Leonor de Mendonça/Ato Segundo

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Leonor de Mendonça
por Gonçalves Dias
Drama em três atos e cinco quadros.


ATO SEGUNDO[editar]

QUADRO TERCEIRO[editar]

A cena representa uma sala modesta em casa do velho Alcoforado.

CENA I[editar]

MANUEL, ALCOFORADO

284 - MANUEL (Sentado) - Eis a terceira vez que te faço a mesma pergunta e ainda me não respondeste.

285 - ALCOFORADO - Ah! Falavas comigo?

286 MANUEL - Pois com quem havia eu de falar? Pergunto-te o que tens.

287 - ALCOFORADO - Nada tenho, irmão; estou um pouco preocupado.

288 - MANUEL - Bela resposta! Isso vejo eu. Com o quê? E o que te eu pergunto.

289 - ALCOFORADO - Com a minha partida. Não sei como terei forças para me separar de tantas afeições que deixo atrás de mim e que talvez não tomarei a encontrar.

290 - MANUEL - Não te dê isso cuidado. Nós somos novos, tu, eu e nossa irmã; nosso pai é que é um pouco velho, porém ainda robusto, e espero em Deus que nos enterrará a todos um por um.

291 - ALCOFORADO - E crês que para o homem morrer careça de ser velho?

292 - MANUEL - Se não é, parece. O que eu sei é que em teu lugar estaria bem contente por ir tão novo ganhar as minhas esporas... Sabes tu um receio que eu tenho?

293 - ALCOFORADO - Qual?

294 - MANUEL - O de não ter forças quando for homem para usar daquelas longas espadas de que usam os cavaleiros de el-rei. Não o digas a ninguém, menos ainda a Laura, que senão a travessa me não deixará descansar.

295 - ALCOFORADO (Distraído) - Terrível pressentimento!...

296 - MANUEL - Aí o temos outra vez.

297 - ALCOFORADO - Quem poderá aventar o segredo desta entrevista? Ninguém o ouviu, ninguém o sabe; só Rozeimo que me trouxe a missiva de Paula. Rozeimo é fiel: que posso eu temer?

298 - MANUEL - Já me estou impacientando.

299 - ALCOFORADO - A noite vai escura e feia!

300 - MANUEL - Ainda mais feia te há-de parecer.

301 - ALCOFORADO (Vivamente) - Que dizes?

302 - MANUEL - Quando os dobres começarem.

303 - ALCOFORADO - Que dobres? Que dizes tu?

304 - MANUEL - De que te espantas?... Não é amanhã o dia de finados?

305 - ALCOFORADO - Tens razão (Pensativo). Ainda outro mau agouro! (Momento de silêncio). Irmão, és tu corajoso?

306 - MANUEL - Homem, eu creio que sim; porém, com certeza que tens muito mais coragem do que eu, que também para isso és o mais velho.

307 - ALCOFORADO - Se pois me acontecesse algum desastre?

308 - MANUEL - Onde? Lá na África?

309 - ALCOFORADO - Se aqui, se hoje, por exemplo, me acontecesse algum desastre, não terias tu a coragem de esconder as tuas lágrimas para não afligir com elas o nosso bom pai?

310 - MANUEL - Estás hoje sombrio, irmão!

311 - ALCOFORADO - Pois não terias tu coragem para isto?... Não acompanharias o nosso velho pai até a sepultura, não ampararias com desvelos e solicitudes a nossa boa irmã que tanto precisa da proteção de nós todos?... Não serias bom filho e bom irmão, a ponto de ambos se esquecessem de que eu tinha existido?

312 - MANUEL - Posso-o eu porventura?... Nosso pai é robusto; porém, quem sabe quanto o abateria a dor de te haver perdido, a ti sobre quem ele esteia a sua velhice?... Nossa irmã Laura, jovem e formosa, que te ama sobre tudo, porque és o nosso irmão mais velho, sentiria profundamente perder-te; quem sabe o que seria dela?... Eu mesmo, terei coragem porventura quando me faltares ou quando te houver perdido para sempre?

313 - ALCOFORADO - Assim, pois, um desastre que me sobreviesse os abalaria a todos, e talvez algum caísse sobre o meu sepulcro.

314 - MANUEL - Meu Deus! Que pensamentos são esses?... Estás bom, partirás amanhã, e falas em morrer hoje?

315 - ALCOFORADO - Como estas horas se arrastam vagarosas!... (Chegando à janela). O céu está coberto de nuvens; a noite vai escura e medonha.

316 - MANUEL - Felizmente que estamos em casa, porque talvez tenhamos alguma tempestade.

317 - ALCOFORADO - Não no céu; na terra, talvez.

318 - MANUEL - Estás-me causando medo.

319 - ALCOFORADO - Irmão, se meu pai se demorar, partirei sem vê-lo; tu lhe pedirás a sua bênção por mim, que porventura carecerei dela.

320 - MANUEL - Vais sair?

321 - ALCOFORADO - Sim, a uma devoção.

322 - MANUEL - Ah! Vejamos!... Gibão de fustão prateado, colar e pontas de veludo roxo, calças vermelhas, cinta de couro preto com guarnições de prata, borzeguins... não, não são esses os vestidos de quem vai à noite lançar-se aos pés do altar. Enganas-me, Antônio; é outra a tua devoção.

323 - ALCOFORADO - Será: mas não me interrogues, que nada te poderei dizer.

324 - MANUEL - Atende: a noite vai escura, bem o viste; alguma cilada te podem armar. Leva contigo o nosso velho criado.

325 - ALCOFORADO - Não; ele pode demorar-se.

326 - MANUEL - Se ele se demorar, sairei contigo.

327 - ALCOFORADO - Não: é um segredo que não deves saber.

328 - MANUEL - Leva ao menos a tua espada.

329 - ALCOFORADO - Não a levarei.

330 - MANUEL - A minha espada é fiel, o sangue ainda a não enferrujou; a sua folha ainda me não traiu. A tua espada ou a minha... escolhe.

331 - ALCOFORADO - Não levarei a tua espada, não levarei a minha.

332 - MANUEL - É favor que te peço: quero que a minha espada te acompanhe uma noite, a derradeira que passarás conosco; será essa a lembrança que me deixarás por despedida. Tu a levarás.

333 - ALCOFORADO - E ta restituirei tão pura como sair das tuas mãos. Vai por ela.

334 - MANUEL - Então espera-me!

335 - ALCOFORADO - Esperarei. (Manuel sai)

CENA II[editar]

336 - ALCOFORADO (Só, sentando-se) - Hoje enfim eu a verei sozinha! Talvez que ela por um instante se dispa dos seus preconceitos de orgulho e de nobreza para ouvir as palavras singelas do mancebo que a tão alto ousou elevar o seu pensamento; talvez que ela enfim se compadeça dos meus sofrimentos, sofrimentos terríveis que eu tenho suportado sem murmurações, sem lágrimas. As murmurações poderiam despertar algum eco e as lágrimas trair-me!... Dir-lhe-ei tudo e depois que me assassinem, que me assassinem aos pés dela, se o quiserem, que eu bendirei morrendo. (Torna-se pensativo).

CENA III[editar]

ALCOFORADO, o VELHO ALCOFORADO

337 - O VELHO ALCOFORADO - Antônio!

338 - ALCOFORADO (Levantando-se) - Meu pai! (Beija-lhe a mão).

339 - O VELHO ALCOFORADO - Em que pensáveis, filho?

340 - ALCOFORADO - Em vós, meu pai, em os meus irmãos, nas pessoas que me estimam, naqueles que eu amo, nesta casa em que nasci, enfim, em tudo que vou deixar, e que talvez não encontre, mesmo se a morte me não colher por lá.

341 - O VELHO ALCOFORADO - Se por lá morrerdes, meu filho, eu sofrerei tanto como quando vossa mãe nos deixou sozinhos na vida para ir gozar a bem-aventurança nos céus. No entanto, eu vô-lo digo, estimarei mais a morte do meu filho que morrer pela sua pátria, do que a vida tranqüila do homem que vive sem nome e que morrerá sem glória. Grandes são os vossos deveres, Antônio, que também para isso sois nobre.

342 - ALCOFORADO - Meu pai!

343 - O VELHO ALCOFORADO - Sim, mancebo; sois nobre, nobre com a nobreza aqui da terra e nobre com a nobreza de alma que é a melhor de todas porque direitamente nos vem do Senhor. Comprazo-me em pensar que sereis sempre digno do vosso nome e que os vossos feitos terão sempre o cunho da ação que hoje praticastes - ardimento e dedicação.

344 - ALCOFORADO - Não falemos nisso, senhor.

345 - O VELHO ALCOFORADO - Pois em que havemos nós de falar? Quando errais, eu vos digo bem severamente que errais e que nisso fazeis mal; porém, quando praticardes bem, também vos direi com a sinceridade de um amigo e com a complacência de um pai que vos portastes bem e que vos estimo pelo bem que praticastes; nem quero que com isto vos vanglorieis, que vos não gabo a vós quando aprecio uma virtude. Antônio, é bem doce ao velho, que lentamente caminha para a sepultura, parar de vez em quando para derramar os olhos obscurecidos sobre o caminho que ele decorreu na vida e ver seus filhos que prometem honrar o seu nome e consolar a sua velhice. Sim, meu filho, eu vos digo que quando hoje arriscastes impavidamente a vossa vida para salvar a esposa do vosso protetor fizestes como faria o vosso velho pai quando ele tinha a vossa idade e sentia o sangue que lhe girava nas veias. (Momentos de silêncio). Que vos disse o senhor duque?

346 - ALCOFORADO - Escreveu algumas cartas para os fronteiros de África e capitães do exército do ultramar.

347 - O VELHO ALCOFORADO - Agradecestes; não foi assim?

348 - ALCOFORADO - Sim, meu pai. Rendi-lhe ações de graças, tanto pelas que ele teve a bondade de escrever, como pela que eu me atrevi a aceitar.

349 - O VELHO ALCOFORADO - Como! Pois recusastes alguma?

350 - ALCOFORADO - Todas, menos a que em meu nome pedia um posto arriscado e perigoso que só pudesse ser confiado à lealdade de um homem valente e resoluto.

351 - O VELHO ALCOFORADO - Fizestes bem e... talvez fizestes mal. Eu amo a juventude ardida e corajosa que só põe a sua confiança em Deus e na sua espada; mas a juventude é inexperiente; ela não sabe que neste mundo nada se faz sem proteção; era este o ditado de nossos avós, que também será o dos nossos netos. Que fareis vós sem ela, encontrando a cada passo estorvo e dificuldades? Ela nos é precisa; não para que sobremaneira se exaltem os nossos serviços mas para que eles sejam devidamente avaliados. E para o que serve aquela proteção que é impetrada sem baixeza e nobremente concedida. No entanto, não vos repreenderei: fizestes bem.

CENA IV[editar]

OS MESMOS, LAURA

352 - LAURA - Enfim, eis-me aqui!

353 - O VELHO ALCOFORADO - Boa noite, Laura.

354 - LAURA - A vossa bênção, meu pai.

355 - O VELHO ALCOFORADO - Deus te abençoe, filha. Pois saíste a desoras sozinha?

356 - LAURA - Levei comigo a velha Marta e o nosso velho criado nos acompanhava.

357 - O VELHO ALCOFORADO - E onde foste?

358 - LAURA - Primeiro à sepultura de minha mãe!

359 - O VELHO ALCOFORADO - Boa filha! Não te esqueceste que amanhã é o dia de finados! E depois?

360 - LAURA - Fui visitar as minhas amigas para lhes dizer que o nosso Antônio se partia amanhã. Talvez me demorasse mais tempo; mas como pensei que estáveis cá sem mim, voltei mais que depressa para a vossa companhia.

361 - O VELHO ALCOFORADO - E Deus sabe quão pesada me seria a velhice sem ti, minha Laura! Os meus ouvidos já se afizeram a ouvir a tua voz afetuosa e os meus olhos descansam com prazer sobre o teu rosto. És boa filha, Laura.

362 - LAURA - Sois vós que sois bom pai!

363 - O VELHO ALCOFORADO - E por que não bom amigo?

364 - LAURA - Oh! E um amigo bem indulgente... Não dizes nada, Antônio?

365 - ALCOFORADO - Que te direi eu, minha irmã?

366 - LAURA - Não ouvis que pergunta é aquela, meu pai? O que me dirás tu? Que tens muita pena de nos deixar e que voltarás bem depressa para a nossa companhia.

367 - ALCOFORADO - Boa irmã! Sentirás muitas saudades minhas?

368 - LAURA - Muitas. (Mais baixo) Antônio, não sejas temerário; não morras por lá!

369 - ALCOFORADO - Terias muito pesar?

370 - LAURA - Talvez te não sobrevivesse.

371 - O VELHO ALCOFORADO (Severo) - Laura!

372 - LAURA (Ajoelhando-se) - Perdão!

373 - O VELHO ALCOFORADO - Só o pobre velho é que não precisa de nenhum dos seus bem amados que lhe cerre os olhos na sua hora derradeira!

374 - LAURA - Perdão, meu pai! Vós sois forte e prudente e não sofrereis com a morte de dois dos vossos filhos que se esqueceram de vós para só cuidar de si.

375 - O VELHO ALCOFORADO - Ingrata! De que me servirá a minha prudência contra o esquecimento de meus filhos?... De que me servirá a minha força quando não fordes todos em redor de mim, vós que fortaleceis a minha velhice e que sois a minha só consolação?... Porém, de que me queixo eu?... O bom filho é. aquele que trata a seu pai com respeito; que o não ame, pouco importa.

376 - ALCOFORADO - Sois injusto, meu pai!

377 - O VELHO ALCOFORADO - Tendes razão, Antônio; eu me esquecia de vós. Seja Deus louvado, que ainda tenho um filho!

378 - LAURA - Meu pai, olhai para as minhas lágrimas e vede se elas vos não merecem compaixão.

379 - O VELHO ALCOFORADO - Eis-me a chorar como uma criança. Levanta-te, filha: o pobre velho tresvariou com as vossas palavras loucas e foi injusto para contigo. Tu és uma boa filha e amas bem a teu pai!

380 - LAURA - De todo o meu coração.

381 - O VELHO ALCOFORADO - E em todo tempo te hás-de lembrar que ele precisa da tua vida nos poucos dias que lhe restam para vegetar sobre a terra. Não é assim?

382 - LAURA - Sim, bom pai.

383 - O VELHO ALCOFORADO - Deus foi misericordioso para comigo! Ledo e tranqüilo, são de corpo e de espírito, vou caminhando para a eternidade acalentado pela voz de meus filhos. O prazer que desfruto é precursor da vida celeste e a minha velhice é a aurora da bem-aventurança. Louvado seja o Senhor!

CENA V[editar]

OS MESMOS, MANUEL

384 - MANUEL - Eis a espada, meu irmão. Boas noites, Laura.

385 - LAURA - Boas noites, irmão.

386 - MANUEL - A vossa bênção, meu pai.

387 - O VELHO ALCOFORADO - Deus vos abençoe. Trocastes a vossa espada?

388 - MANUEL - Não, meu pai, empresto-a

389 - O VELHO ALCOFORADO - Como! Pois ides sair, Antônio?

390 - ALCOFORADO - Sim, meu pai: estava só à espera da vossa bênção e da vossa permissão.

391 - O VELHO ALCOFORADO - Ides...

392 - ALCOFORADO (Hesitando) - Vou...

393 - O VELHO ALCOFORADO - Concebo a vossa hesitação. Como é amanhã o dia de finados, ides orar pelos mortos, como é de um bom cristão.

394 - ALCOFORADO - Não, senhor!

395 - O VELHO ALCOFORADO - Não!... Ah! Sim!... Como sois bom filho ides talvez antes de vos partirdes orar sobre a sepultura de vossa mãe.

396 - ALCOFORADO - Não, senhor!

397 - O VELHO ALCOFORADO - Não!... Ah! bem. Como sois bom amigo, ides talvez despedir-vos dos vossos amigos.

398 - ALCOFORADO - Não, senhor.

399 - O VELHO ALCOFORADO - Não! Então a que saís?

400 - ALCOFORADO - Não me interrogueis, meu pai!

401 - O VELHO ALCOFORADO (Com desconfiança) - Ides sozinho?

402 - ALCOFORADO - Sozinho.

403 - O VELHO ALCOFORADO - E não quereis levar o nosso criado na vossa companhia?

404 - ALCOFORADO - Não o posso levar.

405 - O VELHO ALCOFORADO - Pois eu vos digo que não saireis sem que me digais primeiro o que vos obriga a sair.

406 - ALCOFORADO - Peço-vos que me não interrogueis, meu pai.

407 - O VELHO ALCOFORADO (Levantando-se) - Que vos não interrogue!... Pretendeis sair a desoras e sem testemunhas, de espada e com os vestidos concertados, e não quereis que vos interrogue!... Onde ides vós, senhor?

408 - ALCOFORADO - Eu vô-lo suplico.

409 - O VELHO ALCOFORADO - Oh! Isto merece uma explicação. Retirai-vos.

CENA VI[editar]

O VELHO ALCOFORADO, ALCOFORADO

410 - O VELHO ALCOFORADO - Vede a que me obrigam os vossos mistérios, que oxalá não sejam escandalosos!... Fazei que um pai expulse seus filhos da sua presença porque ele terá talvez de vos dizer algumas dessas rígidas verdades que por eles não devem ser ouvidas. Onde ides, mancebo?

411 - ALCOFORADO - Senhor, não o posso dizer.

411-A - O VELHO ALCOFORADO - Vós não ides cumprir com os deveres de amigo, nem de filho, nem de cristão; ao que ides, pois? Passar talvez a noite em algum lupanar, ou sobre a banca do jogo, ou em orgias de homens intemperantes e envilecidos, ou escalar algum muro como ladrão noturno para roubar a honra de alguma família honesta, ou bater sorrateiramente a alguma porta humilde para pagar a recepção cordial que durante o dia vos fez algum homem honrado e franco com a traição de um libertino. É infame!

412 - ALCOFORADO - Meu pai!

413 - O VELHO ALCOFORADO - Dizei, senhor, dizei na vossa consciência que não ides praticar alguma ação criminosa.

414 - ALCOFORADO - Em consciência não o sei.

415 - O VELHO ALCOFORADO - Sei-o eu, senhor!... Sei que o homem que marcha treda e cautelosamente apalpando as trevas e que não ousa confessar altamente as suas ações, muito se assemelha àquela ave de mau agouro, cujos olhos não podem suportar a luz do dia, cujo canto é um anúncio de desventura; sei que tão grande mistério pode encobrir uma virtude muito preclara, ou um vício muito vergonhoso. Dizei que ides praticar uma dessas virtudes cobertas com o precioso manto da modéstia, diáfano para Deus, impenetrável para os homens.

416 - ALCOFORADO - Nunca vos menti, senhor.

417 - O VELHO ALCOFORADO - E, se o houvésseis feito, a Providência Divina que vos guiasse no caminho da vida porque teríeis morrido para mim. Talvez me julgueis severo por me crerdes pouco sensível ou por supordes talvez que o tempo, que gelou o sangue nas minhas veias, já me fez esquecer da quadra em que fui da vossa idade, em que também fui novo e cheio de esperanças na vida e em que também dizia comigo o que agora lá vós estais dizendo convosco: - além, naquele marco deixarei este caminho e tomarei outra vereda. Não; sou indulgente e pouco severo a ponto de vos confessar que também fui novo e que alguns erros cometi quando tinha a vossa idade. Pois quem é perfeito neste mundo? - Mas eu vos asseguro que a minha vida escrita, conquanto em parte me pesasse dela, não me traria um só remorso, nem me desconceituaria a minha velhice: asseguro-vos ainda que, em vésperas de um dia duas vezes santificado pela religião e pelo sentimento, nunca abandonei eu o teto de meus pais, como homem sem crença e filho pouco respeitoso, para me entregar às carícias de uma criatura sem pejo. Há limites em tudo, mancebo.

418 - ALCOFORADO - Senhor, por que me supondes capaz de tão negro feito, ou por que vos mereço tal conceito? Acaso me tenho eu mostrado revel aos vossos conselhos, ou terei desaprendido as vossas lições? Não, senhor: se não vou praticar uma virtude, também não é o vício nem o crime quem lá fora me está chamando. Não é criminosa a ação que vou praticar; juro-vos...

419 - O VELHO ALCOFORADO - Jurai, senhor, jurai! No meu tempo o homem que ambicionava uma espada, ou que já a podia trazer consigo, tinha o juramento por uma coisa veneranda e sagrada e usava dele apenas nas circunstâncias de momento. Era o vassalo que jurava lealdade a seu rei; era o cidadão que jurava amor à sua pátria; era o guerreiro que jurava morrer com o seu companheiro de armas. Por isto o juramento era entre eles uma religião e os mais altos como os mais humildes não se atreviam a quebrá-lo. Hoje, porém, fizeram dele uma fórmula para os usos da vida e a criança desde o berço aprende a balbuciar essa palavra vazia de sentido que noutro tempo foi símbolo de fé e era condão de prodígios.

420 - ALCOFORADO - Como vos poderei eu confiar um segredo que me não pertence? Há bem tempo que vô-lo teria dito, se ele fosse todo meu, e se a minha confissão a ninguém mais comprometesse. Eu vos respeito como meu pai, eu vos amo como amigo, eu vos estimo como homem probo e cheio de integridade; sei que é impossível trairdes um segredo: mas devo eu traí-lo primeiro? Aconselhai-me, vós que tendes experiência da vida: dizei-mo, vós que sois meu mestre; posso eu fazê-lo?

421 - O VELHO ALCOFORADO - O segredo é inviolável; tendes razão.

422 - ALCOFORADO - Deixai-me então sair, bom pai. Oh! Se soubésseis quanto sofro por vos não poder confiar tudo!... sede indulgente mais uma vez, talvez a derradeira. Esta demora me tem martirizado; largos anos tenho vivido nestes curtos instantes! Deixai-me partir.

423 - O VELHO ALCOFORADO - E não há perigo?

424 - ALCOFORADO - Nenhum, nenhum! Eu vô-lo asseguro.

425 - O VELHO ALCOFORADO - E aquela espada?

426 - ALCOFORADO - Foi um capricho de meu irmão que não sabe a que vou. Dir-lhe-ia um segredo que vos não digo a vós? Bem vedes que nada arrisco: deixarei a espada e é até melhor que eu vá desarmado.

427 - O VELHO ALCOFORADO - Levarás a espada!

428 - ALCOFORADO - Bom pai, quanto vos agradeço!

429 - O VELHO ALCOFORADO - Vai, e Deus seja contigo.

430 - ALCOFORADO - Irei e voltarei bem depressa. (Cingindo a espada) - O mais depressa que eu puder. Vereis que nada me acontece. Meu Deus! Como partiria eu tão alegre, se de alguma coisa me arreceasse!

431 - O VELHO ALCOFORADO - Vai, meu filho.

432 - ALCOFORADO - Nada receeis. Adeus, bom pai. (Vai-se)

433 - O VELHO ALCOFORADO (Ficando pensativo: alguns dobres ao longe) - Meu filho! meu filho!... (Vai-se).

CENA VII[editar]

Uma câmara no Palácio do Duque

434 - O DUQUE (Entrando desalinhado e com os cabelos em desordem.) - O javali esteve a despedaçá-la... o venábulo roçou-lhe o rosto... e eu vejo ainda o cadafalso de meu pai!... Crime ou fatalidade, um deles me está iminente; mas qual? Isto não é superstição, é um presságio, uma intuição do futuro. Vejo o relâmpago, o raio não tardará a cair... mas sobre quem?... Por quê?... não o sei, mas é inevitável!... Oh! Venha embora o azar maldito, que não será pior que esta ansiedade!...

CENA VIII[editar]

O DUQUE, FERNÃO

435 - FERNÃO (Da porta, com uma carta) - Senhor Duque!

436 - O DUQUE - Entrai, Fernão, (Senta-se).

437 - FERNÃO - Senhor! Que tendes vós? arrisca a vida por generosidade!... Chama esse pajem!... Não. não... (Com voz rouca) Seria divulgar a minha vergonha!

438 - O DUQUE - Nada: dai cá. (Lê a carta e atira-a sobre a mesa) El-rei nos concede os dízimos do pescado em Lisboa e não sei em que outras terras: para que os quero eu?

439 - FERNÃO - É uma indenização do que tão desgraçadamente sofreu o senhor vosso pai e do que vós mesmo haveis sofrido na vossa fazenda.

440 - O DUQUE - Velho, não assististes a meu pai no seu derradeiro instante?

441 - FERNÃO - Fui eu, senhor: não vos contei já essa história?

442 - O DUQUE - Sim; eu, porém, gosto de recordar dessa desgraça para adormecer a minha dor com o excesso do sofrimento. Meu pai, moço, nobre, leal e valente, foi decapitado e exposto no cadafalso como se fosse um miserável! Fernão, conheceis alguém mais desditoso?

443 - FERNÃO - Vós, senhor.

444 - O DUQUE - Eu! Que sabeis vós?

445 - FERNÃO - Senhor, eu vos hei servido leal e firmemente. Quando vosso pai ouviu a sua sentença, tomou-me à parte e me fez jurar que eu vos salvaria a custo da minha própria vida. Quando acabaram de cometer aquela sanguinolenta injustiça, fui buscar-vos, e com vosso irmão fugimos, e caminhamos noite e dia. Foi somente quando pisamos a terra hospitaleira de Espanha que eu tive lágrimas para chorar e algumas palavras para vos dizer.

446 - O DUQUE - Sois fiel, Fernão.

447 - FERNÃO - Depois disso eu vos tenho sempre acompanhado no desterro como na opulência e nunca vos pedi prêmio nem sequer minguado, não de serviços relevantes, mas dos longos anos que vos hei servido.

448 - O DUQUE - Sois fiel e desinteressado, Fernão, mais amigo do que servo. Mas o que quereis com isso?

449 - FERNÃO - Assim, pois, senhor, se me escapar algumas palavras incompatíveis com o respeito que vos é devido, vós desculpareis a franqueza do velho que vos respeita como a seus senhor e,... perdoai-lhe, que vos ama como a seu filho!

450 - O DUQUE - Falai! Falai!

451 - FERNÃO - Eu vô-lo direi de joelhos para que me perdoeis o arrojo do vosso servo. Senhor, não é bem desgraçado o nobre traído na sua honra?

452 - O DUQUE - Vossas palavras são profundas e contadas, vós sois prudente e cauteloso: eu vos escuto!

453 - FERNÃO - Senhor, não confiastes a alguém a vossa honra?

454 - O DUQUE - A ninguém. Somos o primeiro a velar sobre ela e não a fiamos de ninguém.

455 - FERNÃO - Senhor, não a confiastes a alguém?

456 - O DUQUE - A ninguém!... Ah! (Levanta-se batendo com a mão na testa e agarrando no braço de Fernão) - Que sabes tu da duquesa?

457 - FERNÃO - Sede prudente, senhor, eu vô-lo suplico.

458 - O DUQUE - Fala!

459 - FERNÃO - Não vos arrebateis, senhor; ouvi-me primeiro.

460 - O DUQUE - Fala!

461 - FERNÃO - Oh! Que bem me arreceava eu de vos confiar este segredo!

462 - O DUQUE - Fala, carrasco!

463 - FERNÃO - Eu vô-lo direi. O pajem que esta manhã foi anunciar a vossa visita à senhora duquesa encontrou Alcoforado a seus pés.

464 - O DUQUE - Outra prova!

465 - FERNÃO - O vosso rosto me atemoriza!

466 - O DUQUE - Continua!

467 - FERNÃO - O senhor Alcoforado traz no barrete um laço da fita que a senhora duquesa costumava de trazer ao colo.

468 - O DUQUE - Eu vi! Fui eu quem lha dei. (Ouve-se o dobre ao longe) Abre aquelas janelas.

469 - FERNÃO - Senhor, a noite vai fria.

470 - O DUQUE - Abre-as; gosto daqueles sons. (Fernão vai abrir as janelas) E eu o elogiei diante dela! Muitas vezes o chamei à sua presença! E ainda hoje!... Que sabes mais?

471 - FERNÃO - Rozeimo, o pajem da senhora duquesa, levou-lhe hoje uma carta.

472 - O DUQUE - Morte e sangue!

473 - FERNÃO - Senhor! Senhor, sede corajoso; não vos deixeis arrebatar pela vossa cólera, pesai a vossa justiça. A carta era de Paula!

474 - O DUQUE - Algoz, e que me importa Paula?

475 - FERNÃO - O pajem assim o julgou e abriu-a indiscretamente. Dizia a carta que à meia-noite uma corda estaria pendente do balcão da senhora duquesa.

476 - O DUQUE - Estúpido! Estúpido! Estúpido!

477 - FERNÃO - Senhor! Senhor!

478 - O DUQUE - Julguei-o leal porque era novo; julguei-o generoso porque o vi arriscar a vida e não conjecturei logo que se não arrisca a vida por generosidade!... Chama esse pajem!... Não... não... (Com voz rouca) Seria divulgar a minha vergonha!

479 - FERNÃO - Senhor, as minhas palavras não são evangelho; pode ser que me iludissem: moderai-vos!

480 - O DUQUE - Nasceste em minha casa, acompanhaste a meu pai na sua última hora, acompanhaste-me no meu desterro e encaneceste no meu serviço; pois juro-te que, se esta noite o infame não for encontrado neste palácio, morrerás como um cão!

481 - FERNÃO - Ele virá, senhor.

482 - O DUQUE - Virá!... Tu me insultas, velho!

483 - FERNÃO - Perdão! Perdão!

484 - () DUQUE - O cobarde! O cobarde!

485 - FERNÃO - Vós empalideceis, senhor; as vossas mãos estão frias!...

486 - O DUQUE - Não te importes. Escuta. Eu posso morrer antes da meia-noite...

487 - FERNÃO - Não digais tal, senhor.

488 - O DUQUE - Escuta. Encobre a minha morte, distribui gente armada pelo parque; deixem-no entrar: entrado ele, toma as saídas; tomadas elas, vai ao quarto da duquesa, arromba as portas, assassina-os, assassina-os!

489 - FERNÃO - Senhor, eu vô-lo peço de joelhos: não me obrigueis a cometer um crime no fim da minha velhice.

490 - O DUQUE - É justiça; jura que o farás.

491 - FERNÃO - Senhor, é justiça tomada por vós, mas não tomada por mim!

492 - O DUQUE - Jura, ou eu te apunhalo!

493 - FERNÃO - Eu o juro!

494 - O DUQUE - Vai. (Fernão sai)

CENA IX[editar]

495 - O DUQUE (Só) - Eu estava sufocado! (Corre a um armário, tira alguma armas que arrola sobre a mesa) Sangue!... Sangue!... Sangue (Cai).

FIM DO ATO SEGUNDO E DO TERCEIRO QUADRO