Iracema/XXVIII

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XVIII

Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscarão em torno e não a virão.

A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que rolavão a uma e uma cahião sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que amadureça o fructo.

— O que espreme as lagrimas do coração de Iracema?

— Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste della.

— Não estou eu junto de ti?

— Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.

Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nelle o tinham ferido no amago.

— O guerreiro branco é teu esposo; ele te pertence.

A formosa tabajara sorrio em sua tristeza:

— Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu passo te guiava para as frescas serras e alegres taboleiros; teu pé gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.

— E' a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar: respondeu o christão.

Iracema continuou:

— Teu labio secou para a esposa; assim a canna quando ardem os grandes sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle leve tua voz á cabana de teus paes.

— A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para defender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o ennemigo vier.

A esposa meneou a cabeça:

— Quando tu passas no taboleiro, teus olhos fogem do fructo do genipapo e buscão a flor do espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca: Si cantão as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os cabellos daquella que tu amas!

— A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á árvore a verde rama.

— Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abaty depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira.

— Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?

— Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; á seus pés ainda está a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Si ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cahir, para que a alegria alumie teu seio.

O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo.



Notas[editar]

Pag. 133.—Japim—Passaro côr de ouro com encontros pretos e conhecido vulgarmente pelo nome de soffrer.



Pag. 134. Folha escura, a murta, que os indigenas chamavam capixuna— de caa— rama, folhagem, e pixuna escuro. Dahi vem a figura de que usa Iracema para exprimir a tristesa que ella produz no esposo.