Invenção dos Aeróstatos Reivindicada/Documentos...

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DOCUMENTOS RELATIVOS A BARTHOLOMEU LOURENÇO
SEM ALLUSÕES AO SEU INVENTO
(EXTRAHIDOS DA 2. MEMORIA DE FRANCISCO FREIRE DE CARVALHO)

Additamento á Vida e feitos do
padre Bartholomeu Lourenço de Gusmão


Diabrura em forma, em que se descobriu quererem dar feitiços a el-rei D. João V. como se vê do mesmo papel; o qual caso se descobriu em setembro de 1724.


Era juíz de fóra d'Aldêa-gallega Jeronymo de Cetem, filho do desembargador João de Cetem, aposentado na Relação do Porto. Nas visinhanças d'esta villa havia uma quinta de certa mulher, que algumas vezes escrevia ao juiz de fóra sobre dependencias do fabrico d'ella. Passou esta mulher, no mez de setembro do referido anno, àquella villa em companhia d'outras quatro, e de um homem, e vendo-as o juiz de fóra, que bem conhecia a sua vida folgasona, convidou-as a jantar em sua casa, cumprimento, que acceitaram de boa-mente; e no entanto que a mesa se preparava, fazendo-lhe novidade aquella comitiva, quiz saber a causa da jornada, Disseram-lhe que aquella menina, apontando para uma que era mais bizarra, e mais moça, estava em resolução de ser freira, e passava a Setubal a vêr o convento. e se lhe não agradasse passaria a Alcacer do Sal, onde havia outro onde se podia recolher ; para o que pediram ao juiz de fora lhes mandasse embargar tres seges : e depois de jantar se embarcaram n'ellas, e foram seguindo a sua derrota, ficando com elle de voltarem á mesma villa d'Aldea-gallega, passados tres, ou quatro dias.

Não vieram, e quando o juiz de fóra já reparava na tardança, por se terem passado mais de oito dias, soube que estava na quinta a dita fulana, de que tinha conhecimento ; buscou-a, e perguntando-lhe pelas companheiras, e pela novidade de a vêr n'aquelle sitio, quando a suppunha em outra parte : disse que as companheiras tinham passado para Lisboa pela estrada de Coina, e que ella por se não querer metter em embrulhadas, se tinha apartado d'ellas. Cresceu a curiosidade no ministro, e foi investigando a materia que fôra causa pará se desunirem ; até que a mulher, a muitos rogos do juiz, pedindo no caso muito segredo, disse : Que aquella jornada se fazia para consultar duas celebres feiticeiras, que havia em Alcacer do Sal, chamadas as Salemas, mulheres pardas, e o negocio todo era enfeitiçarem a el-rei para que deixasse D. Paula d'Odivellas, permittisse, que a amiga do infante D. Francisco fosse ao mesmo convento, aonde a não deixavam ir ; e tomasse amores com uma freira, ou secular (que n'isto não estou certo), que era irman d'outra com quem tratava o grande Padre Bartholomeu Lourenço ; e que dizendo as mulatas que para esta boa obra eram necessarias algumas coisas que houvessem tido com o corpo de el-rei contacto physico, voltaram as companheiras a explicar-lhe o seu interesse, e descobrir-lhe para os seus intentos melhor via, que poderia declarar, se fosse bem acceito o seu projecto, pedindo juntamente um summo segredo, necessario á importancia da materia.

Partiu a mulher para Lisboa, e logo depois, em outro barco, o juiz de fóra, e como não tinha logo ádito para fallar a el-rei, e a materia pedia toda a pressa, buscou João Marques Bacalhau, que tinha a entrada mais franca, e deu-lhe parte do negocio : ficou o homem aturdido, e segurando-se de tudo quanto o juiz de fóra referira, foi ao Paço, d'onde veiu pelas onze horas da noite, e achou em casa o ministro esperando, mas já com outras noticias ; porque no meio tempo que o Bacalhau se demorou no Paço, foi o juiz de fóra a casa da mulher que descobrira a diabrura, fingindo o não deixava descançar o cuidado de saber se poderia ter logar o seu adiantamento, e soube d'ella, que no dia antes d'ella partir da sua quinta, tinham passado as mulheres para Alcacer.

Como o negocio tinha mudado de systema, voltou logo o Bacalhau ao Paço, e determinou el-rei, que pelas seis horas da manhan do outro dia se achasse em casa do cardeal da Cunha o Bacalhau, e o juiz de fóra. Quando foram, mandou-os entrar o cardeal para a casa do conselho geral, onde já estava Nuno da Silva Telles, que disse ao juiz de fóra, que como elle sabia inquirir testemunhas, era o melhor director para o proprio depoimento : depoz todo o facto que tenho narrado, e d'alli mesmo foi mandado o Bacalhau buscar a mulher que descobrira o enredo, a qual contestando inteiramente com o juiz de fóra, foi mandada para sua casa, que era nas varandas do Terreiro do Paço; e aos dois ministros se passaram ordens pelo Santo Officio para serem presas as mulheres.

Deu tambem el-rei todas as ordens para que as mulheres se buscassem pelos referidos ministros até á raia de Castella, ordenando a todos os governadores, e justiças, obedecessem aos dois ministros, tudo por decretos firmados do seu punho; e mandou entregar-lhes oitenta moedas, e que partissem logo em um escaler da Ribeira, que estava prompto.

Chegaram a Coina, e tirando inculcas, se passaram por alli tres mulheres, vieram a saber por um commissario do Santo Officio, que umas mulheres tinham alli chegado, porém que vinha um clerigo na sua companhia. Passaram a Setubal, e no caminho disse o Bacalhau ao juiz de fóra, que se o clerigo era o Padre Bartholomeu Lourenço, haveria novidade grande. Deram parte do caso ao juiz de fóra de Setubal, que era o meu amigo Diogo Cotrim, que já estava despachado para o Porto ; e havendo doticia que as mulheres passaram já desacompanhadas do clerigo, deu ordem ao juiz de fora para se registarem os barcos que viessem d'Alcacer, e foi acompanhando na diligencia aos dois ministros. Chegando á villa deram parte ao juiz de fóra, tambem meu amigo, Valerie Galvão de Quadros, e logo souberam, que as mulheres estavam na terra. Prenderam-se, e o homem que as acompanhava, e tambem as duas Salemas feiticeiras, sem saberem umas das outras, e assim mesmo foram levadas para casa dos familiares, a quem se recommendou as não deixassem fallar a pessoa alguma. Perguntada a principal do rancho pelo clerigo companheiro, disse que era o Padre Bartholomeu Lourenço, e buscada se lhe achou ao peito um escritinho com caracteres imperceptiveis, e á outra uma chavinha de prata em um cordão encarnado, que dizia era d'um escriptorinho que tinha em Lisboa ; mas buscando-se o fato, achou-se em uma condeça um cadeado em que servia a tal chave, e abrindo-a com curiosidade, pelo recato com que se guardava a chavinha, preza a tiracol no forro do vestido, acharam-se dentro peitos de perdizes, e de gallinhas abocanhados, bocados de marmellada meios comidos, uma atadura e almofadinha com sangue, quarenta moedas em oiro, e muito boas joias, que seriam para dar ás Salemas, e no fundo d'um alforge um caco com esterco humano já secco.

Chegaram ao Santo Officio uma quarta feira pelo meio dia, e passando-se logo ordem para ser preso o Padre Bartholomeu, pelas duas horas da tarde fugiu, mas depois foi preso, e não ha muitos tempos que morreu : e mandando-se, quando elle desappareceu, fazer sequestro a sua casa, pelo Bacalhau, achou-se, entre os poucos trastes, que tinha, aberto sobre uma mesa, e cotado em varias partes, o Alcorão de Mafoma[1].

Estas mulheres, foram castigadas particularmente, e duas mulatas mais que vieram d'Odivellas, uma das quaes está servindo hoje a quem devia ter d'ella todo o aborrecimento.

Tudo isto me contou na hospedaria d'este convento o mesmo ministro Jeronimo de Cetein, que merecendo por este serviço singular um adiantamento de summa distincção, lhe pagaram só com a correição de Vianna, e hoje se acha sem servir. Em 30 de julho de 1736.

É esta noticia dada e escripta pelo vigario da Cartucha D. Bernardo de Santa Maria.

Todos estes papeis foram copiados d'um livro antigo escripto n'aquelle tempo, por isso leva algumas lettras dobradas, quando são longas, e os acabei de copiar hoje 21 de setembro de 1797.—Fr. Vicente Salgado, ex-geral e chronista da congregação da Terceira Ordem n'este convento de Nossa Senhora de Jesus de Lisboa.—Fr. Vicente Salgado.




Entre uma collecção de noticias manuscriptas para a historia d'este reino, colligidas pelo doutor José Caetano d'Almeida, beneficiado da santa igreja patriarchal, e bibliothecario da livraria d'el-rei D. José, se encontra a seguinte, escripta do proprio punho do referido padre ; a saber :

«Copia» Em 26 de setembro de 1724 fugiu de Lisboa o voador Bartholomeu Lourenço de Gusmão, que tomando a estrada de Loures por passos e caminhos montuosos e desconhecidos, foi a Vallada, e passando á vista de Muge, seguiu o caminho de Montargil e Aviz, estrada de Arronches, atravessou o rio Caia, e levando o designio de entrar em Madrid, por causa de um deliquio, ou accidente que lhe sobreveiu, a que se seguiu uma terrivel febre maligna, foi para Toledo, em cujo hospital da Misericordia falleceu na noite de 17 para 18 de novembro do dito anno, mas já em 18 do dito mez na madrugada.

Tudo isto consta do Diario que d'esta jornada e fuga escreveu de Madrid, a Antonio de Basto Pereira, em 15 de dezembro do dito anno, Fr. João de Santa Maria, irmão do Voador, e socio na fuga ; e está o Voador enterrado na igreja parochial de S. Romão da dita cidade.

Está conforme os manuscriptos d'onde se tiraram as duas copias acima, os quaes existem na livraria da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 15 de julho de 1848.—O official da secretaria, Antonio Joaquim Moreira.


A assignatura do Padre Bartholomeu Lourenço de Gusmão vem em um livro de manuscriptos originaes existente na academia, que pertenceu a D. Luiz da Cunha.

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  1. Este padre é o chamado Voador, irmão de Alexandre de Gusmão, inventor da machina aerostatica, por outro modo do que se pratica ao presente, cuja machina se achará entre os meus papeis curiosos impressos anno 1797.