Horas vivas (1864)

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Horas vivas
por Machado de Assis
Poema publicado em Chrysalidas (1864).

HORAS VIVAS.


No album da Exm. Sra. D. C. F. de Seixas.


(1864)


Noite: abrem-se as flôres...
        Que explendores!
Cynthia sonha amores
        Pelo céu.
Tenues os neblinas
        Ás campinas
Descem das collinas,
        Como um véu.


Mãos em mãos travadas,
        Animadas,
Vão aquellas fadas
        Pelo ar;
Soltos os cabellos,
        Em novellos,
Puros, louros, bellos,
        A voar.

— «Homem, nos teus dias
        Que agonias,
Sonhos, utopias.
        Ambições;
Vivas e fagueiras,
        As primeiras,
Como as derradeiras
        Illusões!

— «Quantas, quantas vidas
        Vão perdidas,
Pombas mal feridas
        Pelo mal!

Annos apoz annos,
        Tão insanos,
Vem os desenganos
        Afinal.

— «Dorme: se os pesares
        Repousares,
Vês?—por estes ares
        Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
        E lascivas,
Somos — horas vivas
        De dormir! — »