História das Psicoterapias e da Psicanálise/I/II

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
A psicoterapia e sua história, A psicoterapia no mundo pós-clássico ocidental


1) A queda do Império Romano e o colapso de seu sistema de segurança produziu em todo o seu território um retrocesso geral à crença na magia, no misticismo e na demonologia novamente, da qual sete séculos antes o homem se libertara graças ao gênio grego. Premido pelo medo, como em tempos passados, o povo buscava seu consolo nas explicações sobrenaturais e o Cristianismo veio satisfazer muitas das necessidades psicológicas e emocionais das massas assustadas e desmoralizadas, do mesmo modo que o fizeram as religiões primitivas com os homens errantes e igualmente assustados perante os temíveis e inexplicáveis fenômenos da natureza desconhecida. Como único imperativo de sobrevivência, a psicoterapia religiosa tornou a ser a única tábua de salvação médica e as imagens de Jesus Curador e de seus santos milagrosos eram reverenciadas e invocadas para prevenir e curar doenças, em lugar de Esculápio e demais deidades protetoras, que aparentemente tinham abandonado a seus cultores pagãos ou se tinham mostrado impotentes para defendê-los. Sem esses protetores antigos e sem a ajuda dos preceitos da medicina humana ditada pelos letrados greco-romanos, o novo dogma cristão prevalecia completamente na terapia popular. Como no passado pagão, as igrejas dos cristãos tornaram-se os santuários dos sofredores ao pé da imagem do Cristo-sofredor e de seus santos mártires, como São Sebastião, o protetor contra todas as pestes, São Jó, protetor contra a lepra, Santo Antônio, defensor contra toda espécie de doenças, etc. etc.

Entretanto, a psiquiatria física e a psicoterapia psíquica tinham desaparecido completamente, deixando campo aberto à demonologia pré-científica. A doença mental tornou a ser considerada como possessão diabólica e o tratamento mental sinônimo de exorcismo, irmanando-se, num estranho casamento, o santoral cristão e a demonologia pré-histórica pagã, reintroduzida no ocidente pelo maniqueísmo dualista, que considerava a Ahriman, o espírito mau e das trevas como opositor de Ormuzd, o espírito bom e da luz. Esse demônio, Ahriman, foi logo considerado como o maldoso perturbador e possuidor do corpo e da mente das pessoas mentalmente doentes a quem deseja atormentar. Foi esta doutrina retrógrada a que, à rebeldia da Igreja, deu asas à fantasia das massas, multiplicando em conseqüência as antigas práticas da velha magia, ora denominada de feitiçaria e bruxaria, que nem a instrução religiosa, nem a drástica disciplina eclesiástica puderam controlar. Culminou, isso sim, em séculos posteriores, no temido culto a Satan, o satanismo, e numa violenta perseguição às feiticeiras, na qual, envolvidos por considerações teológicas e desconhecimento médico, morreram queimados na fogueira milhares de doentes mentais considerados como endemoniados.

2) Mas na noite obscura da Idade Média, algumas estrelas luminosas continuaram a brilhar isoladas e a iluminar o caminho a ser retomado pela nova ciência médica em eras posteriores. Como a fé e a moral guardam estreita relação com a psicologia e a saúde, e salvar as almas tem íntima afinidade com a cura dos corpos e, principalmente, das mentes perturbadas, à sombra dos mosteiros construíram-se, desde o início do século VI d.C., os primeiros hospitais, onde por um milênio a paciência beneditina de novos médicos-sacerdotes tentou salvar algo da medicina grega dentre os escombros da derrocada geral, iniciando os caminhos que iriam conduzir paulatinamente à medicina universitária moderna. Desde 480, São Benedito de Núrsia lançou no Mosteiro de Montecassino os alicerces da medicina monástica e o médico-filósofo Cassiodoro, convertido em monge beneditino, iniciava a instrução dos médicos-sacerdotes, encarecendo a necessidade e a utilidade de estudar Hipócrates e Galeno. é igual que no remoto passado, como a cura dos ferimentos e de ossos partidos exigia algo mais do que a fé nas influências sobrenaturais, o desenvolvimento da medicina leiga, empírica e prática, foi surgindo, junto com o novo tipo de médicos-cirurgiões leigos, principalmente quando o trabalho médico dos monges foi considerado incompatível com os deveres clericais e mesmo proibido por alguns concílios como o de Clermont e Latrão, no século XII.

Quando isto aconteceu já as escolas monásticas de medicina estavam preparadas para encomendar aos leigos a tarefa de formar médicos, sendo uma das primeiras a fazê-lo a Escola de Salermo, logo mais tarde, convertida em Universidade. Nela brilham médicos de orientação hipocrática como Constantinus Africanus um judeu convertido ao cristianismo e tornado monge beneditino, contemporâneo e provavelmente discípulo do médico árabe Avicena e responsável pela tradução de versões árabes dos ensinamentos de Hipócrates para o latim e por ele introduzidos em Salermo. Assim a medicina leiga reiniciava auspiciosamente o caminho apontado pela tradição hipocrática da medicina orgânica e racional, voltando a dar ênfase à patologia do sistema nervoso e, particularmente, do cérebro na explicação da doença mental. Tumores nos ventrículos cerebrais, por exemplo, eram considerados como agentes geradores das psicoses e eram tratados por meio de dieta, sangria e drogas, ar livre e hidroterapia. Isto acontecia durante o século XI e no século XII, em que ensinavam os médicos muçulmanos Avenozar e seus discípulos Maimónides e Averrois, cuja fé religiosa lhes permitia irmaná-la com pesquisa científica. Foi pelo fato de os árabes acreditarem que os insanos mentais eram de alguma maneira divinamente inspirados e não vítimas dos demônios, que o tratamento hospitalar dispensado aos insanos era, em geral, bondoso e compassivo, no que foram imitados pelo espírito cristão de caridade, o maior responsável pelo oferecimento de apoio e conforto dado aos doentes mentais. Com efeito, este tratamento, mesmo que desprovido de verdadeiros recursos técnicos, foi muito mais humano durante as épocas da alta Idade Média do que fora depois do século XIII, quando as crenças demoníacas se exacerbaram. E foi talvez por esse influxo árabe que na Espanha apresentou-se o tratamento hospitalar de modo mais humano, sendo os de Valência e Granada os primeiros hospitais dedicados exclusivamente aos doentes mentais em toda Europa.

3) Entretanto, durante todo este período, na ordem psicológica, poucas luzes se acenderam no céu obscuro. Como astro solitário de primeira categoria, As Confissões de Santo Agostinho representaram um autêntico trabalho de autopsicanalizado profundamente incisivo, que se adiantara dezesseis séculos ao gênio psicanalítico de Freud. De fato, a psicologia de Santo Agostinho, eminentemente introspectiva, afirmando que "o fundamento da alma é sua contínua autoconsciência e que o pensamento representa simplesmente a vida refletida em si própria", e falando em "sentimentos", conflitos e angústia de um indivíduo da maior sinceridade, pode ser considerada como a mais antiga precursora da Psicanálise. Com Platão e Aristóteles, e em certo modo superior a eles, o cartaginense Agostinho permanecerá um entre os maiores representantes da psicologia humana de todos os tempos.

4) A partir dos séculos XV e XVI, a lufada renovadora da Renascença veio a reavivar mais uma vez o espírito pesquisador dos médicos e filósofos gregos e romanos. Assistimos durante séculos à racional distinção entre a Ciência e a Fé em todas as manifestações sociais e culturais, impregnadas de um humanismo benfeitor, surgido do estudo insistente dos escritos dos autores clássicos. Isto marca uma nova época também no tocante as práticas e estudos da Psicoterapia ainda que, paradoxalmente, o dogma escolástico entrasse em ação durante este período de renovado esclarecimento e marcasse uma violenta regressão ao sobrenaturalismo, não devendo recorrer, no furor da autodefesa, à repressão das que supunha heresias pelo fogo e pela espada. A razão deste paradoxo está em que as descobertas científicas e racionais provocam freqüentemente as contraforças da irracionalidade. Assim, ao tempo em que o mito da terra ser o centro do universo foi destruído, a adivinhação astrológica tornou-se mais popular do que fora antes; quando o microscópio e o telescópio foram inventados, o horóscopo foi mais do que nunca utilizado; os maiores fervores do misticismo religioso associaram-se com as práticas ilógicas da superstição e do satanismo; e os maiores cientistas de todos os tempos abraçaram, freqüentemente, o misticismo esotérico e praticaram a alquimia e a magia. Oficialmente a astrologia era condenada pela Igreja, mas era sabido que alguns papas consultavam assiduamente os adivinhadores astrólogos.

5) Contra esse estado de coisas e contra o código dos queimadores de feiticeiras, o tristemente famoso Malleus Maleficarum, três vozes autorizadas se levantaram durante o século XVI; Paracelso, Weyer e Cardano, todos eles médicos e representantes da Psicoterapia nessa época.

Embora também fosse astrólogo e pendesse para o misticismo e para a alquimia, Paracelso não pensava que as doenças corporais fossem causadas pelas estrelas, nem que as doenças mentais fossem devidas aos demônios. Acreditava ele, pelo contrário, num interior "espírito natural", que se utilizava das substâncias alquímica básicas (a bioquímica de hoje), para formar o complexo humano. Supunha a personalidade humana como um todo composto de partes corporais e espirituais intimamente ligadas à alma. A doença mental era uma perturbação dentro da substância interna do próprio corpo e não podia ser considerada como o resultado de causas externas, e acreditava que toda doença mental ou física podia e devia ser curada por meio de medicamentos". Mais do que perigosas agentes de Satan, julgava as feiticeiras como indefesas mulheres doentes. Este conceito esclarecedor deve ser tomado como uma valiosa contribuição para uma eventual pesquisa mais definida da etiologia da doença e dos meios adequados de cura.

Weyer foi discípulo de Agripa e dele aprendeu a medicina e o respeito pelas mulheres perseguidas como feiticeiras. Foi o primeiro médico da Renascença que dedicou seu principal interesse às doenças mentais, lutando como Hipócrates para provar que tais doenças não eram sobrenaturais nem sagradas e que era de seu direito, como médico, tratar das pessoas por elas afligidas, mesmo que consideradas feiticeiras. Seus cuidadosos estudos de "casos" contém excelentes descrições psiquiátricas. Dizia estar firmemente convencido de que "as doenças que eram atribuídas à maléfica ação das feiticeiras, provinham mais bem de causas inteiramente naturais". Embora não lhe fosse possível explicar a natureza de todas as doenças mentais, Weyer tinha plena consciência de que "as feiticeiras não podiam prejudicar ninguém por mais perversa que fosse a sua vontade e mais feio seu exorcismo, e que era a sua inflamada imaginação pela crença nos demônios e a sua pecaminosa melancolia (complexo de culpa) o que as levava a imaginar e acreditar que eram capazes de causar toda espécie de mal".

Por sua vez, a filosofia do médico Cardano afirmava sucintamente que: "Um homem não é senão sua mente; se esta estiver em ordem, tudo será fácil, e se estiver em desordem, tudo estará perdido..." "Não é senão uma consciência culpada (sentimento de culpa) que pode tornar um homem doente; a firmeza de espírito muito ajuda, não só a suportar os males, mas também a produzir a própria saúde". "Para evitar ser miserável (doente) é necessário somente saber acreditar firmemente que não se é. Regra esta que pode ser apreendida e ensinada por todos os homens". E antecipando-se em dois séculos aos mesmeristas e hipnotizadores, Cardano fazia do poder de sugestão a parte principal de seus esforços terapêuticos. Seu lema básico era este: "O médico que mais cura é aquele em quem mais acreditam os doentes que pode curar..." Embora um demonologista declarado, Cardano foi também um renhido opositor da caça às feiticeiras.

6) Mas o maior psicoterapeuta sugestionador da Renascença não foi um médico, mas sim um militar quase analfabeto, que servia nas fileiras do exército de Cromwell. Esse curandeiro irlandês, Valentine Greatrakes, utilizava maravilhosamente a crença popular daquela época de que "as doenças podiam ser realmente curadas pelo toque de um líder divinamente inspirado" (o toque do rei). Esta crença grassava na Europa Ocidental desde que o rei Eduardo, o Confessor, começou a "tocar" os doentes para curá-los, acreditando desde então que todos os reis podiam curar por esse processo inúmeras doenças, inclusive a tuberculose, considerada por isso como "o mal do rei". Reproduzia-se no ocidente moderno a velha crença de que faziam uso os antigos faraós do Egito para curar seus vassalos, pelo método de "imposição das mãos

Agora o "curador" Greatrakes, considerado como "divinamente inspirado", sua fama de milagreiro levava a suas dependências inúmeros doentes, que ele curava pelo simples "toque milagroso". O historiador psiquiatra Bromberg considera Valentine como um dos mais significativos psicoterapeutas da Renascença, por ter praticado, sendo um simples leigo e ignorante da medicina, aquela forma de psicoterapia, que até então tinha sido privilégio de reis e de pessoas santas ou médicos.

7) No século seguinte, o médico inglês Sydenham descreveu com tanta precisão os sintomas da histeria que mesmo hoje pouco se pode acrescentar ao dito por ele. Considerou-a como a doença crônica mais comum, e embora a palavra histeria fazia referência ao útero, foi o primeiro a afirmar que "indivíduos do sexo masculino também sofrem dessa doença", que nesse caso preferia chamar de "hipocondria". Foi também o primeiro a observar que os sintomas histéricos podiam simular quase todas as formas de doenças orgânicas, adiantando-se aos conceitos psicossomáticos, quase universais, dos nossos dias. Menciona a hemiplegia histérica, que pode resultar de uma violenta comoção (emoção); convulsões histéricas semelhantes aos ataques epiléticos; dores de cabeça histéricas; tosse histérica e palpitações do coração psicogênica.

E nessa mesma linha psicossomática, antecipada em vários séculos, encontra-se outro médico inglês da mesma época, William Harvey . Em 1628 ele escrevia o seguinte: "Toda afecção da mente, que é acompanhada de dor ou de prazer, esperança ou medo, causa de uma excitação, cuja influência prejudica o coração ... E por esta razão, pesar, amor, inveja, ansiedade e todas as afecções da mente desta espécie são acompanhadas de emagrecimento e definhamento ou cacoquímica e coagulação, que produzem toda classe de doenças e consomem o corpo do homem".

Mas a maior contribuição teórica dada à compreensão psicológica dos processos fisiológicos da psicopatologia foi devida às idéias do judeu espanhol refugiado em Amsterdam, Espinoza. à drástica dicotomia cartesiana MENTE-CORPO opôs ele o seu claro paralelismo psicofisiológico, que modernamente tem levado ao atual conceito "gestáltico" da psicologia fisiológica unificada. O princípio básico de Espinoza é o de que a "mente e o corpo são dinamicamente inseparáveis porque são idênticos, pois, o organismo humano experimenta psicologicamente seus processos corporais, e somaticamente os seus processos psicológicos, como os afetos, pensamentos, sentimentos e desejos. Para ele, a psicologia e a fisiologia são dois aspectos da mesma coisa: o organismo vivo. Tais idéias se anteciparam e influenciaram os conceitos da psicanálise freudiana, pelo menos indiretamente, preparando psicologicamente o ambiente em que esta se desenvolveu, dois séculos mais tarde.

O eixo da psicodinâmica do homem é, segundo Espinoza, o princípio de causalidade psicológica, que envolve o determinismo psíquico, que Freud desenvolveu e acentuou com seu "inconsciente dinâmico" e seus processos impulsivos. Diz ele: "Não existe vontade absoluta e livre. Cada volição é determinada por uma causa. O princípio fundamental é a tendência inata do corpo a perpetuar seu ser". Desta forma, o anseio ou instinto de autoconservação é um dos conceitos fundamentais de Espinoza, que o considerou como um dos determinantes do comportamento, dois séculos antes que Freud.

8) A riqueza dos dados médicos e científicos estabelecidos durante os séculos XVII e XVIII foi tão grande que se tornaram necessárias sínteses e sistematizações, a ponto de que o século XVIII se tornou necessariamente o Século dos Sistemas. Mas quanto à Psicoterapia, os métodos de tratamento não foram muito afetados por todas essas classificações e, em geral, continuaram sendo baseados em uma combinação de especulações psicológicas e filosóficas como as que temos assinalado até aqui. Neste terreno, o que mais caracterizou estes séculos foram as três tendências seguintes:

a) Um acentuado retrocesso nas práticas do satanismo, a diminuição na perseguição às feiticeiras e um novo conceito a respeito das doenças mentais que passaram a ser encaradas como distúrbios somáticos ou psíquicos, mas humanos;

b) Em conseqüência, não sendo mais confundidos os doentes mentais com os "endemoniados" ou "possessos", começaram a ser muito melhor tratados, considerados como seres humanos, sendo modificados os regulamentos e práticas hospitalares, onde começaram a ser retiradas as grades e as correntes;

c) A procura de uma substância determinada, que pudesse ser apontada como responsável pelas doenças mentais e sua cura, coisa que opôs de novo, frente a frente, os métodos de tratamento psiquiátricos e psicoterapêuticos.

9) Herdeiro da força "espiritual" dos filósofos, do "espírito natural" de Paracelso e da "substância vital" de Stahl, como responsáveis dos processos psicofisiológicos, foi o médico alemão Hoffmann quem primeiramente atribuiu a causa das doenças a uma "substância material" orgânica e não especificada, que em excesso produziria espasmos e tonicidade e, quando deficiente, atonia e exaustão. Entretanto, o colega de Brown afirmava que o ser humano estava sendo bombardeado por "estímulos externos" que produziam nele um estado de superexcitação ou de "astenia", ou por falta de estimulação seria levado à fraqueza nervosa ou "astenia". Basearam estes sistemas na duvidosa teoria de que "contrária contrariis curantur" (o contrário cura o contrário), método terapêutico a que deram o nome de ALOPATIA. Dita terapia consistia em estimular pessoas deprimidas ou acalmar as excitadas; o que se fazia a base de "pastilhas", como intuito de acalmar ou estimular pessoas, que sofriam de tensão ou de esgotamento nervoso, exatamente a mesma coisa que se está fazendo ainda agora no campo da psiquiatria ou clínica geral.

Por um raciocínio contrário, o Dr. Hahenmann, com o lema de que "similia similibus curantur" (o igual cura o igual), começou a curar pessoas nervosas ou não-nervosas com doses quase insignificantes de medicamentos especiais chamados "homeopáticos". A única diferença existente entre o sistema de Hofmann e Brown, e o da HOMEOPATIA, diz um crítico de ambos sistemas, é a de que os primeiros enterraram muitas pessoas intoxicando-as com doses excessivas de seus remédios excitantes ou calmantes, e os segundos, com suas doses insignificantes e inofensivas, permitiam que elas sozinhas se curassem...!

10) Outro dos grandes patrocinadores da "força ou energia" física responsável pelas doenças e suas curas foi o médico austríaco Mésmer, herdeiro também da "força curadora" dos padres Grasner e Kirche e da "ação magnética curadora" do padre Hell, jesuíta conselheiro da corte de Maria Tereza. Mesmer descobriu esta força magnética curadora dentro de si mesmo e a batizou com o nome de "magnetismo animal" e deu início a uma extraordinária corrente de "curas" magnéticas aparentemente prodigiosas, principalmente entre pessoas sofredoras de "histeria" e doenças qualificadas hoje como "psicossomáticas" e uma grande corrente de discípulos, que divulgaram e praticaram esse tipo de psicoterapia, com o nome de mesmerismo. A diferença em relação a outras terapias é que este tipo de cura era instantâneo e não precisava de diagnóstico nem de tratamento senão da simples aplicação das mãos ou de algum objeto por elas "magnetizado", a semelhança da "bênção" dos santos e do "toque" de Greatrakes.

Um de seus discípulos, o marquês de Puységur, descobriu as semelhanças do estado produzido pelo magnetismo animal com o sonambulismo natural e o batizou de "sonambulismo artificial", notando entre seus pacientes os fenômenos paranormais da telepatia e clarividência, bem como da sugestão "pós-hipnótica". Puységur atribuía esses fenômenos e curas a um fluido "universal", que acreditava ser a eletricidade e, explorando estes conceitos, um seu discípulo, Poyen, levou estas práticas para a América do Norte, onde um relojoeiro Quimby, auxiliado pela professora Mary Baker, iniciaram uma cruzada que terminou no grande movimento "curador" da nova seita religiosa Christian Science, responsável por considerável número de "curas" efetuadas pela "fé" curadora ou sugestiva.

Na Inglaterra, outro discípulo de Mesmer, o médico Braid, descobriu por sua vez que não era necessária nenhuma "força magnética" para produzir os mesmos efeitos de "transe" e de "cura", mas somente a "fascinação" ou cansaço dos sentidos, o que conduziu a seguir aos métodos de hipnotizar e curar pela simples sugestão, como nos grandes movimentos da hipnose sugestiva de Charcot e Bernheim, mestres imediatos de Freud.