticulando consigo. Isto não se faz! Há duas horas que estou aqui a olhar para as moscas! Mas suspendeu as suas considerações, porque sentiu parar na rua uma carruagem e ouviu, logo em seguida, passos agitados subirem a escada.

O rapaz deu uma carreira para a porta; abriu-a; e disse apressadamente para quem acabava de chegar:

— Aqui! É aqui!

Teresa vinha vestida de preto; um véu cobria-lhe o rosto, e toda ela tremia de comoção. Ao entrar, descobriu logo a cabeça; estava muito pálida e assustada. Portela recebeu-a nos braços e levou-a para o sofá. Ela não podia dar uma palavra.

— Descansa, descansa um pouco, dizia ele, a desafrontá-la do chapéu e da capa.

— Ah! suspirou a mulher do comendador, como quem des­carrega a consciência de um grande peso e, sem dar uma palavra, pendurou-se ao pescoço do rapaz e ficou a olhar para ele com a voluptuosidade de quem bebe com muita sede. De­pois principiou a conversar; disse que estivera arriscada a não poder vir ter ali: todos pareciam acertados em contrariá-la. Narrou pormenores, contou as pequeninas circunstâncias que precederam à sua saída de casa.

Portela ouviu tudo isso com muito interesse, mas o seu sobressalto, longe de diminuir com a chegada de Teresa, avul­tava cada vez mais.

— Felizmente, acrescentou ela, tenho uma amiga íntima, uma rapariga de muita confiança, que foi minha companheira de colégio e a quem revelei todo o nosso segredo...

— O quê? interrompeu Portela contrariado. Pois meteste mais alguém neste negócio?!...

— Ah! É que tu não conheces a Chiquinha... daquela não temos que recear coisa alguma... Não! lá por esse lado estou segura!

— Sim, sim, volveu o rapaz, cada vez mais preocupado; mas é que as coisas podem mudar de um dia para outro! Quem nos diz a nós que a tua Chiquinha há de ser sempre a mesma discreta?...

Teresa censurou aqueles receios do amante.

— Ó homem, disse ela, você também tem medo de tudo! Safa! nem eu que sou mulher! Ah! se eu fosse homem!...

— Mas bem, disse ele; como afinal conseguiste vir?

— A Chiquinha foi buscar-me a casa para darmos um passeio. Eu estou passando o dia com ela.

— Sim, mas isso é um expediente de que se não deve abusar. No fim de pouco tempo desconfiariam...

— Não tenho medo por esse lado. Além disso, eu não podia deixar de estar hoje contigo! Se soubesses como tenho passado!... Ah! é uma coisa horrível! Era impossível resistir por mais tempo! Ando estonteada, louquinha!

E, tomando a cabeça de Luiz Portela, disse-lhe com os lábios encostados aos dele:

— Tu me enfeitiçaste! Tu és a minha perdição!

— E o comendador?... perguntou Portela, sem correspon­der àquelas carícias; não desconfia ainda de coisa alguma?...

Teresa respondeu com um gesto muito expressivo. E acrescentou depois, com um ar mais sério:

— Coitado! nem lhe passa semelhante coisa pela idéia!

Portela fez ainda várias perguntas sobre o Jacó, sobre Olímpia, sobre as pessoas que apareciam em casa do comen­dador. Teresa respondia por comprazer.

Aquele assunto frio e cheio de prudências a irritava:

— Deixa lá isso! respondeu ela. Ainda não me deste um beijo!...

Portela apressou-se a cumprir essa ordem, mas a rapariga notou que o impulso não era natural. O amante parecia fora de si.

— Estás insuportável, exclamou ressentida.

Portela confessou que se achava sobressaltado.

— Não sei o que tenho! disse ele. É a primeira vez que me acho neste estado. Sinto tremores pelo corpo. Olha como tenho as mãos frias!

— Eu também estou assim! respondeu ela, abraçando-se ao rapaz. Mas não podia deixar de vir! Afigurava-se-me que morreria se não estivesse hoje contigo... Ah! tu não calculas o que isto é! Que noite! Que dias! Tudo me enjoava, tudo me fazia nervosa! Não podia suportar ninguém! Se soubesses como eu ficava, quando te via perto de mim sem te poder falar! Oh! Luiz! um verdadeiro suplício!

E interrompeu-se, reparando que o rapaz, em vez de lhe prestar atenção, parecia preocupado com outra coisa.

— Mas que diabo tens tu hoje?! Estás distraído! Quase que não olhas para mim!

Portela respondeu puxando-a para os joelhos e cobrindo-a de carícias. Naquela ocasião fazia ele essas coisas por con­descendência, por honra da firma. E Teresa compreendeu tudo perfeitamente.

— Já não gostas de mim! queixou-se ela, tornando-se igual­mente pensativa.

— Que idéia a tua! respondeu o outro, procurando fazer-se apaixonado. Nunca te amei tanto! Nem sei mesmo onde isto irá parar!...

— Mas então por que estás assim tão esquisito?!...

— Sei lá, disse ele, mas não me sinto bem...

Dai a duas horas Teresa entrava de novo no carro e seguia para a casa da tal amiga.

Ia furiosa. Portela naquela entrevista não levara, absolu­tamente, nenhuma vantagem ao comendador.

— Já me não ama! repisava consigo a leviana no seu desa­pontamento. Já me não ama!

E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Ao contrário do que sucedera com o marido, a frieza inci­dental de Portela, em vez de a fazer aborrecê-la, puxava-a cada vez mais para ele com todos os liames do desejo e do ciúme.

Depois daquela entrevista, Teresa de novo piorou de gênio, tornou-se frenética e nervosa; voltou a tratar o marido por "Seu Ferreira", e a não poder suportar Olímpia, nem o Jacó. As suas plantas na horta foram abandonadas; afinal já não cantarolava à costura e estava sempre a pedir que a não importunassem.

Portela, como todo homem fútil, ficara igualmente muito preocupado com o malogro da entrevista, e tratou de realizar uma nova, só com a vaidosa intenção de destruir o mau efeito da primeira. Depois seguiram-se outras, e outras; até que o rapaz alugou em Catumbi uma casinha adequada aos seus amores e principiou a receber a amante, regularmente, duas vezes por semana. No fim de dois meses já se riam eles dos seus primeiros sobressaltos.

Teresa tornara-se um pouco descuidada com a vizinhança. Já não tinham entre si a menor cerimônia; tratavam-se já como velhos amigos, à vontade, cônscios de que qualquer um faria falta ao outro, por uma questão de hábito. Já não havia entro eles frases apaixonadas, havia agora as pilhérias da intimidade velhaca e pagodista.

Teresa possuía uma chave do latíbulo, entrava sem sobressaltos, mudava de roupa, porque ela já tinha roupa em casa do Portela, e depois esperava que chegasse o amante.

Um dia apareceu fora da hora em que costumava, e disse resolutamente que não estava disposta a voltar para o lado do marido.

Portela fez um grande ar de surpresa.

— É o que te digo! sustentou ela; não volto!

— Mas filha, pense um pouco antes de fazer semelhante asneira! Tu sabes que nem tudo neste mundo são rosas!...

— Ora! respondeu ela, sacudindo os ombros. Estou farta de ouvir conselhos!

— Mas é que eu...

— Não podes ter mulher, não é isso?... Ora escuta lá e depois me darás a resposta...

— Então já tens um programa?! perguntou Portela, a sorrir.

— Um programa? Sim, e tenho também coisa ainda melhor! tenho um dote, disse ela; um dote em ações, que me fez meu marido por ocasião de casarmos...

— E daí?... perguntou o rapaz.

— Daí é que deixamos o Rio de Janeiro; metemo-nos em qualquer província ou onde melhor te pareça, e tu te estabe­leces com o meu dote, o que será fácil, pois, com o talento que possuis para o comércio...

— Isso é asneira!

— Asneira, por quê?!

— Porque, desde que abandones o comendador, nenhum direito terás ao dote que ele te fez.

— Diz a Chiquinha que não.

— A Chiquinha não entende disto!

— Eu então não tenho direito a coisa alguma?!

— Sei cá; só um advogado o poderia dizer...

— O que me parece é que tu não tens vontade de ficar comigo...

— Não sejas tola! Se não tivesse já o teria declarado há mais tempo.

E, depois de guardarem ambos um silêncio de alguns segundos, Portela disse vagamente:

— Se o comendador se lembrasse de morrer agora!... Isso é que seria obra!...

Teresa olhou para o rapaz com um ar cheio de interro­gações.

— É! justificou ele; se o comendador morresse, as coisas correriam naturalmente... Eu casava-me contigo, estabele­cia-me, e iríamos viver juntos, independentes e felizes...

E acrescentou, depois de uma pausa:

— Imagina que amanhã teu marido amanhece indisposto. Vem o médico e declara que a moléstia não é de cuidado. "Achaques da velhice!" Recomenda regularidade na vida, abstinência de uns tantos prazeres e receita qualquer calmante. O comendador principia a tomar o remédio, mas, de dia para dia, se vai sentindo pior. Afinal, uma bela manhã, quando ninguém espera por isso, encontra-se o homem morto... O médico passa o seu atestado; tu te cobres de luto, recebes as visitas de pêsames das amigas, choras naturalmente em pre­sença de algumas delas, e, um ano depois, os nossos amigos lêem com prazer a notícia do nosso casamento... Uma vez casados, iríamos morar aí em qualquer arrabalde, escolhería­mos um chalezinho próprio para a lua de mel... Eu tratarei de te fazer esquecer a perda de teu comendador, e tu serias minha, minha, sem sobressaltos, nem receios ridículos, perten­cendo-me a todas as horas e a todos os momentos!

E Portela, depois de beijar e abraçar a amante, continuou como se falasse em um sonho:

— Parece que já me vejo dentro dessa felicidade, voltando à tarde aos teus braços, cansado do trabalho, comido pela fa­diga, mas com o coração satisfeito por encontrar-te em casa alegre, viva, contente com o nosso amor! Parece que pressinto as nossas noites de casados: calmas, doces, descansadas!

Teresa suspirou.

— Devia ser delicioso!... continuou Portela. Uma exis­tência completa entre nós dois!... A mesa bem provida; a casa bem iluminada; o amor bem confortado!...

— Cala-te! disse Teresa.

— Além disso, os passeios, os bailes, as noitadas de pa­lestra com os amigos, em volta à mesa de chá. Depois a nossa independência, o nosso bem-estar, a nossa felicidade!...

Teresa ficou pensativa.

— Não achas que tudo isso seria muito melhor?... per­guntou-lhe o rapaz, beijando-lhe os braços carnudos.

— Se acho!...

— Pois olha que está tudo em tuas mãos! segredou ele.

— Hein?! Como?! Estás gracejando!

— Não! Para tudo isso era bastante que o comendador morresse.

Teresa estremeceu e abaixou os olhos, receosa de compreender o pensamento do amante.

— Vês este frasquinho? perguntou Portela, tirando um frasco de uma gaveta. Tem cinqüenta gotas. Dando-se uma delas por dia ao comendador, no fim de um mês ele morreria, sem que ninguém soubesse qual o motivo...

— Veneno!

— Sim, mas muito lento!... É um veneno quase ino­cente...

— Não tenho ânimo de fazer isso! balbuciou Teresa, per­turbada em extremo.

— Nem eu te aconselho que o faças; apenas disse que, se nos tivéssemos de desembaraçar dele, devíamos preferir este expediente a outro qualquer...

— Ele me ama tanto!...

— Pois então, filha, deixa-te ficar como estás. Ora essa!

— Mas eu não o posso suportar!

— Não o suportes!

— Mas não posso mais viver sem o teu amor!

— Então não sei o que te faça!

— Antes, fugíssemos! Ficaríamos, bem sei, em uma posi­ção muito mais falsa, mas teríamos ao menos a consciência tranqüila...

— Pois isso é que não estou disposto a fazer! Lá fugir, ser talvez perseguido, vir a sofrer qualquer afronta, ter, quem sabe? de comparecer a tribunais, não é comigo! Gosto muito de ti, não há dúvida! tu és a única mulher pela qual seria eu capaz de fazer uma infâmia; mas arranjar as coisas de modo que, afinal de contas, viesse a ficar privado tanto de ti como da minha liberdade, isso é o que não faço! porque, vamos e venhamos! continuando o comendador a existir, que diabo de felicidade pode ser a nossa?!... vivermos por aí odiados, escondidos, sem poder gozar coisa alguma?! Ora seria isso um inferno para qualquer um de nós! Ao passo que, não existindo o comendador, fico eu herdeiro de todos os seus direitos. Tu nesse caso, não serás minha amante, serás minha esposa; eu te poderei levar para toda a parte, apresentar-te dignamente em todas as rodas, e, o que é melhor, viver sosse­gado, sem ter de evitar conversas a teu respeito, sem ter de quem recear e de quem fugir!...

— Mas é abominável matar uma criatura! considerou Teresa, ofegante.

— Ora, filha! abominável é um velho daqueles lembrar-se de casar contigo! Que diabo! quem não quer ser lobo não lhe veste a pele! Pois aquele homem não devia logo com­preender que tu não te poderias contentar com ele?... Para que então casou?! Se algum de vocês dois tem razão, és tu, minha tola, porque tu foste a lesada, foste a vítima! Casando-te, levaste um capital de mocidade, de frescura e de amor; tinhas direito a exigir de teu noivo uma parte correspondente! Se o matares, não farás com isso mais do que cortar a grilheta com que te amarraram os pés! Eras inexperiente, não tinhas sequer idéia do que fosse a vida, a felicidade conjugal; teu corpo de virgem nada exigia, porque nada conhecia. Entretanto; um homem, decrépito e inútil, ambicionou amarrar o teu des­tino ao dele; pediu-te à tua família; ele era rico: deram-te ou, melhor, venderam-te. Mas tu, um belo dia, acordaste, mulher; tiveste então as tuas aspirações, os teus desejos; o amor recla­mou os seus direitos! Bem; o que te competia decidir em semelhante caso?! Das duas uma: ou abraçares o papel de vitima e resignar-te a aturar o trambolho a que te prenderam; ou então reagires, entregando-te francamente ao homem que escolhesses. Tu escolheste um; fui eu! Agora está dado o passo; voltar atrás seria loucura, e para prosseguir, só há um meio: é dar cabo do comendador!

— Mas isso é um crime horrível! respondeu Teresa, segu­rando a cabeça com ambas as mãos.

— Crime horrível, torno-te a dizer, foi o teu casamento com aquele velho! Isso é que é um crime horrível, porque é a morte sem a morte, é a morte sem a insensibilidade e sem o esquecimento!

— Em todo o caso, considerou a rapariga, desafrontando o peito com um enorme suspiro; se ele se casou comigo, é por­que me amava e porque supunha fazer-me feliz!...

— Criança! exclamou o outro com um gesto de compaixão. Porque te amava! Grande fúria, na verdade! Compreendo que houvesse nesse amor alguma porção de generosidade e abnegação, se fosses uma mulher feia e difícil de suportar; mas tu, moça, encantadora e cheia de atrativos; tu que tens esses olhos, esses dentes e essas carnes, não podes, nem deves receber como um obséquio o amor que porventura te consa­grem. Não! porque esse amor nada mais é que urna manifes­tação do egoísmo! O comendador casou-se contigo, não para te prestar um serviço, mas sim para prestar um serviço a ele próprio. Amou-te por amor dele e não por amor de ti! Não há por conseguinte no ato de teu marido a menor idéia de sacrifício e de abnegação. Mas, dada a hipótese que ele não se limitasse a dar-te unicamente o nome de esposa e te desse também todos os regalos que se possam imaginar na vida, ainda assim não haveria nas suas ações a menor intenção altruísta, porque, se ele fizesse tudo isso, era simplesmente porque sentiria muito prazer em te agradar e estaria, por con­seguinte, tratando de deliciar o seu próprio gosto!

— Acredito!... volveu Teresa meio convencida; mas é que...

— Em todo caso, filha, uma coisa única tenho a dizer-te e é que, no pé em que estamos, eu, só me casando contigo, tomarei conta de ti; de outro modo, não! Não quero, porque sei que iria criar futuras dificuldades. Vai para casa, pensa bem no que me ouviste, e depois então decidiremos!...

— É que já não me amas! disse Teresa, limpando os olhos.

— Ó senhores! não te amo! Mas eu estou justamente disposto a casar contigo, e dizes que não te amo?! Ora deixa-te de tolices!

Teresa retirou-se para casa muito abatida e contrariada. O amante colocara a questão em pé deveras espinhoso para ela; mas enfim, era preciso tomar uma deliberação. No dia seguinte estaria tudo decidido.

Os desgraçados, porém, não sabiam que Jacó havia se­guido a mulher do patrão nesta última entrevista e, oculto, ouvira tudo o que os dois disseram.

Vejamos agora como chegou ele a fazer semelhante coisa, e quais foram as tempestuosas conseqüências do seu ato.