História da Mitologia/X

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História da Mitologia
por Thomas Bulfinch
X - Vertuno e Pomona - Ífis e Anaxárete


Capítulo X[editar]

Vertuno e Pomona[editar]

Vertuno e Pomona
ilustração de Francesco Melzi (1491-1570)

As Hamadríades eram as ninfas das florestas. Pomona era uma delas, e ninguém a superava em seu amor pelos jardins e pelo cultivo das frutas. Ela não se preocupava com florestas e rios, mas adorava os campos cultivados, e as árvores carregadas com deliciosas maçãs. A sua mão direita levava uma arma e não uma lança, além de um facão para podas. Portando somente isso, ela se ocupava algumas vezes impedindo o crescimento exagerado das plantas, e podando os galhos que cresciam fora do lugar; e em outras vezes, partindo o galho e inserindo nele um enxerto, fazendo o ramo produzir um novo broto diferente do que produzia antes.

Ela também se preocupava, que os seus protegidos não sofressem com a seca, e produzia correntes de água para eles, para que as raízes sedentas tivessem água para beber. Esse era o seu principal objetivo, e sua paixão; e estava livre dos sentimentos que eram inspirados por Vênus. Não deixava de temer os camponeses, e mantinha o seu pomar fechado, não permitindo que nenhum humano entrasse. Os Faunos e os Sátiros teriam dado tudo o que possuíam para conquistá-la, e também o velho Silvano, com sua aparência jovem através dos anos, e , que usava uma guirlanda com folhas de pinho na cabeça.

Mas Vertuno a amava mais que todos; embora não fosse tão bem sucedido como os outros. Oh quantas vezes, disfarçado de colheitador, ele levava trigo para ela num cesto, e era a própria imagem de um colheitador! Com uma faixa de feno presa em torno do seu corpo, alguém poderia pensar que ele acabara de chegar da sua faina diária revirando mato. Algumas vezes ele trazia na mão um aguilhão, e você teria dito que ele havia acabado de desatrelar os bois cansados. Agora ele levava consigo uma foice, e gostava de fazer o papel de vinhateiro[1]; e depois, com uma escada nos ombros, parecia que ia colher maças.

Algumas vezes ele costumava marchar como um soldado exonerado, e outras vezes ele levava uma vara de pescar, como se estivesse indo a uma pescaria. Desse jeito ele ganhava cada vez mais a simpatia dela, alimentando a sua paixão apenas com a visão dela. Um dia ele apareceu disfarçado de velhinha, tinha os cabelos grisalhos cobertos por uma touca, com um cajado na mão. A velhinha entrou no jardim e ficou admirando as frutas. "São os teus méritos, minha querida," disse ela, beijando-a, não exatamente como beija uma velhinha. A velhinha se sentou num banco, e ficou olhando os galhos carregados de frutas penduradas em cima dela.

Diante dela estava um olmo entrelaçado com uma videira carregada com uvas graúdas. Ela elogiou a árvore bem como a videira abraçada à árvore, igualmente. "Mas," disse ela, "se a árvore estivesse sozinha, e não tivesse um pé de uva agarrado a ela, ela não seria nenhum atrativo e poderia nos oferecer apenas suas folhas sem muita utilidade. Igualmente a videira, se não estivesse entrelaçada ao olmo, ela ficaria prostrada no chão. Porque você não aprende a lição do elmo e da videira, e concorda em se unir a alguém? Gostaria que você fizesse isso. A própria Helena não tinha tantos pretendentes, nem Penélope, a esposa do astuto Ulisses.

Mesmo que você os despreze, eles a cortejarão, — as divindades rurais e outras de cada espécie que frequentam estas montanhas. Mas se você for prudente e quiser fazer uma boa aliança, e permite que uma velhinha te dê conselhos, — e que te ama mais do que você possa imaginar, — deixa todos os outros e aceita Vertuno, como minha recomendação. Eu o conheço tão bem como ele conhece a si próprio. Ele não é uma divindade nômade, mas pertence a estas montanhas. Nem ele é como a maioria dos apaixonados de hoje, que amam a quem encontram por acaso; ele ama a ti e somente a ti."

"Além de tudo, ele é jovem e belo, e tem a capacidade de assumir qualquer forma que desejar, e ele mesmo poderá fazer exatamente o que você ordenar. E também, ele ama as mesmas coisas que você ama, adora os jardins, e cuida das suas maçãs com admiração. Mas no momento ele não se preocupa com frutas nem com flores, nem com qualquer outra coisa, mas apenas com você mesmo. Tenha compaixão por ele, e imagine que ele esteja falando agora com a minha boca. Lembre-se de que os deuses punem a crueldade, e que Vênus odeia um coração empedernido, e cedo ou tarde ela castiga tais ofensas. Para provar isto, deixe-me contar-lhe uma história, que é muito conhecida em Chipre como fato verdadeiro; e eu espero que ela tenha o efeito de torná-la mais misericordiosa.

Ífis e Anaxárete[editar]

Ífis e Anaxárete
ilustração de Virgil Solis (1514-1562)

"Ífis era um jovem de família humilde, que se apaixonou por Anaxárete quando a viu, ela era uma dama da nobreza da antiga família Teucer. Durante muito tempo ele lutou com a sua paixão, mas quando ele percebeu que não conseguiria vencê-la, ele foi suplicante até a mansão onde a jovem vivia. Primeiro ele contou a paixão que sentia, para a dama de companhia dela, e implorou dizendo que se ela amasse seu filho de criação, ela atenderia ao seu pedido. E então, ele tentou convencer as criadas que a serviam. Algumas vezes ele confiava seus segredos escrevendo-os em pedaços de madeiras, e frequentemente as pendurava nas guirlandas das portas, molhadas com suas lágrimas.

Algumas vezes ele penetrava os umbrais da sua casa, e declarava suas lamentações às barras e ferrolhos que ouviam calados. Anaxárete se mostrava mais surda do que os vagalhões que se erguiam nas tempestades de novembro; mais dura que o aço produzido nas forjas da nação germânica, ou a rocha que se prende ao seu penhasco onde nasceu. Ela zombava e ria dele, adicionando palavras cruéis ao seu odioso tratamento, e não lhe dava o menor sinal de esperança. "Ífis não conseguia mais suportar os tormentos do seu amor impossível, então, ele foi até a porta da casa de sua amada, e disse estas últimas palavras: “Anaxárete, você venceu, e não precisará mais suportar os meus incômodos."

"Desfrute o teu triunfo! Cante canções de alegria, e cinge tua cabeça com louros, — pois afinal venceste! Estou morrendo; coração de pedra, alegra-te! Isso pelo menos eu posso te agradecer e arrancar de ti um louvor; e assim eu provarei que o teu amor me deixou apenas a vida. Nem permitirei que boatos levem a você notícias de minha morte. Eu mesmo voltarei, e você me verá morrendo, e teus olhos festejarão este espetáculo. Contudo, ó deuses, que desprezais o infortúnio dos mortais, observai o meu destino! Apenas isso vos peço: permitam-me que seja lembrado nos tempos futuros, e acrescentai à minha fama os anos de vida que me foram destruídos."

E assim dizendo, virou o seu rosto pálido e os olhos lacrimejantes em direção à casa dela, amarrou uma corda no portão, onde muitas vezes pendurou a sua guirlanda, e colocando a cabeça no laço, murmurou, “Espero que pelo menos esta guirlanda te agrade, garota cruel!” e caiu enforcado suspenso com o pescoço quebrado. Ao cair, ele bateu contra o portão, e o som foi o de um gemido. As criadas abriram a porta e o encontraram morto, e com brados de piedade o levantaram, e o levaram para casa, e o entregaram para a sua mãe, pois o seu pai não era mais vivo.

Ela recebeu o corpo sem vida do filho, e levou o corpo frio ao peito, exarando palavras de tristeza que as mães enlutadas costumam dizer. O funeral lúgubre atravessou a cidade, e o corpo pálido foi levado num caixão até o lugar da pira funerária. Por acaso, a casa de Anaxárete ficava na rua por onde a procissão passava, e os lamentos dos que choravam chegavam aos ouvidos de quem a divindade da vingança já tinha marcado com o seu castigo. "Vamos acompanhar esta procissão triste,” disse ela, e subiu até uma torre, onde através de uma janela aberta assistiu ao funeral.

Pã e as Siringes
ilustração de Nicolas Poussin (1594–1665)

Mal os seus olhos pousaram sobre o corpo de Ífis estendido no caixão, quando eles começaram a enrijecer, e o sangue quente do seu corpo começou a esfriar. Esforçando-se para recuar, percebeu que não conseguia mover os pés; tentou desviar o rosto, mas não conseguiu; e pouco a pouco todos os seus braços e pernas ficaram enrijecidos como o seu coração. E para que vocês não duvidem desta história, a estátua permanece até hoje, e fica no templo de Vênus, na cidade de Salamina, no formato exato de uma dama. Agora, pense em tudo o que falei, minha querida, e põe de lado o desprezo e as protelações, e aceita este amor."

"Então, que as geadas invernais não possam prejudicar teus frutos ainda tenros, nem os ventos furiosos dissipem as tuas flores!" Quando Vertuno falou tudo isso, ele retirou o disfarce de velhinha, e se fez visível diante dela belo como sempre fora. Para ela tudo parecia como se o sol explodisse no meio das nuvens. Ele teria renovado as suas súplicas, mas não havia necessidade; seus argumentos e a visão de sua forma verdadeira prevaleceram, e a ninfa não conseguia mais resistir, mas era detentora de uma chama mútua.

Pomona era a patrona especial dos pomares de maçãs, e como tal era invocada por Edward Phillips (1620-1696), autor de um poema sobre a Cidra, em versos brancos. James Thomson em sua obra "Estações" se refere a ele:

"Phillips, o poeta de Pomona, o segundo

Que com nobre ousadia, e com versos brancos,

Com ousadia britânica, canta a canção dos britânicos."

Mas, Pomona era também considerada a deusa protetora das frutas, e como tal é invocada por Thomson:

"Conduze-me, Pomona, a teus pomares cítricos,

Onde o limão e a lima penetrante,

Com a sagaz laranja, brilhando através do verde,

Fundem suas glórias diáfanas. Estou eu deitado

Sob o espalhafatoso tamarindo, que sacode,

Soprado pela briza, a fruta que expulsa a febre."

Veja também[editar]

Notas e Referências do Tradutor[editar]

  1. Vinhateiro: colhedor e fabricante de uvas.