Historias de Reis e Principes/VII

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Historias de Reis e Principes por Alberto Pimentel
VII: Maximiliano em Portugal


I

As Memorias de Maximiliano foram pela primeira vez impressas em Vienna, em 1862.

Tiraram-se apenas cincoenta exemplares, destinados pelo archiduque ás pessoas da sua familia, a varios principes estrangeiros, e aos amigos mais intimos.

A idéa de fazer uma edição para o publico acudiu ao espirito de Maximiliano em 1863, pouco tempo antes de lhe ser offerecida a corôa do Mexico. Foi ao barão Münch-Bellinghausen, honrosamente conhecido na litteratura allemã pelo pseudonymo de Frederico Halm, que o archiduque confiou o trabalho da edição definitiva das suas Memorias, que principiaram a ser impressas em Leipzig.

No Mexico, apesar das incessantes attribulações que dolorosamente lhe preoccupavam o espirito, Maximiliano reviu ainda algumas provas, indicou correcções especialmente motivadas pelas circumstancias politicas, que tinham variado desde 1851. Mas a tragica morte do imperador do Mexico roubaria á publicidade as suas Memorias, se o imperador Francisco José, por um terno movimento de piedade fraternal, não tivesse dado ordem para que se concluisse a impressão.

A obra, em allemão, consta de sete volumes e intitula-se Aus meinem Leben. Reiseskizzen. Aphorismen. Gedichte. (Recordações da minha vida. Impressões de viagem. Aphorismos. Poesias).

O ultimo volume comprehende as poesias escolhidas.

N'esta edição definitiva não foi porém incluida a Viagem á Grecia, que em 1868 sahiu impressa em Leipzig.

Eu vou servir-me da traducção das Memorias, unica traducção franceza authorisada, feita por Jules Gaillard, Paris, 1868.

Consta de dois volumes. O primeiro comprehende impressões de viagem em Italia, Hespanha, Lisboa e ilha da Madeira; o segundo,—na Algeria, Albania, além do Equador, Bahia, Matto-Virgem, e os Aphorismos.

Foi em julho de 1851 que Maximiliano sahiu da bahia de Trieste, a bordo da fragata Novara, para uma viagem de longo curso, seu ardente desejo. A mesma fragata o conduziu ao Mexico, quando já imperador. É notavel a coincidencia.

Jules Gaillard não traduziu integralmente as Memorias de Maximiliano. Fez um apanhado do que lhe pareceu mais proprio a interessar o leitor francez, a caracterisar o espirito e imaginação do author ou a tornar conhecidas as suas relações com as côrtes estrangeiras.

Portanto temos que contentar-nos, relativamente a Portugal, com as impressões que a Jules Gaillard aprouve traduzir; mas reputamol-as bastantes a darem uma idéa precisa do modo de sentir e pensar de Maximiliano a nosso respeito.

Começa o archiduque recordando o proverbio Quem não viu Lisboa não viu coisa boa, com que a tradição celebra as bellezas de Lisboa, emparelhando a capital portugueza com as mais formosas cidades do mundo, Constantinopla, Stockolmo, Napoles e Rio de Janeiro.

Maximiliano não conhecia a lenda germanica, que Ferdinand Denis citou, de um cavalheiro que em Jerusalem quiz vêr n'um espelho magico a mais bella cidade da Europa, e viu Lisboa; se conhecesse, tel-a-ia citado conjuntamente com o proverbio para tornar ainda mais frisante a impressão não inteiramente agradavel que Lisboa lhe causou.

O archiduque descreve Lisboa, vista do Tejo, como uma agglomeração de casas sem o caracteristico de edificios distinctos e originaes, e sem o pittoresco que resulta da harmonia da perspectiva. Lamenta a falta de uma floresta onde a vista possa repousar, e acha que o ceu e a agua não possuem o colorido quente e brilhante dos paizes meridionaes.

«Não se vêem nem palmeiras, nem cyprestes, tudo é frio e monotono como em certas regiões da Allemanha; cidade por cidade, Praga é muito mais pittoresca. A Outra banda é a unica parte que resalta verdadeiramente bella, ainda que sem a grandeza precisa para que a impressão que produz aproveite ao conjunto.»

Ora Maximiliano veio a Lisboa em 1852, e é certo que no decurso de 37 annos a cidade tem tido um grande desenvolvimento material, mas o aspecto da casaria, disposta caprichosamente ao sabor das ondulações do terreno, quer-nos parecer de um bello effeito pittoresco, de uma variedade de perspectiva encantadora. É tambem certo que falta aos edificios de Lisboa a originalidade bysantina, a magnificencia oriental de Constantinopla, das suas mesquitas, minaretos, bazares e caravansérails, que se debruçam sobre as aguas do Bosphoro, produzindo uma impressão surprehendente, tanto quanto pela photographia se póde avaliar. Mas os edificios de Lisboa, se não teem uma architectura typica como os de Constantinopla, são comtudo, pela variedade da construcção e pela sua disposição irregular, mas graciosa, de um ensemble que alegra os olhos e impressiona agradavelmente o espirito.

A bahia do Tejo poderá ser inferior á vasta toalha de agua do lago Mœlar, mosqueada de mil duzentas e sessenta ilhas, que torna deslumbrante a situação de Stockolmo; poderá ser inferior ao golpho de Napoles, cuja belleza se opulenta com o espectaculo maravilhoso do Vesuvio, quando em erupção; poderá ainda ser inferior á bahia do Rio de Janeiro com as suas grandes massas montanhosas, o Pão de assucar, o Corcovado, a Tijuca, ao fundo a Serra dos Orgãos, e com as suas ilhas numerosas e sorridentes. Não discutimos primazias pueris. Mas a bahia do Tejo é de uma belleza ampla e suave, de uma vastidão harmonica e dôce, que seguramente a torna uma das mais bellas do mundo.

O Tejo teve a infelicidade de ser visto por Maximiliano n'um dia brumoso e triste, que prejudicava os tons quentes e brilhantes dos paizes meridionaes. Não sei se o ceu de Lisboa é menos azul que o de Napoles, tão gabado; mas o que sei é que, nos dias claros, o nosso firmamento é de uma doçura de saphyra incomparavel, de um azul doirado que satisfaz plenamente as nossas almas de meridionaes.

Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! não faltam arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo. É verdade que é núa e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra, mas que opulencia de vegetação no pendor e na base d'esta serra famosa! E o arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da cêrca das Necessidades? E ainda o do cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.

Mas o que eu admiro são as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres, que aliás menciona. Quanto á palmeira, que é realmente uma bella arvore ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore é filha dos climas orientaes, e que só exoticamente vegeta nos paizes do occidente.

Depois de poucas linhas consagradas á impressão geral que lhe causára o panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da cidade.

Quanto ás ruas e ás praças, o testemunho do archiduque é-nos mais favoravel.

Falla de longas ruas regulares e bellas praças como não ha muitas nas capitaes europêas. «A Praça do Commercio é verdadeiramente magnifica, o centro da cidade nova; todos os seus edificios são uniformemente construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante (éblouissante). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente a esta praça: as mais bellas são a rua Augusta e a rua Aurea

Chamar o centro da baixa ao Terreiro do Paço é uma liberdade de poeta e de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.

Á rua da Boavista chama-lhe de Buanavista, e menciona-a talvez pela circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D. Maria II habitava.

«N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios , verdadeiramente dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados. Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem alinhadas: conforme ao gosto portuguez, são pintadas a oleo em tons assanhados (criards) verdes ou azues.»


II

Maximiliano refere-se á cidade velha, dizendo que ella fórma um completo contraste com os novos bairros. Classifica-a de medonho zig-zag que sobe e desce: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.

Arde-nos? É pimenta. Mas, diga-se a verdade, devia ser assim em 1852, pela simples razão de que ainda o é em 1889.

Eu não sei bem a que Maximiliano chama a cidade velha, se se refere á collina oriental ou occidental, ao Castello ou ao Bairro Alto. Mas, em qualquer dos casos, a apreciação é fundamentada.

Ha trinta e sete annos os despejos faziam-se ainda da janella abaixo, depois da famosa prevenção do agua-vai. Ás vezes nem a prevenção se fazia. Uma anecdota de Bocage conta que, achando-se o poeta n'uma situação muito naturalista, recebêra sobre o dorso uma baldada d'agua chilra, que lhe despejára uma criada, a qual elle apostrophou n'este chistoso improviso:

Ó menina do toucado,
Já que tem a mão tão certa,
Venha buscar a offerta,
Que ficou do baptisado.

Mas nas tradições da antiguidade grega anda uma anecdota que prova ter existido entre os héllenos igual costume. Tendo Socrates fugido um dia para a porta da rua, por já não poder aturar sua mulher Xantippe, ella aproveitou a occasião para fazer os despejos e encharcal-o, ao que o philosopho respondeu com a sua habitual serenidade:

Que não era agua de rosa,
Mas outra menos cheirosa.

Já expungimos, é certo, o sujo costume do agua-vai, mas os ratos mortos e as cabeças de carapau perfumam ainda as ruas de Lisboa.

É porém injusto o archiduque quando diz que os portuguezes nem por todo o ouro do mundo quereriam vêr-se livres d'estas montanhas de immundicie. As narinas nacionaes protestam contra a phrase. Mas é que cêrca de quarenta annos de incessantes reclamações não teem conseguido ainda estabelecer uma policia municipal tão vigilante, que ponha cobro a este abuso. De mais a mais Lisboa é, a respeito dos gatos, uma cidade fetichista. Lisboa adora o gato, não só o gato domestico, mas tambem o gato vadio, callejero, como diriam os hespanhoes. Toda a gente se julga constituida na obrigação de alimentar os gatos tunantes atirando-lhes para o meio da rua as cabeças dos carapaus e as miudezas das pescadas. Em Lisboa o gato não faz nada; quem caça os ratos não são os gatos, são as ratoeiras. E ao passo que se dá de comer aos gatos bohemios com uma piedade tradicional, toda a gente compra uma ratoeira para demonstrar a inutilidade do gato alfacinha. Na capital portugueza, o gato é um sultão, que tem o seu serralho de bichanas ao ar livre. Mas se houver uma camara municipal que se proponha arcar com o gato, não haverá gatos eleitoraes que a aguentem, n'uma reconducção, á bocca da urna.

Maximiliano impressionou-se em Lisboa com a abundancia dos papagaios. Parece, diz elle, que estamos n'uma floresta virgem do Brazil. E accrescenta que as parlendas dos papagaios são de ensurdecer a gente. Digam que tambem não é verdade, se são capazes! A abundancia de papagaios é talvez um vestigio do nosso antigo dominio colonial. Dos bons tempos em que fomos os primeiros a pôr o pé na costa d'Africa e no Brazil restam hoje apenas as chronicas e os papagaios. O que é certo é que rara casa não só de Lisboa mas tambem de todo o reino deixa de ter um papagaio, seja pardo ou verde, da Africa ou do Brazil. Cada brazileiro que chega, traz um papagaio para si, e tres papagaios para os parentes. E na tradição popular anda o estribilho dos papagaios, que tem passado de geração em geração com o Bernal francez e a Silvaninha:

Papagaio real,
Por Portugal,
Quem passa?
O rei que vai á caça.

No glossario nacional conservam-se algumas phrases attinentes aos papagaios, taes como: dá cá o pé, meu loiro, etc.; e não contentes com os papagaios authenticos, temos varios papagaios metaphoricos, as tabuas divisorias e pintadas de verde que separam as janellas de sacada; as estrellas de papel que os rapazes lançam ao ar.

Depois da abundancia dos papagaios, estranhou Maximiliano a dos negros e negras, que enxameam em Lisboa, notando que por um contraste, que parece ironico, todos os pretos são caiadores.

Aqui está decerto outro vestigio dos nossos bons tempos coloniaes: os pretos. Elles habituaram-se a Portugal desde o tempo em que vinham como escravos; a tradição estabeleceu-se, e hoje vêm como livres. Que diria Maximiliano se soubesse que os portuguezes antigos, incluindo os nossos primeiros poetas, davam o cavaquinho pelas pretas! Camões, o principe dos poetas portuguezes, arrastou a aza a uma escrava negra, a famosa Luiza Barbara:

Pretidão de amor,
Tão dôce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocára a côr.

Por isso, é certo, lhe fez troça um poeta anonymo da época:

Negrado, negrigorio, negregante,
Negrica, negraria, negramento,
Negrança, negração e negra dura.
.    .    .    .    .    .    .    .    .    .    
Luiz, retrato negro dos amores
Negros seus, aqui jaz; a endurecida
Luiza negra o fez, com negras dôres,
Mudar em negra sorte a negra vida.

Nos autos dos poetas comicos do seculo XVI, um preto ou uma preta são personagens obrigados. Gil Vicente diz na farça do Juiz da Beira:

Eu andava namorado
De ũa moça pretasinha.

No theatro do Prestes e do Chiado a preta ou o preto apparece sempre com a sua aravia, que era de um effeito seguro.

Na poesia popular ainda hoje vive uma quadra, aliás formosissima, em que o elemento chamita fornece a belleza do pensamento:

Os teus olhos são gentios,
São gentios da Guiné.
Da Guiné por serem negros,
Gentios por não ter fé.

Maximiliano falla de uma especie de equipagem, o sech, montada sobre duas rodas enormes, tirada por dois cavallos, muito usada então em Lisboa. Ainda cá temos pouco mais ou menos o sech, mas hoje serve principalmente para conduzir os mortos ao cemiterio. É um dos espectaculos mais tristemente irrisorios de Lisboa.

Passa depois a occupar-se dos trajos nacionaes.

«O mundo elegante veste-se á franceza. As mulheres do povo usam lenço branco na cabeça e grandes capotes muito pezados: é uma precaução contra os inconvenientes do clima, porque, em pleno estio abrasador, um frio glacial cae sobre a cidade, e a corrente de ar do Tejo sopra frequentemente asperrima através das ruas.»

Tem razão quanto ao estrangeirismo dos trajos no mundo elegante. Dão-lh'a os proprios poetas portuguezes.

Rodrigues Lobo disse:

Por isso qualquer profano
Nos toma para entremez,
Porque fazemos cada anno
Te no trage portuguez
Mais mudanças que um cigano.
Não tomamos isto em grosso;
Vestimos por tantos modos
Cada hora, que dizer posso,
Que não temos trage nosso,
Porque o tomamos de todos.

E Simão Machado:

Vel-os-has, disse, á franceza,
Depois d'isso á castelhana,
Ámanhã á sevilhana,
Hoje andam á bolonhesa,
E já nunca á portugueza.

O capote preto e o lenço branco eram, de feito, um trajo nacional, mas não privativo das mulheres do povo. N'isto se enganou o archiduque. Tambem o usavam as fidalgas. Em Lisboa já não ha d'isso senão pelo carnaval. Mas nas provincias do norte ainda existe o capote. No sul, tenho-o visto muitas vezes em Setubal, sem exclusão das senhoras: capotes de panno finissimo e brilhante.

Os homens tambem uzavam capote antes da invasão da capa hespanhola e da capa á Santo Antonio; mas era ordinariamente de côr e com mangas. Chamavam-se estes capotes josésinhos.

Camillo Castello Branco diz na Engeitada: «Era de mulher o outro vulto encapotado n'um josésinho de mangas, como então se dizia d'uns capotes que tiveram em Portugal reinado longo.» E Nicolau Tolentino:

Se a pé, dando o josésinho,
Escoltou Alcino ledo
A Marcia todo o caminho,
Foi porque elle tinha medo
Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, não póde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas o itinerario do infeliz archiduque.


III

«Faz-se entre nós uma idéa muito falsa de Lisboa. Figuramol-a uma cidade rica em monumentos historicos, graciosissimamente situada, e beneficiada por um clima dulcissimo: sonhamol-a em todo o brilho das tintas meridionaes, em toda a magnificencia de uma vegetação tropical; imaginamos que o Tejo deslisa sob um céo azul á beira de antigos palacios de marmore, navegado nas suas ondas argenteas por centenas de gondolas doiradas e por galeões carregados de metaes preciosos; o povo de Lisboa suppomol-o alegre, cantando estancias melodiosas ao som da guitarra. Pura phantasia tudo isso!»

A fallar verdade, que culpa podêmos nós ter do que os outros sonham a nosso respeito?! Que responsabilidade nos póde advir do facto de ter o archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, imaginado em Lisboa uma vegetação tropical?! Tropical! é forte. Pois não sabia sua alteza qual era a nossa situação geographica no mappa-mundi?! Suppunha-nos na Africa ou na America?! Imaginava-nos talvez em Borneo ou Sumatra, na Oceania? Ah! infeliz archiduque, que culpa tinhamos nós dos erros geographicos de sua alteza e dos seus compatriotas?!

E as gondolas doiradas?! Quem nos inculcou na Austria como sendo o paiz das gondolas?! Vossa alteza sonhou! E nas memorias nublosas d'um sonho confundiu Veneza com Lisboa.

Quanto aos galeões carregados de metaes preciosos, bem poderia sua alteza tel-os visto, se se lembrasse de visitar Lisboa no seculo XVI. Com uma antecipaçãosinha de trezentos annos—uma bagatella!—teria sahido o sonho verdadeiro. Se vossa alteza, desventuroso archiduque, houvesse chegado a tempo de encontrar el-rei D. Manuel, poderia, visto que estamos em maré de anachronismos, apostrophar com Julio de Castilho os famosos galeões da India:

Lá vem galés Tejo acima!
lá vem as galés d'el-rei!
Quero ir vêl-as á Ribeira;
ó madre, comvosco irei.
Lá vem, lá vem Tejo arriba,
lá vem as galés d'el-rei.

Lá vem as naus da conquista
sobre os marinhos cachões;
conheço a nau do Almirante
entre os outros galeões,
abertas as azas brancas!
soberba co'os seus pendões!

Quanto a monumentos historicos, uma pirangaria! Já é ter falta de vista! Nem meio. O campo, um horror. A abundancia de moinhos de vento fez-lhe lembrar Leipzig, as longas cordilheiras de collinas recordaram-lhe a Allemanha. As laranjeiras portuguezas , tão celebradas na Europa, cá estavam e não eram feias, mas não se podia parar um momento a olhar para ellas, porque era o mesmo que ter uma constipação no corpo, por causa de um golpe de sol tropical ou de um golpe de vento igualmente... tropical.

E tristes, muito tristes os lisboetas. Mas que diabo de teima a do Paulus em dizer ainda hoje que

Les portugais
Sont toujours gais!

Uma patranha de marca! Nós, os portuguezes, somos tão chorões, que até os reis não escapam ao chôro. Houve um que lagrimejou a ponto de ser metamorphoseado em chafariz, o qual ainda hoje conserva a denominação de Chafariz d'Elrei. Patranha por patranha. E ainda hoje conservamos tambem este proloquio lamuriante: A lagrima é livre. A alma portugueza é uma cebola que nos sobe aos olhos: por isso dizemos constantemente que os olhos são o espelho da alma.

Sua alteza achou-nos muito parecidos com os macacos. N'este ponto não podêmos deixar de fazer honra á orientação transformista de sua alteza. Chegamos a estar convencidos de que foi Portugal que suscitou a Darwin a concepção scientifica da sua theoria; o sabio inglez, tendo conhecido em Lamarck a lei da hereditariedade e a lei do desenvolvimento dos orgãos, pôde, graças ao estudo anthropologico que fizera dos portuguezes, ir além de Lamarck. Foi isto, por força.

E a lingua portugueza?! Como sua alteza a achou desafinada e charra! Tem graça, porque nós pagamos-lhe na mesma moeda, quanto a lingua. Não ha portuguez nenhum que não esteja de accôrdo com a opinião de Carlos V,—de que o allemão é uma lingua para se fallar aos cavallos. Mas para chamar desafinada á lingua portugueza já é preciso ter dureza de ouvido! E não dizia o pateta do Filinto:

Fallemos portuguez brando e sonoro!

Sua alteza estava com muita curiosidade de vêr a rainha D. Maria II, porque era sua proxima parenta e uma princeza reinante, cujo destino havia sido dos mais agitados.

Quem o archiduque encontrou primeiro a esperal-o no palacio das Necessidades foi o marechal duque de Saldanha, a quem chama o genio universal, o deus ex-machina, o sol do nosso paiz n'aquelle tempo. N'isto acerta. Triumphante o movimento politico da regeneração, Saldanha, coberto do prestigio que lhe haviam dado as campanhas da liberdade, succedêra no poder ao conde de Thomar. Quando o archiduque Maximiliano chegou a Lisboa, o ministerio era composto por Saldanha, presidencia e guerra; Rodrigo, reino; Seabra, justiça; Garrett, estrangeiros; Fontes, fazenda e obras publicas; Athouguia, marinha.

A Garrett faz o archiduque uma referencia especial, sem o nomear, dizendo: «Entre os ministros mencionarei o dos negocios estrangeiros que, segundo me disseram, é o mais celebre escriptor de Portugal. Suspeito-o mais escriptor que estadista: de resto, falla perfeitamente o francez.»

Maximiliano esquissa o perfil do marechal: «um homem gordo, constellado de condecorações, com os cabellos crespos e brancos de neve, bigode retorcido, côr de azeitona e lunetas escuras com aro de aço.»

Finalmente, o archiduque encontra-se com a rainha, com o rei D. Fernando, e os tres principes mais velhos, D. Pedro, D. Luiz e D. João.

«Maria da Gloria, diz o archiduque, é alta e direita; as suas feições são nobres e graves, o cabello louro e fino. Tem os olhos azues dos Habsburgos, mãos pequenas e, por infeliz contraste, uma corpulencia genuinamente portugueza, horrivelmente exaggerada e realmente inaudita. Não obstante (o que faz o elogio das suas graças naturaes) e cheia de elegancia e vivacidade nos movimentos. Vi-a correr como uma donzellinha nos seus aposentos, e ouvi dizer que dança graciosamente e sóbe com ligeireza o estribo da carruagem. Vestindo com delicadissimo gosto, é ainda seductora a despeito da nutrição; poder-se-ia dizer até que, por momentos, é bella.»

Este esboço não destoa dos retratos que conhecemos da rainha e nos quaes é facil encontrar exacta semelhança com o perfil traçado pelo snr. D. Antonio da Costa na Historia do marechal Saldanha: «gentil, como os seus quatorze annos, a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro; porte, nobre; rosto, reflexivo; etc.»

Com taes predicados physicos não ha mulher feia, ainda mesmo que, no dobar dos annos, o embonpoint se torne um pouco exaggerado.

A principio, o archiduque achou a rainha hesitantemente silenciosa; não obstante, as suas poucas palavras eram agradavelmente pronunciadas em francez. Mas á medida que a intimidade se estabeleceu, a rainha revelou-se alegre e espirituosa, comquanto sempre reservada ou antes preguiçosa em fallar, e na apparencia um tanto brusca.

Maximiliano louva a rainha como mãi e esposa, considera-a um raro modelo de virtudes domesticas no meio d'este Portugal tão corrompido. Attribue um pouco isso á simplicidade allemã que o rei Fernando teria introduzido nos habitos do ménage.

«Ao lado de sua corpulenta esposa, o rei, que é de estatura elevada, parece um pouco effilé, revelando grande semelhança com Francisco I de Austria. Conta apenas trinta e sete annos, mas, como tem o costume de inclinar a cabeça, afigura-se-nos mais velho.»

Quanto a dotes de espirito e caracter, o archiduque não teve tempo para os estudar no rei D. Fernando, mas quiz parecer-lhe que não podia medir-se pela bitola de seu tio Leopoldo da Belgica.

Estranhou que o marido da rainha fosse rodeado por taes homenagens, que, n'uma viagem á provincia, o povo pediu-lhe a benção. E o rei deu-a. A fallar verdade, o beija-mão não se distanciava muito da benção.

«Os tres filhos mais velhos estavam presentes, cada um com seu uniforme: o principe D. Pedro, de general; D. Luiz, meu camarada, de official de marinha; D. João, de official de infanteria (aliás lanceiros).

«O principe real tem notavel semelhança com a casa d'Austria, o que desde logo lhe conciliou a minha sympathia. Possue um thesouro de excellentes disposições naturaes que, infelizmente, não têm sido bem exploradas; a despeito da boa vontade dos pais, não parece que tenha havido sufficiente cuidado em formar-lhe esse caracter energico de que um principe tanto precisa hoje, sobretudo na situação incerta em que se encontra Portugal.»

O archiduque fiava muito da influencia que teriam as viagens no espirito do principe real.

Quanto ao infante D. Luiz, depois rei, descreve-o como um rapaz alegre e ladino, propenso a expansões de bom humor. Falla muito, e bem, diz o archiduque: um jovial sangue viennense corre nas suas veias.

«D. João é a antithese de seus irmãos: silencioso e grave, pallido, cabello castanho, olhos negros, olhar profundo; nenhum traço de elemento germanico: um altivo Bragança dos antigos tempos.»


IV

Conta o archiduque que assistíra com a rainha D. Maria II e com el-rei D. Fernando a um espectaculo no theatro de S. Carlos, que, apesar das suas amplas dimensões, considera inferior ao San Carlo de Napoles.

Exhibia-se n'essa noite o panorama do Mississipi, que tinha já feito, diz Maximiliano, le tour du monde.

Ao passo que o panorama se desenrolava lentamente, a rainha conversava com seu primo o archiduque, fallando-lhe com saudade do Brazil, onde nascêra. Maximiliano estranha que D. Maria II exprimisse tamanho enthusiasmo por um paiz, como o Brazil, onde o calor é intenso. E observa: qualquer que seja o paiz em que se nasceu, o amor á patria é sempre o mesmo! Esta observação fica muito áquem dos meritos litterarios do archiduque. É de uma banalidade que lhe não faz honra.

Fallou-se tambem de Lisboa, de Portugal. D. Fernando citou com louvor o livro do principe de Lichnowsky[1], o unico que tinha por exacto, parecendo, diz Maximiliano, fazer pouco caso do que a condessa Hahn-Hahn escreveu sobre o mesmo assumpto.

A rainha mostrou-se resentida da surpreza com que a condessa viu na camara real o bastidor em que sua magestade costumava bordar. Uma pessoa que governa, havia dito a condessa, não deve occupar-se de taes coisas. A rainha, que é uma mulher da sua casa (une femme d'intérieur), diz o archiduque glosava a observação da condessa ironisando-a: «Queria talvez que eu escrevesse livros!»

Maximiliano teve occasião de assistir á festa do Coração de Jesus na basilica da Estrella.

«A rainha entrou na igreja ladeada pelo rei-esposo e pelo Deus ex-machina (o marechal Saldanha), os quaes exhibiam, sobre os seus respectivos uniformes, uma mantilha de rendas: é, nas ceremonias de apparato, a bizarra insignia dos gran-cruzes portuguezes. D. Maria collocou-se sob o docel, entre estes dois personagens, e assistiu de pé ao santo sacrificio da missa. S*** (Saldanha) que, além das suas funcções officiaes parece desempenhar tambem o papel de bobo da côrte, dizia infinitas jovialidades á rainha. Que effeito produziria no povo este mau exemplo! D'onde virão a obediencia e o respeito para com a magestade terrena, se ella propria se não souber curvar perante a magestade divina!»

É textual. Apesar de parente da rainha, o archiduque não lhe poupa este epigramma publico. Maximiliano ficou tão indignado, que chamou bobo ao marechal por estar fazendo espirito na igreja da Estrella. Nós, os portuguezes, não somos certamente o povo que mais compostamente assiste aos actos religiosos. Mas no seculo XVII ainda era peor. Foi preciso tomar medidas repressivas contra as liberdades que se praticavam nos templos.

«A mais encantadora e seguramente a mais espirituosa pessoa da côrte é a imperatriz viuva Amelia, segunda esposa de D. Pedro. Um cruel destino tem perseguido com cega obstinação esta soberana desde a sua primeira mocidade. Ao tempo da minha viagem a Lisboa, a imperatriz vivia em Bemfico (masculinisação de Bemfica) com sua amavel filha, princeza distincta, peregrinamente prendada, e que a morte não tardou a arrebatar. Bemfico é uma deliciosa quinta, onde recebi o mais cordeal e o mais digno acolhimento de uma boa parenta.»

Maximiliano revela, em todas as suas apreciações, uma refinada intransigencia tudesca. Ora é sabido que a imperatriz Amelia era bávara, e é justamente a esta princeza que o archiduque elogia sem restricções. Não podendo deixar de reconhecer as virtudes domesticas da rainha D. Maria II, não se abstem comtudo de fazer esvoaçar sobre o seu retrato a sombra de mais de um epigramma. Nem mesmo lhe perdoou o ser nutrida, e chega a dizer que a rainha convidava sempre para os jantares de gala a duqueza de Palmella, que, por ser igualmente nutrida, servia para lhe fazer contrapeso.

Maximiliano assistiu com a rainha a uma tourada. Os principes não foram, mas as infantas, duas creanças encantadoras, acompanharam sua mãi.

O archiduque, a respeito das touradas portuguezas, dá inteira razão á propaganda que contra ellas tem feito no parlamento o snr. Carlos Testa.

Não as considera um combate cavalheiresco como na Hespanha. Chama a este divertimento, tal como ainda hoje o temos, um brinquedo ignobil e despiciendo; uma mascarada, uma jonglerie. Acha cobardes os nossos picadores, e sente a falta do bello matador, que tão habilmente sabe provocar o enthusiasmo.

Ralha dos intervallos comicos dos pretos, que ficavam espapaçados na arena, e da exhibição dos forcados que, enchumaçados com almofadas, se atiravam á cabeça dos touros. Classifica de arlequinada insipida este espectaculo, onde a coragem brilha pela sua ausencia, e que faz rir o povo n'uma hilaridade boçal.

«Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem um espectaculo que não póde deixar de exercer sobre o povo uma influencia perniciosa; é um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa põe em evidencia o homem. Lá, o touro empenha toda a sua força, o homem toda a sua coragem; combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoções extraordinarias n'essa lucta; o homem não desce até ao nivel da besta, e a besta até ao nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, aliás leal, este divertimento popular não chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraça avulta revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro, ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os lançou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas; finalmente, arrastaram-nos para fóra da arena todos ensanguentados e semi-mortos. Asseguraram-me, porém, que uma pouca de terra do circo, deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia horror, ao passo que em Hespanha senti-me, á vista do combate, emocionado e arrebatado.»

Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter saltado duas vezes á trincheira, e de um outro touro ter investido com um cavalleiro, que se não desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.

Então o archiduque riu francamente com o povo.

«N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim, e por bravos involuntarios, que não seriam talvez muito convenientes na presença da rainha, testemunhei a minha satisfação ao bravo animal, desejando-lhe um successo mais decisivo.»

Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o cavalleiro.

Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lêr, da Ultima corrida de touros em Salvaterra, de Rebello da Silva!

Aquillo é que eram touros á castelhana, no tempo do senhor D. José!

Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna, n'aquella época tão faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas o seu exclusivismo germanico não ficou lisonjeado com os cabellos negros e as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. Poucas ou nenhumas bellezas viu.

Faz justiça á opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vêr no dia do leilão. Por isso digo que faz justiça. Mas accrescenta que denunciavam uma absoluta falta de gosto, um verdadeiro luxo de «parvenu». Ora isto não é exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!

Á chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe sobremodo os ouvidos patriotas.

Apesar de ter appellidado o nobre marquez de «grande senhor da época rococó» e de haver notado falta de gosto nas esplendidas alfaias do palacio do Rato, não pôde deixar de exclamar, graças ao hymno austriaco toda a noite soprado pela fanfarra: «Este simples traço basta a caracterisar o bom marquez.»

Maximiliano já antes tinha estranhado que no Paço das Necessidades as bandas militares não houvessem tocado o hymno austriaco, mas unicamente o hymno real portuguez, quando alli foi convidado a jantar duas vezes.

Muito hymneiro este infeliz archiduque!

E a proposito d'aquelles dois jantares de gala diz Maximiliano que, não obstante a parcimonia habitual da côrte, a mesa era esplendida, e a cosinha primorosa; que, a ter que queixar-se de alguma coisa, seria da abundancia dos pratos.

Se não se houvessem esquecido do hymno austriaco, Maximiliano, apesar de declarar-se abstemio, ter-se-ia levantado da mesa trauteando mentalmente o antigo vaudeville:

Et la fourchette de Camus
Est le sceptre du monde.


Foi pena!


V

Maximiliano viu o cemiterio dos Prazeres, e pareceu-lhe uma imitação do Père Lachaise.

Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam verdadeiros templos pagãos. E achou pouco christão o contraste d'estes moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,—como cães. As edificações arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a impressão de um Corso funerario ou de um Boulevard dos mortos, sem caracter religioso.

Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e plátanos as avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o Campo Santo de Pisa e as sepulturas da Turquia.

Ora eu posso dar ao leitor dois traços descriptivos do Campo Santo. Fornece-m'os madame Colet, a notavel touriste que tão minuciosamente visitou a Italia: «O Campo Santo fórma um longo quadrado fechado por quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de frescos; interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos. Estas arcadas são de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flôres sobre o azul do céo. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira, opulentamente florida, balouça-se de encontro ao fuste de uma columna; sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando pela porta do occidente. Antes de examinar os frescos attentei nas sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas, nobres, principes, cardeaes e monges estão ahi confundidos na terra. Sarcophagos antigos descobertos nas escavações e mausoleos modernos avultam de cada lado da galeria, traçando uma especie de alêa sepulchral.»

Como se vê, o Campo Santo de Pisa não é tão despido de ornatos esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppôr. Eu acho que o melhor de tudo seria adoptar a incineração, e ter cada um no seu proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de Columbaria aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas urnas com cinzas, á semelhança de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem da palavra, que poderiamos traduzir por pombaes dos mortos. Sem embargo havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o que da civilisação dos romanos poderiamos adoptar era o systema da incineração. Emquanto o não fazemos, o meu ideal de cemiterio é muito mais exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christão, segundo o meu ideal:

D'aldeia o cemiterio era modesto,
 Sem pompa e sem lavores:
Ao centro, a cruz a dominar c'os braços
O recinto dos mortos e os espaços...
 De resto... algumas flôres!

Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:

São bellos os tumulos
D'Australia, suspensos
Nos plainos immensos
Á beira do mar.
Alli o cadaver
Pacifico dorme
E a lua—olho enorme—
O vem contemplar.

Para contrastar com a pagina melancolica em que discretêa sobre a morte, dá-nos Maximiliano a descripção de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de um lunch, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata Novara, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros de equitação sabiam uma palavra de portuguez.

Maximiliano não occulta os tormentos por que passaram as azemolas cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz elle, um steeple-chase furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a galope—a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!—punhamo-nos em pé sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais ou menos gracioso.

Os pobres burros é que não acharam decerto graça nenhuma á patuscada furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, olá! porque um burro vinga-se sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingança, mal comparado, o coração de D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no chão, enrodilharam-n'os na poeira do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh! triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da perigosa equitação, se agruparam n'um pinheiral para almoçar,—sur la verdure.

Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoço? Os burros? Parece á primeira vista, attendendo a que almoçavam sobre a verdura, e os burros deviam ter fome. Não, senhores: foi uma velha, uma megera, diz Maximiliano, que os descompoz e ameaçou. Faço idéa das bonitas coisas que a velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.

Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo não estava ainda organisada, com uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha demosthenava pro domo sua: domo é synonymo de burro.

O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a pé quedo, com a impassibilidade de sphynges de Memphis, e então a velha, reconhecendo que os estrangeiros não tinham... sangue nas veias, entendeu que seria cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a pá, como fez a sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.

Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas não contribuiu para azedar a impressão com que Maximiliano sahiu de Lisboa!

As suas ultimas palavras são accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa não tem caracter proprio. As edificaçoes apresentam aspecto allemão; as toilettes são parisienses; a educação nacional é ingleza. Lisboa, emfim, é uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres ! Uma verdadeira descoberta do infeliz archiduque.

Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso não exaggerou. Mas, de descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos arrastava á doença e á morte.

«Quando a decomposição começa, peróra Maximiliano, a vida evapora-se e, como diz o proverbio, «os ratos abandonam a casa que vai desabar.»

É uma ratice, que a historia desmente, porque nós ainda cá estamos, cada vez mais... gordos,—excepto eu.

Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro por aqui as suas impressões de viagem, para que o leitor não tenha motivo de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.

  1. Recordações de Portugal.