História da Mitologia/VIII

Wikisource, a biblioteca livre
< História da Mitologia
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
História da Mitologia
por Thomas Bulfinch
VIII - Pigmaleão - Dríope - Vênus e Adônis - Apolo e Jacinto


Capítulo VIII[editar]

Pigmaleão[editar]

Pigmaleão
representação do século XVI

Pigmaleão acreditava que nas mulheres havia muito a ser censurado a ponto de começar a sentir repúdio pelo sexo, até que decidiu nunca se casar. Ele era escultor de profissão, e com maravilhosa habilidade construiu uma estátua de marfim, e a estátua era tão linda que nenhuma mulher em vida jamais se atreveu a chegar perto dela. E o seus rosto era a perfeita imagem de uma jovem que parecia estar viva, e apenas por causa da modéstia, era impedida de se mover. A sua arte era tão perfeita que de si mesmo ela se ocultava e as suas obras eram verdadeiras maravilhas da natureza. Pigmaleão tinha tanta admiração pelo próprio trabalho, que se apaixonou pela criação de sua autoria.

Muitas vezes ele deslizava suas mãos sobre os contornos da estátua, como se quisesse ter certeza se ela era ou não viva, e jamais podia acreditar que ela era apenas de marfim. Ele fazia carinhos nela, e lhe oferecia presentes, os mesmo que as jovens gostam de receber, — conchas brilhantes e pedras polidas, pequenos pássaros e flores de várias tonalidades, pérolas e âmbar. Vestiu com roupas os seus braços e pernas, e colocou joias em seus dedos, bem como colares em seu pescoço. Pendurou brincos em suas orelhas e cordões de pérolas adornavam o seu busto. Suas vestes ganharam contornos, e sem esses adornos não parecia menos encantadora. Ele a estendeu sobre o divã revestido de tecidos com tons de púrpura, e dizia que ela era sua esposa, e deitava a sua cabeça sobre um travesseiro com as penas mais macias, como se ela pudesse sentir essa suavidade.

O festival de Vênus estava chegando — essa era uma festa celebrada com grande pompa na ilha de Chipre. Vítimas eram oferecidas, havia fumaça nos altares, e o cheiro de incenso se espalhava pelo ar. Assim que Pigmaleão terminou a sua participação nas solenidades, ele se colocou diante do altar e disse timidamente, "Ó deuses, criadores de todas as coisas, vos imploro, a dádiva de uma mulher" — ele não teve coragem de dizer "da minha virgem de marfim," mas disse ao invés — "de alguém como a minha virgem de marfim." Vênus, que estava presente nessa festa, ouviu-lhe a súplica e conhecia-lhe o desejo que desejaria ter expressado; e como um presságio de sua benevolência, ela provocou uma chama no altar e que por três vezes subiu no ar uma labareda de fogo. Quando ele voltou para casa, foi olhar a sua estátua, e ao se inclinar sobre o divã, depositou-lhe um beijo na boca.

O beijo parecia cálido. Ele apertou-lhe os lábios novamente, colocou a mão em seus braços; o marfim parecia suave ao seu toque e moldavam-se aos seus dedos como a cera de Himeto[1]. Ele ficou perplexo e feliz, embora um tanto hesitante, e receava estar equivocado, e por várias vezes, com o ardor de quem ama, toca o objeto de suas esperanças. Ela de fato estava viva! As veias, quando tocadas, eram perceptíveis ao dedo reassumindo então, seus contornos arredondados. Até que finalmente o devoto de Vênus encontrou palavras para agradecer à deusa, e pressionou seus lábios a lábios tão reais como os dele mesmo.

A virgem sentia-lhe os beijos e ficou corada, e ao descerrar seus olhos tímidos à luz, fixou-os, no mesmo instante, no seu amado. Vênus abençoou os nubentes que ela havia criado, e desta união Pafos nasceu, de quem a cidade, que era sagrada para Vênus, recebeu o seu nome.

Schiller, em seu poema "Ideais," utiliza esta história de Pigmaleão ao amor à natureza de um coração adolescente. A tradução seguinte foi feita por um amigo:

"Como antes, as preces sob o fluxo da paixão,

Pigmaleão se abraçou à pedra,

Até que do marfim gélido e cintilante,

A luz do sentimento aflorou sobre ele,

E também me prendo a devoção tão jovem

A natureza viva do coração de um poeta;

Até que a respiração, o calor e o movimento da vida

Pareciam dardejar dos contornos da estátua.

"E então, no compartilhamento do meu ardor,

O silêncio encontrou a forma de expressão;

E devolveu-me o beijo com a ousadia de um adolescente,

E entendia as batidas leves do meu coração.

Então, a brilhante criação viveu para mim,

O regato de prata com o fluxo de uma canção;

As árvores e as rosas compartilhando sensações,

Que ecoavam na minha vida sem fronteiras."

— S. G. B.

Dríope[editar]

Dríope transformada em lótus
gravura da obra Metamorfoses de Ovídio

Dríope e Íole[2] eram irmãs. A primeira era esposa de Andremon[3][4], que era amada pelo seu marido, e feliz pelo nascimento do primeiro filho. Um dia as irmãs passeavam pelas margens de um rio que pouco a pouco se inclinava para as extremidades das águas, enquanto as regiões mais altas eram recobertas de murtas. Elas pretendiam colher flores para a produção de guirlandas para os altares das ninfas, e Dríope levava no peito a criança, seu fardo precioso, e o amamentava enquanto caminhava. Perto das águas crescia um pé de lótus, repleto de flores púrpuras.

Dríope colhia algumas flores e as ofereceu ao bebê, e Íole ia fazer o mesmo, quando ela percebeu sangue escorrendo nos lugares onde a sua irmã as havia arrancado da haste. A planta outra coisa não era senão a ninfa Lótis[5], que, fugindo de um vil perseguidor, havia assumido o formato da planta. Eles ficaram sabendo disto pelos camponeses somente muito mais tarde.

Dríope, tomada de horror, ao perceber o que havia feito, teria se afastado daquele lugar, mas os seus pés ficaram enraizados fundos até o chão. Ela tentou puxá-los com força, mas perdera os movimentos com exceção dos seus membros superiores. A sua transformação em madeira começou a subir, e aos poucos tomava-lhe todo o corpo. Angustiada, ela tentou puxar os cabelos, mas as suas mãos estavam cobertas de folhas. O bebê percebeu que o peito de sua mãe começava a endurecer, e o leite deixou de fluir. Íole assistia a triste sorte de sua irmã, e não conseguiu prestar-lhe nenhuma ajuda.

Ela abraçou o tronco que crescia, como se desejasse conter o avanço da madeira, e teve ímpetos de se envolver na mesma casca. Neste momento, Andrêmon, marido de Dríope, acompanhado do pai dela, se aproximaram; e quando perguntaram onde ela estava, Íole apontou para eles o lótus que havia surgido naquele instante. Eles abraçaram o tronco quente ainda da árvore, e encheram de beijos as suas folhas.

Nesse instante, nada restara de Dríope com exceção do seu semblante. Suas lágrimas ainda caíam e molhavam as folhas, e por alguns instantes ela falou. "Não tive culpa. Não mereço este infortúnio. Jamais magoei quem quer que seja. Se alguma vez não fui sincera, que minhas folhagens pereçam com a seca e que o meu tronco seja cortado e queimado. Leva o meu filho para ele seja amamentado. E permita que ele seja trazido e amamentado sob os meus galhos, e que ele brinque na minha sombra; e quando ele tiver crescido e puder falar, ensinem a ele a me chamar de mamãe, e a dizer com tristeza, “A minha mãe está oculta debaixo desta casca.” Mas digam a ele para que tenha cuidado com as margens dos rios, e que ele preste atenção quanto ele estiver colhendo flores, e se lembre de que cada arbusto que ele encontrar pode estar uma deusa disfarçada. Adeus, meu querido marido, minha irmã, e meu pai."

"Se puderem ainda guardar um pouco de amor por mim, não deixem que o machado me machuque, nem que os rebanhos me mordam ou arranquem os meus galhos. Como eu não posso me inclinar diante de vocês, subam até aqui e me beijem; e como os meus lábios ainda conseguem sentir, levantem o meu filho para que eu possa beijá-lo. Não consigo falar mais, pois agora a casca está subindo pelo meu pescoço, e logo vão me cobrir por inteiro. Vocês não precisam fechar os meus olhos, a casca irá fechá-los sem vossa ajuda." Então, os lábios deixaram de se mover, e a vida se extinguiu nela; mas os galhos por longo tempo ainda conservaram o calor vital.

Keats, em seu poema "Endimião," se refere a Dríope desta maneira:

"Ela tomou o alaúde que lhe trouxe a pulsação

Um prelúdio de vida, moldando-lhe a maneira

Como a sua voz deveria ser usada.

De um modo sutilmente cadenceado, mais selvagem

Do que a canção de ninar de Dríope para o seu filhinho;" etc.

Vênus e Adônis[editar]

Vênus e Adônis
Ticiano

Vênus, estava brincando um dia com Cupido seu filho, quando ele feriu o seu peito com uma de suas flechas. Ela o empurrou, mas o ferimento era mais fundo do que ela podia imaginar. Antes de curar-se, um dia ela avistou Adônis, e ficou encantada por ele. Perdeu todo interesse pelos seus lugares favoritos — Pafos, Cnido, e Amatos[6], cidades ricas em metais. Ela ficou ausente do céu, pois Adônis era mais querido para ela do que o próprio céu. Ela fazia questão de acompanhá-lo para fazer-lhe companhia.

Ela, que gostava de amar, para depois se deitar na sombra, sem preocupações, apenas para cultivar os seus encantos, passeava agora pelas florestas e colinas, vestida como a caçadora Diana; acompanhada de seus cães, para caçar lebres e veados, ou outro animal que fosse seguro para caçar, mas afastava-se de lobos e ursos, pois cheiravam mal devido ao abate dos rebanhos. Ela avisou Adônis, também, para que tivesse cuidado com os animais perigosos. "Seja corajoso com os tímidos," dizia ela; "a coragem contra os corajosos não é uma condição segura. Acautelai-vos com a própria exposição ao perigo pois colocaríeis em risco a minha felicidade."

“Não ataque os animais que a Natureza dotou com armas. Não apreciaria tanto a tua glória a ponto de concordar em conquistá-la enfrentando tais perigos. A tua juventude, e a beleza que tanto encanta a Vênus, não deve tocar os corações dos leões e os espinhentos javalis. Pensa em suas garras terríveis e força prodigiosa! Odeio toda a raça deles. E você me pergunta o motivo?" Então, ela lhe contou a história de Atalanta e de Hipomene, que foram transformados em leões pela ingratidão que dedicavam a ela.

E depois que ela deu este aviso a ele, ela montou em sua carruagem puxada por cisnes, percorrendo o espaço infinito. Mas Adônis era ousado demais para aceitar seus conselhos. Os cães haviam despertado um javali selvagem da sua toca, e o jovem lançou a sua seta e feriu o animal com um golpe lateral. O animal, com suas mandíbulas, arrancou a flecha, e se lançou em direção a Adônis, que se virou e começou a correr; mas o javali conseguiu alcançá-lo, e enterrou suas presas na carne do caçador, deixando-o estendido e morrendo nas planícies.

Vênus, em sua carruagem puxada por cisnes, ainda não havia chegado a Chipre, quando ela ouviu, trazidos pelo vento, os gemidos do seu amado, e imediatamente girou seus corcéis de asas brancas de volta à terra. Quando foi se aproximando, e avistou do alto seu corpo sem vida banhado em sangue, ela desceu da carruagem, e inclinou-se sobre ele, batendo no peito e arrancando os cabelos. Culpando as Parcas pelo acontecido, ela falou, "A elas devemos atribuir somente um triunfo parcial; pois as lembranças do meu sofrimento irão permanecer, e o espetáculo da sua morte, meu querido Adônis, e das minhas lamentações haverão de se renovar todos os anos."

"O seu sangue se transformará em flor; e desse consolo ninguém poderá me invejar." E assim falando, ela aspergiu néctar sobre o sangue; e ao se misturarem, borbulharam rosas numa poça onde gotas de sangue haviam caído, e em questão de uma hora eis que surgiu uma flor com tons avermelhados como as sementes da romã. Mas ela tinha vida curta. Dizem que quando o vento sopra, os botões se abrem, levando as pétalas para longe; e então, a flor passou a se chamar Anêmona[7], também conhecida como Flor do Vento, por causa da maneira como ela cresce e se decompõe.

Milton se refere à história de Vênus e Adônis em seu poema "Comus":

"Canteiros com jacintos e rosas

Onde o jovem Adônis repousa com frequência,

Crescendo continuamente seu profundo ferimento

Em sono profundo, no chão frio

Com tristeza repousa a rainha da Síria;" etc.

Apolo e Jacinto[editar]

A Morte de Jacinto
Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770)

Apolo gostava apaixonadamente de um jovem chamado Jacinto. Fazia questão de acompanhá-lo nos esportes, levava a rede para ele quando iam pescar, conduzia os cães quando ele ia caçar, e seguia-lhe nos passeios pelas montanhas, e por causa dele se esquecia da lira e das suas flechas. Um dia eles brincavam juntos de lançar discos, e Apolo, levantando bem alto o disco, juntando a força com habilidade, conseguiu arremessá-lo para o alto e para bem longe. Jacinto ficou observando enquanto ele voava, e excitado com o jogo, foi correndo para pegá-lo, ansioso que estava para fazer seu lançamento, o disco, porém, saltou da terra e o acertou bem na testa. Ele desmaiou e caiu. O deus, pálido como o próprio Jacinto, o levantou e tentou com toda sua habilidade estancar o ferimento para reter a vida que se esvaía, mas nada adiantava; o ferimento ia muito além dos poderes da medicina.

Assim como alguém que rompe o caule de um lírio no jardim, que fica pendurado de cabeça com suas flores voltadas para a terra, então, a cabeça do jovem moribundo, que parecia pesada demais para o seu pescoço, caiu sobre os seus ombros. "Estais a morrer, Jacinto," assim falou Febo, "roubado por mim da tua juventude. O sofrimento é teu, mas o crime me pertence. Ah, se pudesse morreria por ti! Mas já que não pode ser assim, tu viverás comigo nas lembranças e em minhas canções. A minha lira irá celebrá-lo, a minha canção irá contar o teu infortúnio, e tu te transformarás numa flor gravada pelos meus remorsos." E enquanto Apolo falava essas coisas, eis que o sangue que corria pelo chão, manchando a relva, deixava de ser sangue; transformando-se numa flor que brotava com tonalidade mais linda que a púrpura, parecida com o lírio, não fosse este de cor púrpura e o outro de um branco prateado.[8][9] E para Febo isso não bastava; mas para conferir maior honra ainda, deixou o seu pesar marcado nas pétalas, onde registrou sentimentos de dor, como vemos até os dias de hoje. A flor leva o nome de Jacinto, e a cada primavera que retorna traz de volta a lembrança do seu infortúnio.

Dizem que Zéfiro (o vento do oeste), que também gostava de Jacinto e sentia ciúmes de sua preferência por Apolo, fez com que o disco saísse de sua rota fazendo-o colidir com Jacinto. Keats referencia este episódio em seu "Endimião," onde ele descreve os espectadores assistindo o lançamento do disco:

"Pretendendo assistir os lançadores de disco,

E de ambos os lados, lamentando a morte triste

De Jacinto, quando o sopro cruel

De Zéfiro tirou-lhe a vida; Zéfiro, o penitente,

Onde agora Febo prematuramente sobe o firmamento,

E acaricia a flor entre os soluços da chuva."

Uma alusão a Jacinto também pode ser reconhecida na "Lúcidas" de Milton:

"À maneira da flor de sangue escrita com a dor."

Veja também[editar]

Notas e Referências do Tradutor[editar]

  1. Himeto: nome de uma cadeia de montanhas em Atenas. Na antiguidade existia ali um santuário dedicado a Zeus Ombrios (Zeus, o deus da chuva) no cume da montanha onde eram oferecidas inúmeras dádivas provavelmente por volta dos séculos VIII e VII a.C. Conta-se também que essa região era povoada por abelhas que libavam nessa floresta e produziam um mel delicioso e a cera mais suave da Grécia, por causa da fragrância de suas magníficas flores e ervas; tanto isso era verdade, que segundo a lenda, até os répteis que viviam ali deixaram de ser venenosos. Embora ali se praticasse a apicultura, o monte Himeto tornou-se célebre por causa do mármore de excelente qualidade, o melhor da Ática.
  2. Íole: era filha de Euritos, rei da cidade de Ecália, antiga cidade grega que foi capturada por Héracles.
  3. Andrêmon era filho de Óxilo, pai de criação de Anfiso, filho de Apolo e Dríope e marido de Dríope.
  4. Anfiso
  5. Lótis: era uma ninfa, que para escapar dos braços de Príapo, se matamorfoseara numa árvore, chamada depois de Lótis.
  6. Amatos ou Amatunte: uma das mais antigas cidade de Chipre. O culto a Afrodite era o segundo mais importante, depois do de Pafos.
  7. Anêmona – Fantastipédia.
  8. Evidentemente que não se trata do nosso jacinto moderno aquele aqui descrito. Trata-se talvez de alguma espécie de íris, ou talvez de uma Consolida ou de um amor-perfeito.
  9. Espora