História das Psicoterapias e da Psicanálise/X/III

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
A psiquiatria e seus métodos, Da teoria à realidade


1) A paresia define sua causa e encontra o seu remédio. Durante todo o século passado as "marches e demarches" dos médicos neurologistas e psiquiatras pareciam que não passavam de "pura conversa". Nada de real e objetivo podiam oferecer que confirmara suas teses e que pudesse ser oposto aos avanços indiscutíveis da escola psicológica em suas duas frentes: a da hipnose e da psicanálise, e que estavam afirmando as bases da psicoterapia, mesmo no terreno científico.

Foi somente em 1913 que veio a primeira prova insofismável de uma causa fisiológica como geradora de uma doença mental. Nesse ano, os Drs. Noguchi e Moore localizaram os espiroquetas retorcidos e vibráveis da sífilis no cérebro de um parético, urdindo a sua loucura e a sua paralisia. A PARESIA, como é sabido, é uma doença mental, que após um período de loucura e perturbação mental termina numa paralisia geral, e após cinco anos acaba matando o doente. Isso é tudo o que ensinava o manual didático de Kraepelin. Quanto ao remédio, nada de prático e eficiente se conhecia, posto que a verdadeira causa ainda era desconhecida. Assim que, quando os sintomas apareciam, já era tarde, e a doença se tornava duplamente fatal.

E agora vinham esses doutores a mostrar que os causadores da tal doença nada mais eram que aqueles minúsculos e insignificantes espiroquetas da sífilis. A paresia ou paralisia geral provinha, pois, do amolecimento do tecido cerebral devido à ação perfuradora do mesmo espiroqueta pálido que causa a sífilis. Em realidade, a paresia, mais que uma doença em si, vinha a ser um sintoma, apenas, da sífilis; a quarta fase ou a verdadeira sífilis do sistema nervoso cerebral. E aí estava uma loucura, uma doença mental seguida de uma paralisia, cuja causa era positivamente fisiológica e orgânica, e ela estava no cérebro...!

2) Um mal cura outro mal. Desde muito tempo, o Dr. Julius Wagner Jauregg vinha se preocupando com o tratamento de muitos casos de paréticos em suas atividades hospitalares. Ele sabia, segundo um grande número de casos recolhidos na literatura médica, antiga e moderna, que alguns paréticos, principalmente nas fases iniciais, ficavam repentinamente curados "ao saírem de uma febre acidentalmente contraída"... E já vinha tratando de experimentar essa cura a base de culturas provocadoras de febres. Mas sem grandes resultados.

Ora, quando Noguchi e Moore fizeram a sua descoberta em relação com a paresia, Jauregg tornou a preocupar-se pelo seu problema. Ele sabia que, quando Schaudinn localizou o espiroqueta pálido da sífilis no pus da erupção de um sifilítico, em 1905, imediatamente o Dr. Landsteiner lhe advertiu que os tais espiroquetas podiam ser mortos pela FEBRE. Mas que febre, tornara-se a perguntar agora pela milésima vez. Por que não a malária...? E foi aí que encontrou a premissa que vinha completar o silogismo. De fato, nos trópicos existe muita febre amarela, pensava ele, e como existem poucos paréticos, talvez a causa seja que a febre malária matasse os espiroquetas e não deixava progredir a paresia... Pois era de presumir que também nos trópicos houvesse o mesmo número de sifilíticos que em outros lugares, ou se não os havia, essa poderia ser a causa também.

O caso era experimentar, e desde 1917 a 1927 ele experimentou em todos os casos que se lhe apresentavam, conseguindo 40%, 50%, 60% ... de curas totais em casos mais benignos e franca melhoria em todos os outros. Mais tarde, misturou uma dose de cultura de malária com uma dose de salvarsan, um produto químico forjado pelo Dr. Paul Ehrlich como bala mágica contra aqueles espiroquetas. E neste caso a porcentagem de curas subiu a 83%! Isto era extraordinário. Isto significava uma vitória incontestável da ciência sobre um desequilíbrio mental. E marcava a maior vitória até então conseguida pela escola fisiológica ou psiquiátrica em sua concorrência com a escola psicológica, que nos anos anteriores lhe ganhara caminho. Provara definitivamente que, pelo menos, uma doença mental, a paresia, era provocada por uma causa fisiológica, uma infecção sifilítica causadora de lesões cerebrais, e curada por um remédio fisiológico, a febre amarela, sozinha ou juntamente com um remédio químico, o salvarsan.

Mas... essa vitória por muito significativa que fosse, na prática, era ainda muito pequena. A paresia representava, apenas, 10% de todos os doentes mentais internados nos hospitais, mesmo naqueles tempos em que a sífilis não estava sendo eficazmente combatida. Que dizer dos outros? Que dizer dos esquizofrênicos, que em número representavam 60% de todos os desequilibrados mentais? Sim, a esquizofrenia ou demência precoce, que representa sozinha 5% de toda a juventude, que dizer dela?