Guerra dos Mascates/II/XV

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Guerra dos Mascates por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo XV: O Nuno estréia-se na carreira das armas pelo rapto das sabinas

Com pouco chegou um dos camaradas trazendo um coco verde, que apanhara ali perto. A água e depois a geléia reanimaram o Lisardo, e deram-lhe forças para esperar a refeição que veio de Olinda, e constava de uma açorda e vinho.

Instado por Nuno, o poeta referiu-lhe em poucas palavras o segredo de sua desesperada posição:

— Naquele mesmo dia, em que à tua vista me correram de Olinda, como um ingrato e falso, tornando ao Recife. para beber nos olhos dela um conforto de que precisava, fui também despedido a seu mandado como um mendigo importuno!

— Belinhas?...

— Ela!.

— Soube não sei como, que eram meus os versos contra as damas de Olinda... E eram; mas tinha-os feito por ordem de D. Severa; e jamais com intenção de ofender aquela que eu adorava como a luz de minh'alma.

Nuno cogitava.

— Então, concluiu o poeta, pensei que já não tinha que fazer na terra e chegando aqui, me deixei morrer. Por que me chamaste de novo a este mundo, onde nada mais sou do que um espectro?

— Hás de ser marido de Belinhas, que o mando eu! exclamou o Nuno com um entono picaresco.

Um dos camaradas passou para a garupa do outro, e no cavalo devoluto acomodou-se o Lisardo, que apesar da fraqueza pôde manter-se na sela.

Por ordem do azougado rapaz, seguiu a esquadra para o Recife, que achou em alvoroto com a nova do horroroso insulto feito ao governador.

Em vez de hesitar no plano que traçara, o Nuno ao contrário mais se apressurou.

Já vimos como chegou à casa do pai, onde não o conheceram nem a mãe, nem a irmã, por causa da viseira que trazia descida; pois o escudeirinho não relaxava a couraça e capacete, que apesar de já não serem da moda, davam-lhe ares mais guerreiros.

Foi reconhecendo Lisardo, que a menina Belinhas soltara o grito de espanto, que afugentou da sala, como sombras que se evaporam, a Senhora Rosaura e o insigne Capitão Miguel Correia.

A. menina, porém, deixou-se ficar ainda que trêmula e perturbada. Apesar do susto, sentia uma vontade irresistível de saber o que desejava ali aquela tropa que tinha por um dos cabos o Lisardo.

Entrou na sala o Nuno, com um tremendo espalhafato guerreiro, de arrastado de espada, batido de esporas e roncarias de peito, puxando pelo braço o Lisardo que fazia o possível por desvencílhar-se da corriola.

— A Senhora Isabel Viana, ou a menina Belinhas, que no Parnaso é conhecida por Belisa, está presa à minha ordem por ter praticado certa ingratidão com o seu poeta e adorador aqui presente. E como tão bárbaro crime não há de ficar sem punição, vai a ré deste passo acompanhar o Senhor Lisardo de Albertim á primeira igreja, onde conjugará com ele o verbo matrimônio. Tenho dito.

Belinhas, que havia conhecido a voz do irmão, riu-se mau grado das garotices do rapaz; e consentiu, toda envergonhada, que ele pusesse na mão fria e trêmula do Lisardo a ponta de seus dedos mimosos. Pensava ela que tudo aquilo não passava de uma comédia, e tinha razão; mas. a comédia não acabava ali.

Enquanto na sala isto ocorria, os cabras, entrando no armazém por ordem de Nuno à busca de uma liteira, deram com uma pipa de torneira assentada sobre o tendal a jeito de escorrer o líquido.

Um dos cabras logo pôs-se de gatinhas a mamar naquela teta apojada e os outros impacientes esperavam sua vez. Um, porém, mais sôfrego deitou os olhos ao redor e descobriu um pichel de lata:

— Isso de bica atrasa muito. Eu cá vou com o. púcaro à fonte.

Dito e feito. Trepando no cavalete para deitar o tampo dentro, viu com surpresa que já a pipa fora arrombada; porém maior foi seu espanto descobrindo ali uma cabeça.

— Olá, temos conserva!

— Que história é essa?

— Uma cabeça de molho!

— Um corpo inteiro!

— Oh! diabo!

— Não me matem! murmurou a pipa. Eu prometo...

Sabidas as contas, era o nosso Capitão Miguel Correia que se pusera de conserva na pipa do vinho.

O que lhe valeu foi a pressa com que estava o Nuno, a quem não fazia conta a volta do pai. Bem desejava ele dar um abraço à mãe, porém temia as ternuras da velha.

Dois cavalos da tropa foram metidos nos varais da liteira, que em poucos momentos ficou prestes.

— Toca a andar. Senhor Lisardo de Albertim, ofereça o braço á sua dama.

O nosso poeta, que ainda não proferira uma palavra, estava alheio a quanto se passava em torno e enlevado na contemplação de Belinhas.

— Onde me quer você levar, Nuno?

— À casa de Marta.

— Sem a mãe?... Não vou.

— Vais, te digo eu, que não estou para ver o Lisardo morrer segunda vez!

— Ele?... balbuciou a menina lançando ao amante um olhar de exprobração.

— Quem traz dentro de si morta toda a esperança, já não é mais homem., é só fantasma de uma alma penada que pede a sepultura, disse Lisardo.

A menina enxugou uma lágrima, e Nuno aproveitando-se da comoção, tomou-a nos braços quase sem resistência e levou-a à liteira, que logo partiu para Santo Antônio.

A menina gritou pela mãe; esta, porém, escondida na cozinha, não a ouviu.

A casa do Perereca estava fechada. Ao rijo bater da lança do Nuno acudiu um escravo, que ficou espantado vendo a patrulha.

— Arreda, tição, quero entrar.

— O senhor não está aí

— E a mulher?

— Também foi com ele para palácio.

— E a filha?

— Essa está ai, sim senhor.

— É quanto basta.

Entrou o Nuno com o costumado arreganho e esparrame na sala onde estava Marta.

— Venho buscar a menina por mandado de sua mãe.

— Para palácio?

— Sim! roncou o cavaleiro.

Marta, aborrecida e assustada de estar sozinha em casa, preparou-se logo e entrou na liteira onde ainda mais contente ficou por encontrar Belinhas.

Nesse momento um vulto que viera da Penha e esbarrara com a casa cercada de gente armada se esgueirava ao longo da cerca. O Nuno o descobriu e deu ordem de agarrá-lo:

— Que é isto, Cosme? Foge dos amigos?

— Eu... eu... Nuno...

— Tenho que agradecer-lhe umas amizades que fez aqui ao nosso Lisardo. Ponham-no de garupa; e olho no meco.

A tropa de novo pôs-se de marcha, mas em vez de tomar para o lado do palácio, seguiu pela praia na direção dos Afogados; e pouco depois atravessava a Boa Vista, caminho de Santo Amaro. O Nuno preferira para voltar a Olinda esse rodeio que era mais seguro.

Marta, que já sabia pela amiga quem era o façanhudo cavaleiro armado de ponto em branco, e desconfiava da embrechada, vendo assomarem as torres do palácio ao longe, pela esquerda, abriu a cortina da liteira:

— Oh! senhor, este não é o caminho do palácio.

— Não; mas é o da Igreja de Santo Amaro.

— E que vamos nós lá fazer?

— A senhora vai desposar-se com o escudeiro Nuno, Peitod'Aço; sua amiga com Lisardo de Albertim, nobre trovador olindense.

— Eu não quero, não quero, não quero! disse a menina batendo com a mãozinha fechada na borda da liteira.

— Quero eu; e basta.

— Eu te mostrarei!

E a gentil menina escondeu-se amuada dentro da liteira, para fugir ao olhar do Nuno, que nesse momento ela detestava.

Entretanto chegava o pelotão a Santo Amaro, e acampava em frente da ermida.

Tinha anoitecido, mas fazia um desses luares esplêndidos do Norte que parecem auroras boreais.

O Nuno despachou dois cabras em busca do capelão, ou de qualquer outro padre mais próximo, com ordem terminante de trazê-lo ali, ainda que fosse amarrado.

Enquanto se fazia a diligência, deixou ele o Lisardo com alguns homens de guarda à liteira, e afastou-se com o Cosme Borralho e um dos cabras para o mato vizinho. Ali chegando, mandou pelo camarada cortar um grande molho de cansanção.

— Cosme Borralho, meu amigo, você desde certo tempo a esta parte anda cheio de maus humores.

— Não há tal!... acudiu o escrevente.

— E por falta de mezinha, essa reima está-lhe atacando a língua com achaques de enredeiro e maldizente.

— É um falso testemunho, Nuno; não acredite!

— Pois eu não hei de acreditar que você anda achacado? Se não fosse por moléstia, o Cosme, nosso camarada, havia de andar intrigando o Lisardo aqui no Recife e em Olinda?

— Juro que não fui eu!

— É doença, não digo? Sou seu amigo, Cosme; quero curá-lo dessa ruim praga. Dispa-se até ficar em pêlo para levar uma fricçãozinha com que você sara logo.

— De cansanção? exclamou o escrevente sarapantado.

— É uma planta medicinal; produz na pele umas coceiras que acabam com as comichões da língua.

— Está bom, Nuno, já você se divertiu com suas chacotas; agora deixe-me ir.

— Alto lá! Desate os calções.

— Nuno!

— Deixe-se de sestros. Se você não quer que eu, seu amigo, lhe sirva de enfermeiro, e lhe aplique o emplastro com todo o cuidado, então deixo-o nas mãos deste machacaz e com ele se avenha.

O Cosme engrolou, sofismou, e remanchou quanto pôde; mas afinal fazendo boa cara à má fortuna resignou-se a levar a surra de cansanção, que o Nuno administrou-lhe conscienciosamente.

— Vá consolado, Cosme, que você agora fica são como um pero.

O escrevente fez uma careta de raiva, mas não a viu o Nuno, cuja atenção nesse momento foi reclamada por clamores que partiam do lado da povoação. Correu ele à ermida, inquieto acerca da liteira.

Ao chegar à praça a achou cercada por um bando armado; e viu que uma peleja renhida se travara junto à liteira, onde o Lisardo esgrimia uma catana com o desespero de um cego. De um salto achou-se o rapaz ao lado do amigo, pronto a morrer com ele.

Nesse ponto, porém, um cavaleiro que escoltava uma formosa dama apareceu na praça.

— Que temos? perguntou o cavaleiro com o tom imperioso.

Os assaltantes dominados por aquela voz recuaram, suspendendo o combate; e as cortinas da liteira abriram-se de repente, mostrando o lindo rostinho de Marta, amarrotado do susto:

— Primo Vital Rebelo, acuda-nos!

— A menina Marta?

— A própria.

— Que faz por aqui?

— Isso é uma história.

Do como ai se achava o Rebelo, vamos sabê-lo.

Testemunha do insulto que sofrera o governador, Vital depois do primeiro momento dado à surpresa e desgosto que lhe causava o triste acontecimento, pensou que seu plano ficaria frustrado se o não realizasse imediatamente. Correu à sua casa da Boa Vista,, fez montar a gente que já tinha preparada, e correu a Olinda.

A nota do desacato já ai tinha chegado e a todos deixara atônitos. O bispo, os principais da nobreza, e entre eles André de Figueiredo, tinham acudido pressurosos a palácio para visitar o governador e dar solene testemunho de que não tinham a menor parte no criminoso intento.

A escolta de Vital Rebelo chegou à Rua de São Bento sem o menor contratempo. Leonor estava à janela. Vital subiu, arrebatou a esposa nos braços e desceu à rua. Ai montou-a no palafrém que a esperava, e partiram de Olinda pelo caminho de dentro para evitar encontros.

Na frente ia uma ronda para segurar o caminho, e evitar a Leonor o susto de achar-se envolvida em alguma peleja. Foi essa vanguarda que, vendo gente armada no pátio, cercou-o com intenção de aproximar-se à liteira, ao que se opôs o Lisardo.

Sabedor das façanhas do Nuno, o Vital mais ou menos atinou com a explicação daquela salsada; além de que o Nuno não se fez rogado para confessar. A pergunta do que ali fazia àquela hora respondeu:

— Estou à espera de um padre para casar Belinhas com Lisardo, e Marta comigo.

— E o consentimento de meu primo Simão Ribas e do Senhor Viana, já o deram?

— Em tempo de guerra, não há necessidade disso. Estas damas foram libertadas por mim e podem dispor livremente de sua mão.

Riu-se Vital.

— Pois que estamos em tempo de guerra, declaro-os meus prisioneiros, e ponho estas damas sob a proteção de minha esposa. Vinde D. Leonor, que vos apresento uma linda priminha, a quem não conheceis, e sua amiga, que não é menos formosa. Vereis que no Recife também como em Olinda viçam, as rosas.

A resistência era impossível. Nuno o reconheceu vendo os seus sequazes agarrados pela gente de Vital, mais numerosa e melhor armada. Assim teve ele de entregar-se prisioneiro como o Lisardo, e acompanhou a liteira à casa do alferes na Boa Vista.

Marta, que estava desesperada com a diabrura do Nuno, ficou um tanto desconsolada por não ver até onde iria o atrevimento do rapaz, e Belinhas a acompanhava nesse pesar.

Por aquele tempo eram presos ao sair de palácio o Capitão André de Figueiredo e Luís Barbalho, escapando de igual sorte muitos outros dos principais de Olinda, que lograram fugir a tempo.

XV

NO QUAL SE ACABA A CRÔNICA JUSTAMENTE QUANDO IA COMEÇAR A GUERRA DOS MASCATES

Amanhecera o Recife em alvoroço.

Os moradores desde o nascer do sol percorriam as ruas em bandos, com ares festivos e trajos domingueiros.

A maior afluência era para o Largo da Cadeia, no centro do qual via-se uma fábrica recente, à semelhança de coluna, que se havia erguido durante a noite, e ali estava coberta por um grande pano de rás desde o cimo até a sapata.

Esse objeto excitava no mais alto ponto a curiosidade da populaça que parecia contemplá-lo corno um troféu. Nesse momento, nenhum dos arruadores lembrava-se da infâmia e dos tratos com que o ameaçava talvez o sinistro monumen to.

Era um pelourinho..

Depois do desacato à sua pessoa, decidiu-se o governador a castigar a rebeldia dos pernambucanos, a quem seus íntimos injustamente imputavam o crime. Ameaçados de sorte igual à de André de Figueiredo e outros os principais da nobreza tinham fugido de Olinda e andavam foragidos pelos engenhos, onde os buscavam as escoltas que Sebastião de Castro lhes mandara no encalço.

Uma das medidas em que logo se cogitou como a mais própria para bater a arrogância dos nobres, foi a da imediata criação da vila do Recite e como as pedras do pelourinho desde muito estavam lavradas no Forte da Madre de Deus, dispuseram-se as cousas para a cerimônia.

Era este o dia destinado para a festa da proclamação da vila e por isso o poviléu do Recife, ancho e presumido de si regozijava-se pelo triunfo que haviam alcançado sobre a velha e fidalga Olinda.

Por volta das oito horas da manhã, desfilou pela Rua de São Francisco o préstito que saía do palácio e dirigia-se a Praça da Cadeia. Abria a marcha, sobre o seu andor, a imagem de Santo Antônio, o padroeiro da futura vila a que se ia levantar a povoação do Recife

Seguiram-se logo as irmandades das duas freguesias com seus guiões e balandraus, e após elas o Santíssimo Sacramento que o vigário de São Pedro Gonçalves conduzia debaixo do pálio, acompanhado pelos ministros de El-Rei, oficiais, milicianos, e mais pessoas da governança da terra Sebastião de Castro, ainda enfermo dos ferimentos não assistia a cerimonia e fazia se representar pelo Secretário Barbosa de Lima e o Ajudante Negreiros.

No couce, os terços de infantaria, em um dos quais o dos homens brincos empunhava a gineta de capitão o nosso Miguel Correia, bizarro e desempenado como devia ser um guerreiro curtido em vinho da Figueira.

Chegada a procissão em frente á cadeia, deu três voltas ao redor do largo, e entrou a cerimônia religiosa. Em um altar volante que se levantara em face do pelourinho, e onde foi depositado o sacrário, celebrou-se a missa que terminou com a bênção do padrão da vila.

Concluindo a consagração, o ministro segurou uma ponta do pano de rás, que abrindo-se descobriu o pelourinho. Então o Dr. Luís de Valenzuela Ortiz que substituíra na ouvidoria ao Dr. Arouche, subiu. os degraus de pedra, e do alto aclamou a vila com as palavras do costume:

— Real, real, por El-Rei de Portugal!

Repetido mais duas vezes este brado, e em todas correspondido pela multidão, disse afinal o ouvidor:

— Está criada a vila de Santo Antônio do Recife!

Ai prorromperam os vivas e clamores festivos, subindo ao ar os fogos de artifício que se dispararam de vários pontos da cidade, e os repiques alegres dos sinos de todas as igrejas.

Passou-se a lavrar o auto da criação, e para esse fim arrumaram junto ao pelourinho uma banca onde veio aboletar-se a figura sempre esconsa e refolhada do Cosme Borralho. O Pisca-Pisca tocara a meta, obtendo por empenho da Senhora Rufina a serventia do ofício de tabelião do novo concelho.

Nessa qualidade fora chamado para fazer na cerimônia as vezes de escrivão da Câmara, enquanto se não elegia quem servisse o ofício. Já de todo livre dos efeitos do cansanção, o Cosme enfronhado em garnacha nova, trazia a cavalo na orelha direita uma pena de ganso com a rama tão garrida e matizada, que parecia uma bandeira.

Lavrado o auto, lido perante o povo e assinado pelos ministros, oficiais e gente principal, mandou o ouvidor apregoar a conselho chamando os vizinhos e moradores para a eleição dos juizes, vereadores, almotacés e mais oficiais da nova Câmara.

Juntos na casa do concelho os homens bons da nobreza e povo, que se tinham dado a rol anteriormente, procedeu-se à escolha dos eleitores que deviam formar os pelouros, servindo neste ato de juiz ordinário o Simão Ribas, por nomeação do ouvidor.

Teremos outra vez ocasião de assistir a uma eleição do tempo do rei velho, e então veremos que as tricas e manejos da cabala têm origem mais antiga do que geralmente se pensa.

As janelas estão abertas; há dentro alegre burburinho, e toda a casa respira tal ar de festa que até a parede da frente parece mais sarapantada, ou para usar da frase do estudante, mais perereca do que de costume.

Se a miuçalha que se apinha na frente e invade as portas e janelas, nos deixasse olhar para dentro da sala, veríamos duas filas de damas e meninas, todas no maior apuro, com roupas de seda e cintos broslados de prata e ouro.

Felizmente abre-se neste momento a chusma para dar passagem ao Sr. Simão Ribas, o qual volta do conselho, onde acaba de ser eleito juiz ordinário, e vem entufado como um peru de roda. Acompanham-no seus amigos, o Viana e o Costa Araújo, que também saíam do pelouro de vereadores, e o Rev. Padre João da Costa, além de outros mercadores da primeira plana.

Entremos após eles, com o nosso Cosme Borralho, o qual vem ao cheiro do banquete com que o chefe dos mascates se propõe a festejar a sua eleição.

Passada a primeira confusão produzida pela entrada do dono da casa e açodamento com que o foram receber à porta seus hóspedes e parentes, podemos dar uma breve descrição da sala que apresenta todas as mostras de grave cerimônia.

Em frente acha-se o venerando almotacé, como seus dignos colegas e amigos, enfronhado em um gibão carrança de belbute, com uma volta de laçada, cujas tiras pendentes ao peito têm as amplas proporções de toalhas.

Traziam todos a indispensável cabeleira ruça e alto bengalão de rotim com castão de prata dourada, o que naquele tempo era um traço imprescindível no trajo senatorial. Com essas cabeleiras e bengalas, a crermos o autor dos Mártires Pernambucanos, tinham os respeitáveis senadores de serem escovados algumas semanas depois pelo Capitão-Mor Pedro Ribeiro da Silva.

A esquerda alinha-se pelo estrado uma fila de damas entre as quais, além de Leonor cuja formosura cativa a atenção, distinguem-se logo a Senhora Rufina pelo seu empertigamento, e a Senhora Rosaura pela pachorrenta gordura. Entre as respeitáveis matronas ficavam suas filhas, nesse dia mais lindas que nunca. Ambas tinham a cabeça baixa, mas uma não tirava a vista do chão, e era Belinhas, enquanto os olhinhos travessos de Marta andavam bisbilhotando todos os cantos da casa.

À direita estava arrumada de pé a chusma dos convidados Via-se aí toda a espécie de cara, como toda a casta de vestuário, desde o casquilho alfacinha e o folgazão do minhoto até o arrevesado galego, que ainda não tivera tempo de polir-se ao atrito da boa roda.

Também lá apareciam no meio dessa galeria reinícola os tipos da terra, como fossem o sertanejo e o matuto, representados em alguns exemplares preciosos que os mascates haviam atraído a seu partido.

Quando o venerando ex-almotacé e agora juiz ordinário tomou assento, Vital Rebelo que se achava na sala e havia saudado à chegada, foi ao interior da casa, donde logo voltou, guiando dois mancebos, em que apesar do trajo garrido, fácil era conhecer o Nuno e o Lisardo.

O ex-escudeiro de D. Severa tinha perdido todo o seu arreganho marcial e caminhava sobre brasas, enquanto o tímido e sensitivo poeta expandia-se nessa atmosfera de sala para a qual nascera sua alma.

Seria fazer pouco na perspicácia do leitor, supor que ele já não percebeu do que se trata. Todavia sou capaz de apostar que ainda não atinou com a verdade inteira; e se assim não é, feche o livro, pois sabe mais do que ele.

A noite em que Vital Rebelo de volta de Olinda com sua noiva aprisionou os dois casais de namorados em Santo Amaro, não cuidou senão em dar-lhes hospitalidade, e de tão boa vontade e por modo solícita, que se não lembrassem eles nas horas mortas de bater a linda plumagem, sobretudo o Nuno, afamado por suas estrepolias.

O mais do tempo, consagrou-o à sua felicidade. E quem, depois de um ano tão curtido de amarguras e desesperos, lhe podia pedir conta dessas poucas horas de egoísmo? E demais, devia ele deixar só naquela noite a sua Leonor, a esposa querida que acabava de conquistar ao ódio dos parentes? Não seria expô-la a qualquer temerário arrojo dos nobres, excitados pelo sentimento da vingança e pelo rebramo do orgulho ofendido?

No outro dia, cedo; depois de tomar todas as precauções necessárias para defender sua habitação de qualquer assalto de fora, como para guardar a saída aos seus prisioneiros, partiu ele a cavalo para casa do primo Simão Ribas, com quem teve uma longa prática.

O resultado dessa prática foi partirem imediatamente as Senhoras Rufina e Rosaura para a casa de Rebelo; e trazerem em cadeirinhas bem fechadas as filhas, que já choravam perdidas ambas, supondo-as roubadas pelos pés-rapados, sedentos de vingança contra os mercadores.

Quanto ao Nuno e ao Lisardo, continuaram hóspedes de Vital Rebelo até aquele dia em que o mancebo, fornecendo-lhes trajos de gala e cavalos ajaezados, os trouxera à casa do Simão Ribas, onde os achamos neste momento.

Vital Rebelo tomou pela mão ao Nuno e levou-o á presença do Viana, que o esperava com severa carranca. Ajoelhou o filho aos pés do pai, e balbuciou algumas palavras pedindo-lhe perdão de sua culpa e a restituição da bênção.

— Está perdoado, disse o Viana em barítono, dando ao filho a mão a beijar. Levante-se, e agradeça ao Sr. Vital Rebelo que intercedeu em seu favor.

Voltou-se o Nuno para o alferes o qual lhe deu um abraço. O Viana continuou.

— A pedido do mesmo Sr. Rebelo consinto que sente praça na milícia com o posto de alferes que ele cede em seu benefício.

Desta vez foi o Nuno que abraçou com entusiasmo seu protetor.

Agora chegue-se cá, moço, disse a Senhora Rufina, e ouça-me bem. Você está muito criança ainda para casar...

— Dezoito anos... quis protestar o Nuno.

— Dezesseis, menino! acudiu a Senhora Rosaura.

— Está vendo. Lá para os vinte, se comportar-se como homem, não digo que não. Até então pode ver sua noiva, na missa aos domingos, ou aqui em casa nas quatro festas do ano.

Marta, ao ouvir falar em noiva, fez-se de lacre e Nuno escondeu a careta que lhe merecera o programa da Senhora Rufina.

Entretanto Rebelo, que não concluíra ainda a sua missão de patrono dos namorados, fora buscar o Lisardo para apresentá-lo ao Viana.

— Quanto ao senhor, disse o mercador, fica em minha loja no lugar de caixeiro que deixou o tonto de seu camarada, e nessa qualidade, se me servir bem e for regrado, trabalhador e econômico, prometo-lhe a mão de minha filha Isabel aqui presente.

—Poltanto, acrescentou gravemente o Simão Ribas, não plecisa mais fazel velsos.

— Contra os de Olinda, pode fazer, acudiu a Senhora Rufina.

— Nada de versos; tornou o Viana. Aprenda-me a fazer contas e a conhecer o valor dos algarismos. Com isso sabe-se tudo.

— Tem lazão, tem muita lazão o meu lespeitável amigo. Vamos pala a mesa que nos espela.

Deixemos que o excelente Senhor Simão Ribas e seus convidados festejem nas delícias do suculento banquete o triunfo alcançado pelos mascates com a criação da vila; e aproveitemos estas últimas páginas para dar alguma breve noticia dos outros personagens da crônica.

Toda a nobreza abandonara Olinda e se refugiara nos engenhos, onde preparava-se não só para a resistência, como para a desforra que em poucos dias ia começar com o levante do Capitão-Mor de Santo Antão, Pedro Ribeiro da Silva.

D. Severa acompanhara os parentes, inconsolável pela perda de seu poeta e de seu escudeiro, porém ainda mais por não ter podido chamar Sebastião de Castro a combate singular, onde se despicasse da afronta que ele mandara fazer à sua beleza.

Poucos dias depois da criação da vila do Recife, Vital Rebelo aproveitando a saída de um navio para a Bahia, levou a sua querida Leonor às pitorescas assomadas do Salvador, onde se deslizou serena e florida a sua primavera nupcial.

Induziu-o a esta viagem, não somente o desejo de desvanecer no espírito de Leonor a lembrança da oposição de seus parentes, como a previsão dos sucessos que iam enlutar. a capitania, e nos quais, ele presente, não podia eximir-se de tomar uma parte dolorosa ao coração de sua esposa.

Efetivamente, a revolta dos pernambucanos tomara de dia em dia maior incremento.

Sebastião de Castro, já de todo restabelecido dos ferimentos, começava a sentir em palácio o isolamento, infalível sintoma dos desastres iminentes. As catervas de homens têm o mesmo instinto dos rebanhos que pressentem o temporal, e fogem ao perigo.

Ele reconheceu, então já tarde, o erro. Seu imenso poder e a sua política dissolvente haviam tudo esmagado e diluído em torno dele; de modo que no dia da provança, quando se julgava cercado de amigos e aliados, não viu ao redor senão miragens de sua própria vontade, que ele animara com seu prestígio e com este se apagavam.

Não eram homens aqueles vultos que ainda povoavam as salas do palácio; e sim os manequins do governo ainda movidos pela mola da ambição e da cobiça. Mas como a corda do maquinismo estava prestes a acabar, já os movimentos eram frouxos e incertos.

O Barbosa de Lima acompanhou-o até o último instante com uma fidelidade nunca desmentida; mas continuou no cargo de secretário, e nele atravessou todo o período da guerra dos mascates, até 1712 em que partiu para Lisboa.

Espalharam então que fora a mandado dos mascates e ganhando pingue espórtula, mas isso não passou de uma das muitas calúnias tão freqüentes naquele tempo e a que não escapou o próprio Sebastião de Castro, apesar de seu proverbial desinteresse.

Não é este o momento de referir os sucessos que puseram termo ao governo de Sebastião de Castro Caldas, e que pertencem à crônica seguinte. Esta termina com o primeiro e efêmero triunfo dos mascates, e com a instalação da vila do Recife.

Anteciparemos porém este ponto: que Sebastião de Castro mostrou-se na adversidade o varão forte de Horácio, a quem as ruínas de seu fastígio não esmagam, mas ao contrário exaltam, como um pedestal.

É o destino dos homens fadados para a dominação. O poder e a fortuna os expande; e eles absorvem ou repelem quantos se lhe aproximam. O revés e a desgraça os concentra, e então eles acham dentro em si um mundo onde se isolam.

Na noite em que Sebastião de Castro embarcava na rampa de palácio para transportar-se a bordo do navio que devia conduzi-lo à Bahia, diversas pessoas o acompanhavam.

Destas, algumas eram os principais mercadores que, temendo as represálias dos nobres, fugiam à má fortuna; outras eram gente da governança e oficiais de sala que desempenhavam pontualmente uma obrigação de seu ofício, vindo prestar ao fidalgo aquele último dever.

Só uma era estranha ao governo, e desconhecida para aquela gente. Sebastião de Castro Caldas reconheceu Carlos de Enéia, seu antigo secretário, e compreendeu que o trazia ali o desejo de render a homenagem de seu respeito à adversidade, já que, não lhe era dado conjurá-la.

FIM