João Ferreira de Almeida 1819 (ortografia atualizada)/Mateus/XII

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Evangelho segundo Mateus - Capítulo XII
por João Ferreira de Almeida


  1. NAQUELE tempo ia Jesus por uns semeados em Sábado; e seus Discípulos haviam fome, e começaram a arrancar espigas, e a comer.
  2. E vendo isto os Fariseus, disseram-lhe: vês aí teus Discípulos fazem o que não é lícito fazer em Sábado.
  3. Porém ele lhes disse: Não tendes lido o que vez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam?
  4. Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição que a ele lhe não era lícito comer, nem tão pouco aos que com ele estavam, senão só aos Sacerdotes?
  5. Ou não tendes lido na Lei, que nos sábados, no Templo, os Sacerdotes profanam o Sábado, e são inculpáveis?
  6. Pois eu vos digo que maior que o Templo está aqui.
  7. Mas se vós soubéreis que coisa é, misericórdia quero e não sacrifício; não condenaríeis aos inocentes.
  8. Porque até do Sábado é o Filho do homem Senhor.
  9. E partindo-se dali, veio a sua sinagoga deles.
  10. E eis que havia ali um homem que tinha uma mão seca; e perguntaram-lhe, dizendo: é também lícito curar em Sábados? (para o acusarem).
  11. E ele lhes disse: Que homem de vós outros haverá, que tenha uma ovelha, e se a tal cair em uma cava[1] em Sábados, não lance mão dela, e a levante?
  12. Pois quanto mais vale um homem, que uma ovelha? Assim que lícito é fazer bem em Sábados.
  13. Então disse àquele homem: estende tua mão; e ele a estendeu, e foi-lhe restituída sã como a outra.
  14. E saídos os Fariseus, tiveram conselho contra ele, de como o matariam.
  15. Mas sabendo-o Jesus, retirou-se dali; e o seguiram muitas companhias, e a todos os curou.
  16. E os ameaçava, que o não manifestassem.
  17. Para que se cumprisse o que estava dito pelo Profeta Isaías, que disse:
  18. Vedes aqui meu servo a quem escolhi, meu amado em quem minha alma se agrada; sobre ele porei meu Espírito, e às Gentes denunciará juízo.
  19. Não contenderá, nem clamará; nem ninguém sua voz pelas ruas ouvirá.
  20. A cana trilhada não quebrantará, e o pavio que fumega não apagará, até que tire o juízo em vitória.
  21. E em seu Nome esperarão as Gentes.
  22. Então lhe trouxeram um endemoninhado cego e mudo; e de tal maneira o curou, que o cego e mudo falava e via.
  23. E todas as companhias pasmavam e diziam: não é este o Filho de Davi?
  24. Mas ouvindo os Fariseus isto, diziam: Este não lança fora os Demônios, senão por Belzebu, Príncipe dos Demônios.
  25. Porém entendendo Jesus seus pensamentos, disse-lhes: Todo Reino contra si mesmo diviso é assolado; e toda cidade, ou casa, divisa contra si mesma, não subsistirá.
  26. E se Satanás lança fora a Satanás, contra si mesmo está diviso; como subsistirá logo seu reino?
  27. E seu eu por Belzebu lanço fora os Demônios, por quem os lançam logo vossos filhos? Portanto eles serão vossos juízes.
  28. Mas se eu pelo Espírito de Deus lanço fora aos Demônios, chegado é logo a vós outros o Reino de Deus.
  29. Ou como pode alguém entrar em casa do valente, e saquear seu fato[2], se primeiro não amarrar ao valente? e então saqueará sua casa.
  30. Quem comigo não é, é contra mim; e quem comigo não apanha, derrama.
  31. Portanto eu vos digo: Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não se perdoará aos homens.
  32. E qualquer que falar palavra alguma contra o Filho do homem, lhe será perdoado; mas qualquer que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século, nem no vindouro.
  33. Ou fazei a árvore boa, e seu fruto bom; ou fazei a árvore má, e seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.
  34. Raça de víboras, como podeis vós falar boas coisas, sendo maus? porque da abundância do coração fala a boca.
  35. O bom homem tira boas coisas do bom tesouro de seu coração, e o mau homem do mau tesouro tira más coisas.
  36. Mas eu vos digo, que de toda palavra ociosa que os homens falarem, dela darão conta no dia do juízo.
  37. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado.
  38. Então responderam uns dos Escribas e dos Fariseus, dizendo: Mestre, quiséramos ver de ti algum sinal.
  39. Mas ele respondeu, e disse-lhes: a geração má e adulterina pede sinal; mas sinal se lhe não dará, senão o sinal de Jonas o Profeta.
  40. Porque como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra.
  41. Os de Nínive se levantarão em juízo com esta geração, e a condenarão; porque com a pregação de Jonas se arrependeram. E eis que mais que Jonas está aqui.
  42. A Rainha do Austro[3] se levantará em juízo com esta geração, e a condenará; porque veio dos fins da terra a ouvir a sabedoria de Salomão. E eis que mais que Salomão está aqui.
  43. E quando o espírito imundo se tem saído do homem, anda por lugares secos buscando repouso e não o acha.
  44. Então diz: Tornar-me-ei a minha casa donde saí. E vindo, acha-a desocupada, varrida, e adornada.
  45. Então vai, e toma consigo outros sete espíritos piores que ele e entrados, moram ali; e são as coisas derradeiras do tal homem piores que as primeiras. Assim acontecerá também a esta má geração.
  46. E falando ele ainda às companhias, eis que estavam sua mãe e seus irmãos fora, que lhe queriam falar.
  47. E disse-lhe um: Vês ali estão fora tua mãe e teus irmãos, que te querem falar.
  48. Porém respondendo ele, disse ao que isto lhe dizia: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos?
  49. E estendendo sua mão sobre seus Discípulos, disse: Vedes aqui minha mãe e meus irmãos.
  50. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, e irmã, e mãe.

Notas[editar]

  1. cava — Definição: buraco
  2. fato — Definição: bens, pertences
  3. Austro — Definição: Sul