Horto (1910)/Nota

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Horto por Henrique Castriciano de Sousa
Nota
NOTA
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Auta de Sousa nasceu em Macahyba, pequena cidade do Rio Grande do Norte, em 12 de setembro de 1876; educou-se no collegio «S. Vicente de Paula», em Pernambuco, sob a direcção de religiosas francesas; e falleceu em 7 de fevereiro de 1901 na cidade de Natal. Uma biographia simples como os seus versos e o seu coração...

Ella não conheceu os obstaculos que encheram de tormento a existencia de Marcelline Desborde-Valmore. Desde muito cedo, porém, sentiu todo o horror da morte. Aos quatorze annos, quando lhe appareceram os primeiros symptomas do mal que a victimou, não havia senão sombras em seu espirito: era já orphã de pae e mãe, tendo assistido ao espectaculo inesquecivel do anniquilamento de um irmão devorado pelas chammas, numa noite de assombro.

Assim, desde a infancia, o destino lhe appareceu como um enigma sem a possibilidade de outra decifração que o luto.

Salvaram-na do desespero a fé religiosa e o resignado exemplo da ignorada heroina para quem escreveu o soneto A minha Avó, publicado neste volume.

Horto é pois a historia de uma grande dôr. Formou-o a autora recordando, sentindo, penando.

Em casa, o luto successivo; no collegio as litanias da Igreja; mais tarde, no campo, onde passou o melhor tempo da atormentada existencia, a paisagem triste do sertão nos longos meses de secca, a compaixão pelos humildes, cuja miseria tanto a commovia, a saudade dos diversos logares em que esteve, em busca de melhoras aos padecimentos physicos...

Tudo isso concorreu muitissimo para aggravar a maravilhosa sensibilidade de seu temperamento de mulher; e essa sensibilidade, á medida que a doença augmentava, se ia tornando mais profunda, fazendo de um ser fragilimo o interprete de innumeros corações desolados.

A primeira edição do Horto, publicada em 1900, esgotou-se em dous meses. O livro foi recebido com elogios pela melhor critica do paiz; leram-no os intellectuais com avidez; mas a verdadeira consagração veio do povo, que se apoderou delle com devoto carinho, passando a repetir muitos de seus versos ao pé dos berços, nos lares pobres e até nas Igrejas, sob a forma de «bemditos» anonymos.

Auta, sem pensar e sem querer, reproduzira a lapis, na chaise longue, onde a prostára a doença, as emoções mais intimas de nossa gente: encontrára no proprio soffrimento a expressão exacta do soffrimento alheio.

E antes de finar-se ouviu da bocca de centenas de infelizes muitos dos versos que traçara com os olhos lacrimosos, não raro para esquecer o desgosto de se sentir vencida em plena mocidade.

Não teve cultura litteraria vasta.

Recordando scenas da meninice vejo-a neste momento, aos oito anos, curvada sobre as paginas da Historia de Carlos Magno, outr’ora muito popular nas fazendas do Norte, livro cheio de façanhas inverosimeis, sem medida, sem arte, escripto no peior dos estyllos, — mas delicioso para quem o conheceu na infancia.

Lia-o Auta no campo, os olhos ingenuamente maravilhados, para o mais ingenuo dos auditórios, composto de mulheres do povo e de velhos escravos, todos filhos desse formoso sertão que exerceu em seu espirito tão salutar influencia.

Depois, chegou a vez das Primaveras, de Casimiro de Abreu.

Um pouco mais tarde, no collegio, não leu outra cousa que os compendios de estudo e as obras de premio, de feição religiosa e sentimental.

Nesse tempo o seu livro predilecto foi um romance profundamente triste, Tebsima, episodio lendario da primeira Crusada.

Ao sahir do internato, onde aprendera bem as linguas francesa e inglesa e adquirira boas noções de musica e de desenho, começou a ler alguns autores brasileiros, especialmente Gonçalves Dias e Luiz Murat.

Estes dous grandes sonhadores, porém, não tiveram acção decisiva sobre seu espirito. Não sei mesmo como ella, que detestava a feitura classica de certos estylos, podia ler com satisfação crescente o poeta dos Tymbiras. Nunca me explicou também o motivo porque os versos tumultuosos de Luiz Murat, constituiam verdadeiro encanto para a sua alma tão meiga, tão cheia de religiosa ternura.

Nos ultimos anos, as horas que podia dispensar ao convivio dos autores, consagrava-as aos mysticos, a Th. de Kempis, a Lamartine, a S. Thereza de Jesus. A estes, associava Marco Aurelio, cujos Pensamentos muito concorreram para augmentar a tolerancia e a sympathia com que encarava os seres e as cousas.

Tal é a historia da sua formação intellectual.

Pode-se, entretanto, dizer sem exagero que o soffrimento foi o seu melhor guia.

A influencia das Irmãs de «S. Vicente de Paula» é visível em todo o livro.

O proprio estylo, simples e claro desde as primeiras poesias, parece me um producto do esforço das mestras que lhe corrigiram os themas escolares, com o bom senso e a medida dos franceses.

Mas, sem a dor que lhe requintou a fé, Auta certamente não teria encontrado a forma com que deu cor e relevo ás visões de seu mysticismo. Assim o Horto, em vez de uma colleção didatica de psalmos catholicos, encerra, com a tristeza de um pobre ser cruelmente ferido pelo destino, perturbado em face do mysterio da vida, a queixa universal do soffrimento humano.

Nos ultimos versos nota-se a estranha serenidade espiritual a que chegou nos derradeiros dias, inspirando aos que a visitavam a mais religiosa veneração.

Via-se-lhe, então, a alma através os olhos brilhantes, sem torturas, sem lagrimas.

Naquelle corpo desfeito, tão leve que uma creança podéra conduzir, havia agora um coração resignado de martyr, sentindo profundamente o nada da vida, mas sem horror á morte. Realisara-se o seu desejo:

« Não vês? Minh’alma é como a penna branca
« Que o vento amigo da poeira arranca
« E vae com ella assim, de ramo em ramo,
« Para um ninho gentil de gaturamo...
« Leva-me, ó coração, como esta penna
« De dor em dor até à paz serena. »

A tormenta se desfizera ao pé do tumulo; e do naufragio em que se abysmou esta singular existencia, resta o Horto, livro de uma santa.

Paris, 4 de agosto de 1910

H. Castriciano.