Gradesc'a Deus que me vejo morrer

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Gradesc'a Deus que me vejo morrer
por Fernán Gonçalves de Seavra


Gradesc'a Deus que me vejo morrer
ante que mais me soubessem meu mal,
ca receei saberem-mi-o mais d'al.
E os que cuidam mais end'a saber,
       praz-me muito porque nom sabem rem
       de que moiro, nem como, nem por quem.
  
De m'entenderem havia pavor
o que m'eu sei eno meu coraçom.
Mas já que moir', assi Deus me perdom,
os que viverem, pois eu morto for,
       praz-me muito porque nom sabem rem
       de que moiro, nem como, nem por quem.
  
Pero choravam estes olhos meus
com mui gram coita, sempre me calei,
que nunca dix'ũa cousa que sei.
Mais como quer que mi o haja com Deus,
       praz-me muito porque nom sabem rem
       de que moiro, nem como, nem por quem.
  
E bem tenh'eu que me fez Deus i bem
porque mia coita nom forçou meu sem.