Herói Númen, Herói soberano

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Ao dezembargador Dionizio de Avila Varreyro ouvidor geral do civel deste estado do brazil indo à Porto Seguro prender trinta e sette facinorosos que andavão roubando, e matando naquela povoação, sòmente com cincoenta soldados desta praça e alguns índios, lá aggregou acção que sem o favor divino não podera conseguir esforço humano.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsJuízes de Igaraçu

1Herói Númen, Herói soberano,
Cujo esforço, e conceito peregrino
Transcende os termos do limite humano,
E quase logra foros de divino:
Ouvi, se é, que as grandezas do Oceano
Cabem neste clarim tão pouco fino,
Que mais preclara tuba, e voz merece
Cam.Quem a tamanhas cousas se oferece.
  
2Tu, que abres o cristal da Aônia fonte,
Ó doce Musa, se até agora ingrata,
Solta a corrente, porque em verso conte,
O que só cabe em lâminas de prata:
Fecunde esse cristal tão duro monte,
Que se fluido, e belo se desata.
Eu farei, que se admire no universo
Cam.Se tão sublime preço cabe em verso.
  
3Sê pródiga comigo, porque vejo,
Que hei de cantar proezas levantadas,
E do ouro, que cria o Lago Tejo
Te farei uns pendentes, e arracadas:
Põe, Musa amada, fim ao meu desejo,
E terás para o colo as congeladas
Lágrimas puras, e no dedo amante
Cam.Outra pedra mais clara, que diamante.
  
4Nesta do mundo a mais mimosa parte,
Em cujo soberano, e fértil pólo
Vos reconhece o mundo novo Marte,
Onde vos representa novo Apolo:
Inculcando o valor, engenho, e arte
Inveja dos murmúrios de Pactolo,
Mostrastes nesta ação, que tudo alcança
Cam.Em uma mão a pena e noutra a lança.
  
5Para vencer os fortes adversários
Vibrastes valeroso a dura espada,
Para prender aspérrimos contrários
Inculcastes idéia celebrada:
Valor, e engenho foram necessários,
Porque soubesse a fama remontada,
Partistes tão guerreiro, quão fecundo
Cam.Ameaçando terra, mar, e mundo.
  
6Com insultos, e roubos aleivosos
Não perdoando vida, casa, ou muro
Trinta e sete cruéis facinorosos
Roubam a Povoação Porto Seguro:
Para castigo destes criminosos
O fado destinou celeste, e puro
Esse braço, esse peito, esse conselho
Cam.Para leais vassalos claro espelho.
  
7Eram tiranos tais, e de tal sorte,
Que com nenhuma valia o medo, ou rogo,
Despojavam, feriam, davam morte,
Os povos assolando a ferro, e fogo
Qual atrevido rompe o muro forte,
Qual temerário cerca a casa logo,
Qual sem mudar cor, gesto, ou semblante
Cam.Salteia o descuidado caminhante.
  
8Incultas matas nunca penetradas,
Subterrâneas cavernas, triste seio
Destes vandidos eram as moradas
Do maior coração maior recreio:
Aqui com tiranias desusadas
Era comum no roubo o bem alheio,
Deixando os povos, sítio, bens, e gados
Cam.Mortos, perdidos, e desbaratados.
  
9Esta pública fama, que amedrenta
A todo coração, a todo peito,
Do Númen Português o braço alenta,
Que iguala seu valor ao seu conceito:
Intrépidos elege a cincoenta
Bem prevenidos para o grande efeito
Únicos escolhidos na Bahia
Cam.Dos belicosos peitos, que em si cria.
  
10Luzidos todos, todos bem armados
O sítio buscam dos cruéis vandidos:
Voam as plumas, pendem os traçados,
E os perros das clavinas dão latidos:
Lestos vão bacamartes carregados,
E os peitos mais seguros que luzidos,
Rijos estoques, carregadas clavas,
Cam.Partesanas agudas, chuças bravas.
  
11Mais forte, mais bizarro, mais ufano
O invicto cabo para a empresa parte,
Por arnês leva o peito do Tebano,
No talim por espada o mesmo Marte:
Em uma mão aperta o ferro cano,
Na outra o freio, e inquirindo à parte
Todo o valor, que leva por muralha
Cam.Rompe, corta, desfaz, abola, e talha.
  
12Qual raio, que o trovão tem despendido
Contra a Nau sobre o túmido alabastro,
E tendo-a a voraz fogo reduzido
Em mil pedaços faz o grande mastro:
Tal se mostrou nas matas o temido
Contra os imigos valeroso Astro:
Prostrando tudo sem temer agouros
Cam.Com ferro, fogo, setas, e pilouros.
  
13Chegada a belicosa companhia
Do capitão valente industriada
Logo correu a fama, em como ia
E fugiu para o mato a gente irada:
Não sofrem dilatação os da Bahia
Intrépidos buscando a emboscada,
Qualquer na mata salta tão ligeiro
Cam.Que nenhum dizer pode, que é primeiro.
  
14Não val aos criminosos força, manha,
Golpes, reveses, tiros, e ameaços,
Mas buscando o seguro da montanha
Livrando as vidas vão nos próprios passos.
O Herói com os seus os acompanha,
Que é mais que humano esforço o de seus braços:
Bem se vê, porque em caso tão veemente,
Cam.Mais peleja o favor do céu, que a gente.
  
15Dentro do bosque teatro enfim eleito
Se trava a briga de uma, e outra parte,
Quebra-se a espada, e sem romper o peito,
Que há Deus mais poderoso, que o Deus Marte:
Zune o pilouro sem fazer efeito,
Voa a seta, porém a si se parte,
Que quis Deus despertar no ato presente
Cam.Com tal milagre os ânimos da gente.
  
16Teme o bando inimigo a resistência
Da belicosa, e forte companhia,
Vendo ali com certíssima evidência,
Que o Céu propício a todos defendia:
Trata da fuga, deixa a competência
Última resolução da cobardia:
O Céu o quis assim: porque se veja,
Cam.Que quem resiste, contra si peleja.

17Fogem cobardes, que é cobarde o vício
Tratando a cara vida com despego,
Qual porventura acha o precipício
Qual acha dita em se botar ao pego:
Não tendo já da liberdade indício
O criminoso bando iníquo, e cego,
Antes quer a mor risco aventurar-se
Cam.Que nas mãos inimigas entregar-se.
  
18Nada lhe val que o Cabo diligente
Futuros antevendo, inopinados,
Fiado em Deus anima a sua gente
Talvez com a espada, e tal com os brados:
Esta é ocasião (diz o valente
Jurisconsulto aos férvidos soldados)
Que sempre alcançará fama perfeita
Cam.Quem do oportuno tempo se aproveita.
  
19Isto ouvindo os belígeros guerreiros,
Bem que a maleza inculta os embaraça,
Raivosos acometem, quais rafeiros
Quando armado a novilho vêem na praça:
Rende-se o bando a tais aventureiros,
Que em duas cordas a um, e outro enlaça:
Assim o Cabo pôs em dura liga
Cam.A vil malícia, pérfida, inimiga.
  
20Prende homicida a mão a dura algema,
Ao pescoço grilhão férreo, e seguro,
Não porque o Númen seu esforço tema,
Mas por exemplo ao século futuro:
Qual temendo o patíbulo blasfema,
Qual por desesperado está seguro,
Temendo suas culpas desta sorte
Cam.Que o menor mal de todos seja a morte.
  
21Enquanto ao ar os gritos atroavam,
Que os céus, e os corações duros feriam,
O seu mesmo despojo lhes mostravam,
Que com dobrada pena alheio viam:
Pistolas, e espingardas, que atiravam,
Duros alfanjes, que um arnês abriam,
Guarnecendo-se tudo, o que se alega,
Cam.Do metal, que a fortuna a tantos nega.
  
22Enfim permitiu Deus, que tudo ordena,
Esta ação, tão feliz, tão venturosa
Sem ferida, estocada alguma ou pena
Entre gente tão árdua, e belicosa:
Milagre augusto foi da Mão serena
Divina em tudo, em tudo poderosa,
Só um índio dirá com voz sentida
Cam.Esta perna trouxe eu de lá ferida.
  
23Alegre com a empresa desejosa
Corta o Cabo a espessura, e busca a via,
Não faltando da esquadra criminosa
Algum, que não prendesse neste dia:
Marcha triunfando a gente belicosa,
Pasmam de ver os Filhos da Bahia
O sucesso, a prisão, os Rebelados,
Cam.As armas, e os varões assinalados.
  
24Já divulgava a fama a novidade
Pela gente em contorno mais distante,
Porque as ruas pisava da cidade
O Númen dos vandidos triunfante:
Por ver o herói brasão da eternidade
O Povo corre, e muda de semblante:
Enchem a praça, ruas, e janelas
Cam.Velhos, e Moços, Damas e Donzelas.
  
25Qual Paulo Emílio, quando entrou por Roma
Com Perseu preso, e sua fidalguia,
Sendo o despojo, que recolhe, e toma
Quatrocentas coroas, que trazia:
Vós mereceis mais numerosa soma,
Porque unindo ciência à valentia
Mereceis as marciais, também as de ouro
Cam.Do Bacaro, e do sempre verde Louro.
  
26Chega a Palácio, onde é recebido
Com alegria, amor, e autoridade:
E depois que o sucesso foi ouvido,
Pôs o despojo aos pés da Majestade:
O Governador sábio, e entendido
De Pedro imagem, vendo a lealdade,
Valor, prudência, e esforço do sujeito
Cam.Tais palavras tirou do esperto peito.

27Esse despojo, ó Herói sublimado,
Como de armas te foi, armas te sejam,
Com teu esforço insigne as tens ganhado,
No teu escudo eternamente estejam
Por elas conhecido, e afamado
Serás entre os Heróis, que mais se invejam,
Que bem merece ter armas por glória
Cam.Quem faz obras tão dignas de memória.
  
28Debuxa em bronze, ou metal luzido
Insígnias tais, escreve este letreiro
"São as armas do sábio, e do temido
Dionísio de Ávila Varreiro"
Elas por este nome alto, e subido
Nome terão em todo o mundo inteiro:
Tu por elas lugar te tem a idade
Cam.No templo da suprema eternidade.

29Essas armas com estes caracteres
Pinta no escuro de ouro transparente,
Porque o mundo conheca, sempre seres
Por Letras, e por armas excelente:
Desde a Tétis furiosa e flava Ceres
Teu nome se eternize permanente
Levando-o por assunto à doce Clio
Cam.Desde o trópico ardente ao cinto frio.

30Assim disse, e parou, e eu assim faço,
Suspendendo a corrente à veloz Musa,
Pois quanto mais dissera, fora a um Traço
Breve gota das águas de Aretusa:
Não cabe a larga via em breve passo,
Dar conceitos a idéia já recusa,
E prosseguir mais avante fora erro,
Cam.Ainda que eu tivera a voz de ferro.