Lágrimas Abençoadas/I/XXIV

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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro I, Capítulo XXIV


«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?» perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.

«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote? perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava. Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um epitheto injurioso.

«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui instrumento de fortaleza.

«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»

—Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão—respondeu a esposa do coronel.

—É uma grande verdade, minha irmã—proseguiu o frade—o amor é uma luz que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me querem: é assim, Maria?

—Muito, meu querido tio!—E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o todos.

Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou, exclamando:

—Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia! Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro fosse quebrado.